O Quarto do Menino

"No meu quarto que eu lia, escrevia, desenhava, pintava, imaginava mil projetos, criava outros mil objetos... Por isso, recebi o apelido de 'Menino do Quarto', título que adotei como pseudônimo e hoje, compartilho neste 'Quarto Virtual do Menino', o que normalmente ainda é gerado em meu próprio quarto". Bem, esse início já é passado; o 'menino' se casou (set/2008); há agora dois quartos, o do casal e o da bagunça... Assim, diretamente do quarto da bagunça, entrem e fiquem a vontade! Sobre a imagem de fundo: A primeira é uma reprodução do quadro "O Quarto" de Vicent Van Gogh; a segunda, é uma releitura que encontrei no site http://www.computerarts.com.br/index.php?cat_id=369. Esta longe de ser o MEU quarto da bagunça, mas em 2007, há um post em que cito o quadro de Van Gogh. Como disse, nada mais propício!!!... Passaram-se mais alguns anos, e o quarto da bagunça, já não é mais da bagunça... é o Quarto do Lorenzo, nosso primogênito, que nasceu em dezembro de 2010!

quarta-feira, janeiro 11, 2023

21 EM CADA PERNA: meu aniversário está próximo

Daqui há quatro dias completo 42 anos de idade - 21 em cada perna. Quatro décadas e dois anos é a minha soma. Morando os últimos meses sozinho lá no sul do Paraná, mais precisamente, no norte de Santa Catarina, meu kitnet era vizinho de uma funerária, que depois saiu do local, permitindo que a padaria expandisse. Entretanto, ali no centro é possível encontrar outras duas ou três - senão mais funerárias. A maior concentração de funerárias, barbearias e petshops do Brasil, segundo minha própria percepção (fonte: vozes da minha cabeça).


Chegar quase onze horas da noite, depois de dar aula, abrir o pequeno portão, passar pelo corredor, cujas janelas eram da própria funerária. A solidão naqueles dias era gigante e fez-me pensar e repensar no sentido da existência com muito mais intensidade - mais do que o comum.

Estacionamento exclusivo da funerária, minha vizinha

Funerária um pouco mais a frente, na mesma praça

Em anos passados escrevi sobre velórios. Um texto específico sobre a morte da Nina, mãe da Gisele, que estudou comigo no Ensino Médio. Éramos vizinhos de bairro. Eu morava na Rua Carlos Santili, 45. Nina e família moravam na esquina das ruas Luís Rodolfo Miranda e Olar Durigheto. Naquele texto, uma das reflexões que levanto: estarei em quantos outros velórios? Quem estará no meu velório?


Pois bem, não sei quem estará no meu velório, nem quando será, mas sei que no meu velório quero leituras e declamações dos poemas - ou crônicas - de Cecília Meireles. Os presentes que quiserem agradar este ser hoje consciente e que escreve nesse instante - meu corpo será apenas uma concha vazia, como escreveu Edna Adan Ismail, todavia será uma maneira de espalhar poesia, artigo de "luxo", num dia aparentemente triste. Fernando Pessoa escreveu que para ele, o cadáver é como um "trajo", o corpo é como o "terno único" e "alguém se foi embora e não precisou levar aquele fato único que vestira".

Os poemas de Cecília são a expressão da perfeição da imperfeição humana. Poeta que escreveu sobre a brevidade da vida e a iminência da morte terrena de modo tão sublime. Um morto no caixão não manda em nada, mas, registro aqui: leiam poemas de Cecília Meireles em meu velório, dure ele uma hora, dez ou 24 horas (desnecessário!!).

Agora vou escrever sobre o passado.

Nasci no século XX. Amo números romanos, seu funcionamento e lógicas diferenciadas dos números arábicos. Eu criei uma forma idiota para conseguir recordar alguns como "linquenta" (L = 50, cinquenta) ou "dinhentos" (D = 500, quinhentos). I, V, X, C e M eram mais fáceis de lembrar, sendo C e M diretamente relacionados.

15 - 01 - 1981

Era uma quina-feira, 18h40, Maternidade Maria Isabel Sampaio Vidal, em Marília-SP, se acreditarmos nos registros. Devo ter registrado em algum texto minha estranheza em perceber que nasci numa cidade relativamente jovem, em janeiro de 1981, Marília contava com 51 anos de emancipação.


As opções de nomes que minha mãe escolheu eram: André Luís, Álvaro e Paulo Henrique. Amo meu nome - ou me acostumei a ele. Uso Álvaro como pseudônimo em pesquisas que participo. Paulo Henrique é um estranhamento, mas se tivesse sido a opção da minha mãe, eu diria o mesmo de "André Luís" hoje. "A", primeira letra do alfabeto ocidental. Janeiro - primeiro mês do ano ocidental. Minha data de nascimento possui o número 1 no dia, mês e ano. Convenções! Tudo convenções de época, cultura, circunstância. Janeiro e fevereiro foram incluídos no calendário romano (calendário juliano, somente em 46 a. C., como acabo de pesquisar e ler na Wikipedia).

42 anos parecem tantos anos... Porém, divididos em décadas:

1a) 1981-1991, 2a) 1991-2001, 3a) 2001-2011, 4a) 2011-2021...

Na primeira década, fui bebê, criança; na segunda, fui basicamente estudante; na terceira, terminei o mestrado, casei e fui pai do Lorenzo; na quarta, terminei o doutorado, mudamos para Londrina, Benjamin nasceu e mais dois anos de pandemia do coronavírus...

Dentro de cada década, preenchida com vivências, experiências, aprendizados, traumas... Toda a vida fui intenso, sensível ao extremo, vulnerável a toda e qualquer interferência e não precisava ser nada muito drástico. Não por acaso, meu apelido dentro de casa foi "manteiga derretida"; na vizinhança e escolas, os "apelidos" eram mais incisivos: bichinha, viadinho, florzinha... Numa discussão na 5a série, então com 11 anos, na qual eu estava defendendo uma outra aluna de ser passada para trás, a Miléia disse que eu não morreria, pois "bicha não morre, vira purpurina"...

A ponta do meu dedo indicador carrega uma cicatriz por uma desobediência e arte - uma das poucas que cometi, na primeira década. Chegou uma visita em casa, aproveitei a distração da mãe, para pegar a faca e cortar o bambu verde, para construir pipas - que eu não empinava, com medo da força do vento.


Todos esses atropelamentos, determinaram os encaminhamentos para as décadas seguintes. Uma das minhas memórias mais antigas, quatro ou cinco anos de idade, estava só de cuequinha e chinelo, sentei no degrau do quartinho de bagunça e levei uma ferroada de marimbondo no bumbum. É como se pudesse sentir a dor e lembro que chorei muito. Com sete anos tive que ir ao hospital para expurgar um furúnculo gigante no pescoço... lembro da gritaria e do desespero do meu pai, tentando meu acalmar...

A segunda década da minha vida, como escrevi, fui basicamente estudante do Ensino Fundamental, Médio e Técnico. Destaco o período que minha mãe entrou em alguns consórcios com um biscate conhecido (Elias e sua belina) que vendia de lençóis, colchas, roupas a eletroeletrônicos e, justamente por isso, tivemos nosso primeiro e único micro-ondas, bem como nosso primeiro e único videocassete.

Ele é o ponto central aqui! Meus finais de semana, caminhava até a Avenida João Ramalho para a Hobby News Videolocadora. Dependendo do dinheiro disponível para o aluguel das fitas VHS, eram duas a quatro por fim de semana. Durante esse período, comprava a revista SET e criei, num caderno universitário usado, uma espécie de catálogo: uma lista enumerada dos filmes que já tinha visto, recordada no início da lista e depois alimentada/atualizada conforme ia assistindo aos filmes, alugados ou vistos na TV aberta.

Da minha casa até a videolocadora, caminhando, uns 10 minutos

Depois, nesse mesmo caderno, criei páginas para meus atores favoritos, como Whoopi Goldberg e na frente de seus nomes indicava os números dos filmes que participaram. Na minha lista, por exemplo, "A cor púrpura" era o filme número um. 2."O Rei Leão", 3."Lua de Cristal", 4."Ghost, do outro lado da vida", 5."Inimigo Meu" (com Dennis Quaid, meu deus, preciso rever esse filme pela milésima vez, pois as 999 vezes anteriores foram nessa segunda década de vida), 6."Corina, uma babá perfeita". Em frente ao nome de Whoopi Goldberg estava os números: 1, 4, 6... Dennis Quaid: 5; Ray Liotta: 6...

No filme "Corina...", uma babá negra e um viúvo branco, nos anos de 1950 nos EUA, se apaixonam e lembro como hoje uma fala racista da mãe ou avó do homem branco, algo como: um pássaro e um peixe podem se apaixonar, porém, onde farão o seu ninho?".

Fiz questão de focar nessa minha paixão juvenil por filmes, assistir filmes, saber sobre seus bastidores e os atores, comprar a revista, tinha uma coleção de capas de VHS - quatro por revista, que era uma publicação mensal, pois recentemente, iniciei um curso online "Escrita de roteiro para cinema e TV" e estou "feliz" com o que tenho aprendido. "Feliz" entre aspas significa "feliz, sem muita empolgação ou expectativas", ou seja, uma felicidade racional, não emocional. Satisfeito com o que tenho aprendido. Ciente de que sou um amador, meu senhor, quanta coisa para ver e aprofundar!

No livro que escrevi e publiquei no início de 2020, escrevi nas páginas 79/80: "Pastor Alexandre, que celebrou nosso casamento, disse que nossa história daria um bom livro. Eu penso em um roteiro de filme, oportuna motivação para retratar a relação entre Brasil e Bolívia, brasileiros e bolivianos e a nossa história como pano de fundo. Eu tenho uma imaginação muito fértil: 'o fantástico mundo de André'. Nesse caso, as histórias já estão prontas, fico imaginando quais delas selecionar e como serão as cenas, sets de gravação, como será a escolha dos atores mirins que farão Paula e André na infância".

Engraçado ler isso hoje. Aqui eu era o roteirista, o diretor geral, o produtor, o diretor de elenco... Foi a década mais acentuada do "Menino do Quarto", solitário, de casa para a escola, da escola para casa. No quarto eu lia, escrevia, desenhava, pintava, fabricava meus livros e preenchia meus diários, assistia a meus filmes (na sala), mas logo corria para meu lugar seguro.

A terceira década foi a de maior transformação: o Menino do quarto saiu do quarto, entrou na universidade - como eu amei aquele ambiente acadêmico-científico, a igreja e os grupos me ajudaram a ganhar confiança e seguir com meus novos objetivos, avançando, superando os anos anteriores de timidez patológica e solidão extrema.

A quarta década seguiu repleta de mudanças. Mudança de cidade/Estado, trabalho, teve a toxoplasmose congênita do Benjamin e quando o contrato para professor PSS na UEL, além de deteriorar, teve a mudança de chefia do Departamento de Educação (2018-2020), colaborando e muito para o desmoronamento da ilusão que eu tinha de tudo, até então. A única estabilidade, minha âncora foi a família: Paula, Lorenzo e Benjamin, apesar das tempestades internas e externas, que sofria e sigo enfrentando.

Próximo de completar meu quadragésimo segundo verão, pois nasci no hemisfério sul desse planeta, portanto, início do verão, sou um adulto relativamente realizado. Afinal, o que é sucesso? Questionei lá no livro, em 2020. Marido, pai, professor, ainda pago os boletos, aos trancos e barrancos, mas seguimos. Como indivíduo, sujeito psíquico, estou perdido, em desintegração, buscando uma nova estabilidade (sabidamente ilusória). E isso não é culpa de ninguém, nem minha. Todas as circunstâncias, eventos, fatos dessa minha vida trouxeram-me até aqui...

Quem sou eu? Para que vim? Para onde vou? Qual é o sentido de tudo? Essas perguntas-fantasmas, tão velhas quanto o homem e sua consciência da existência humana, respondidas e conformadas com momentos históricos, religiosa ou filosoficamente. Sou apenas mais uma pobre alma perdida, atormentada por esses fantasmas. Os religiosos, especialmente os radicais com os quais convivi das décadas, dirão que é justamente o que ocorre com quem se desvia, sai do caminho que é jesus, apostata da fé, blá blá blá blá... Coitados. tem pessoas muito boa nesse meio, poucas, raríssimas, mas estão mergulhados no radicalismo fanático religioso.

A manutenção da vida é cara e cansativa. Esse mantra se repete de quando acordo até me deitar, ter pesadelos horríveis e outra vez e novamente. algumas esperança? Nenhuma! E isso não é ruim. Desejo que meus filhos encontrem ou construam seus propósitos nesse mundo, que não tem nada de divino ou pré-determinado por um deus onisciente, onipotente e onipresente... Desejo que vivam de modo mais leve, se possível. Não carregar essa carga traumática da religião pode tornar a jornada mais leve... eles poderão escolher o caminho, sem nossa imposição de certo ou errado.

Na página 82 do meu livro: "Cartas do Menino do Quarto para o mundo", na carta dedicada à minha família (esposa e filhos), escrevi: "[...] Lorenzo e Benjamin, sou humano e, portanto, falho; desejo ser o melhor pai do mundo para vocês, mas, as tentativas de ser, são de um pai possível e real!".

Infelizmente, o livro está impregnado de "crentês", referências bíblicas e espirituais (cristãs), mas era no que estava imerso até então. E quando escrevo "infelizmente", não é pelo que vivi e aprendi lá. Muito mais pela forma como se deu. Como tudo na minha vida - e Paula tem o mesmo perfil, de mergulhar, sermos intensos, não fazer pela metade ou superficialmente. Como escrevi em outro momento, o cristianismo evangélico brasileiro, nesses últimos anos, extremista-radical, como podemos verificar com a mistura perniciosa com a política, de caráter fascista.

Consola-me saber que nesses 20 anos de "menino de igreja", e como casal também, tivemos nossos embates e enfrentamentos justamente por sermos questionadores. Batemos de frente com "figurões", pastores e líderes e, portanto, fomos tachados de rebeldes, insubordinados. Mudamos de local - isso em Marília e aqui, ficamos em um e desde a pandemia, graças a deus, Maria, santo expedito, exu, iemanjá, espírito André Luís, todas as bruxas queimadas e vivas, Pachamama e todas as forças vitais do Universo, não somos mais de nenhum local ou estamos debaixo de cobertura espiritual de seu-ninguém. Que alívio!

Recomendo: "Pachamama", uma animação francesa,
sobre a invasão e genocídio dos povos andinos

Caso você que me lê até aqui, se em algum momento do passado quando eu fazia parte desse radicalismo e extremismo religioso, tenha te ofendido por algum ponto de vista ou posicionamento sobre qualquer área e tenha te magoado ou ferido, peço perdão pela minha ignorância.

O que escreverei sobre o ciclo da 5a década de minha vida? (estarei vivo? não terá acontecido antes meu velório com declamações dos poemas de Cecília Meireles? Leiam "Biografia", leiam todos que citei na minha Live com a Fernandinha Meireles em 17 de novembro de 2021).

Ano de 2031, se vivo, completarei 50 anos, meio século e só faltam oito anos para essa data. Neste ano, 2023, deixarei de ser professor universitário, que tenho sido desde 2008 e vou experimentar ser professor de adolescentes, na Sala de Recursos para Altas Habilidades/Superdotação (como PSS ainda pelo Estado do Paraná) e, talvez, seja convocado para uma vaga no concurso para professor de Educação Básica, pela Secretaria Municipal da Educação de Londrina, ser professor de crianças, do 1o ao 5o Ano do Ensino Fundamental. Desafios!

Sem expectativas, tentando administrar todas essas mudanças no mundo das ideias. Vamos ver como será na prática.

A manutenção da vida segue cara e cansativa. Amenizada com poesia. Ótimo ópio, ela, a poesia... refletir sobre a crueldade da existência com inteligência, doçura e incisões precisas.

Seguimos!

Feliz 42 anos para mim.

Obrigado.

De nada.


sábado, janeiro 07, 2023

UMA MULHER EXTRAORDINÁRIA: impressões

 Desde o princípio da leitura, levantei a suspeita de que Edna foi uma menina e é, hoje uma mulher idosa,  cheia de vigor, superdotada. Todos os indicadores e características estão presentes em seu relato de vida, contados no livro: "Uma mulher extraordinária: a parteira que construiu um hospital e mudou o mundo", 2021, Editora Globo, tradução de Cláudio Carina.

Numa das últimas páginas, lemos: "[...] Eu morreria se não fosse necessária ou não tivesse um desafio a enfrentar. Nasci com a motivação de consertar coisas" (p. 296). Senso de missão em nível altíssimo a vida inteira.

Entretanto, a época em que nasceu, o país, a família, todo seu entorno de existência foram obstáculos que dificultaram ou - porque não, forjaram Edna ser a Edna que ficou mundialmente conhecida. Sua luta para que mulheres tivessem serviços adequados de pré e pós-natal, a um parto em condições necessárias para manter a saúde da mãe e do recém-nascido.

Toda sua vida, ao que pese as mais diversas e adversas circunstâncias - origem, língua, gênero - ela se forma como enfermeira em Londres e regressa ao seu país para estar ao lado do seu pai, como sempre esteve, desde os 12 anos de idade, agora como profissional da saúde formada.

O relato da mutilação genital que ela sofreu aos oito anos de idade é um dos textos mais chocantes que li na minha vida até hoje. A empatia que criei com ela desde o início, especialmente essa identificação por seu encantamento com o conhecimento, a curiosidade e o desejo de aprender sempre, vem abrupta e detalhadamente o relato do seu pior trauma de existência.

A seguir, compartilho os trechos que destaquei, de algum modo, 90% deles relacionados a esse perfil da superdotação. O livro não trata, obviamente sobre isso, vale a leitura na íntegra e, como escrevi no status no whatsapp, aprendi que existe um território independente chamado "Somalilândia" que não é a mesma que a Somália.





Aqui é o trecho de dois parágrafos que destaquei, quando Edna relata que o pai contratou um professor particular, comprou lousa, giz e livros para os meninos da vizinhança e primos mais novos. Como menina, não podia ser "aluna oficial", mas foi permitida ouvir as aulas.


Uma vida inteira de quase nove décadas para realizar a missão para a qual nasceu, recheada de dores, perdas, traumas...

Assim que terminei a leitura, busquei mais informações sobre Edna e seu hospital. Assisti sua palestra no TED Talk e vi as fotos do site oficial do hospital que ela construiu e administra.

TED x Edna Adan Ismail

Site Oficial do Hospital da Edna

quinta-feira, dezembro 29, 2022

ENTRE MIM E MIM

 Let's go! Mais um registro para a posteridade... Pessoa que me lê, espero que esteja relativamente bem... Eu estou relativamente bem. Digo relativamente, pois não há o "estar realmente bem", conscientemente, o "bem" é uma ilusão, enfim...

"Entre mim e mim" é um empréstimo que fiz de uma citação de Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa: "Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quantos sou? Quem é eu? O que é este intervalo que há entre mim e mim?" ("Livro do Desassossego", Bernardo Soares, p. 189).

Encontro-me exatamente neste intervalo, entre mim e mim, e faço o mesmo questionamento: o que é este intervalo entre o que fui e o que serei (serei?)?

[acréscimo, 09/01/2023]. Lendo algumas páginas da obra Poética de Cecília Meireles, encontrei esse: "Noções", que inicia exatamente assim: "Entre mim e mim, há vastidões bastantes/ para a navegação dos meus desejos afligidos. // Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos./ Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.// Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,/ só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.//Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a./Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,/e este abandono para além da felicidade e da beleza.//Ó meu Deus, isto é a minha alma:/qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,/como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera..." (p. 109).

O fato do Brasil ter eleito uma b6e6s6ta em 2018 me fez muito mal, sim, pela be6s6t6a em si, mas muito por todo o contexto que o elegeu e as pessoas que se converteram a essa b6e6s6ta. Mudanças importantes que já estavam em movimento dentro de mim, foram acentuadas...

Então veio a pandemia do coronavírus... A pandemia no Brasil foi um inferno diferente dos outros locais do mundo, se não o pior, um dos piores, sim, pela be6s6t6a no poder e seus filhotes - me refiro a todos, não apenas aos bestinhas de sangue e mesma merda!

Sou um sobrevivente desse cenário apocalíptico brasileiro... não tiveram a mesma "sorte" mais de 660 mil pessoas, especialmente os que perderam a oportunidade da vacinação em tempo hábil, pois sabemos que o "atraso" na chegada da vacina no Brasil esteve envolvido em escândalos...

Essa introdução se faz necessária para tentar montar um cenário. Outro grande trauma que preciso destacar é o modo como saí do trabalho na universidade que me trouxe até Londrina. De abril de 2013 a março de 2018 foram os melhores cinco anos, mesmo com as perdas contratuais sofridas pelos professores temporários.

A chefia que assumiu a partir de março de 2018 transformou um ambiente de trabalho que eu realizava - ainda que em condições precárias, comparada aos professores efetivos, num inferno. Pior, sem ser ajudado ou orientado por exatamente NINGUÉM...

Em janeiro de 2020, decidi sair, pois já estava muito, muito doente... as crises de depressão anteriores, as transformações internas, o cenário político-econômico brasileiro-paranaense...

Paula e eu brincamos que temos saudades do tempo do isolamento social. Sim. Foi incrível, não podemos negar, o tempo em nossa "mansão" na Rua Arthur... (esqueci o nome da rua... e estou ficando preocupado com minha saúde mental...).

Foi um período de medo pelo que estava acontecendo no mundo, porém, um período de mergulhar mais para dentro de mim... Leituras, exercícios de escrita... Escrevi em julho de 2020:

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BOTÃO


Uma coisa é certa:

Ligaram ou desligaram

Algum botão em mim.


Fato!


O que faço com ele?

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O que faço com ele, com o fato de sentir profundamente que esse botão, desligado ou ligado, apartou-me da ideia que eu tinha de mim, da minha existência até então? Até hoje, dois anos e meio depois, não sei responder...


Em agosto de 2020, escrevi outra versão, a mesma ideia do botão, agora um pouco mais estendida:


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BOTÃO ON/OFF


Das duas, uma:

um botão foi desligado

ou um botão foi ligado.


Algo se quebrou aqui dentro;

o que eu era se rompeu,

se desprendeu, não sei mais ser.


Não sou mais eu, não sei quem sou.

Só sei que tudo foi em vão.

Não há razões para ser.

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E ainda escrevi esse:

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A VIDA ME CANSOU


Não me cansei da vida,

A vida que me cansou.

Os sentidos - que nunca existiram,

Se desfizeram todos, como névoa.


Inerte, mente fria e estática,

Num corpo que perambula

E anseia pelo fim de tudo.

O motivo desse martírio todo?

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Não acreditar mais no deus cristão, na bíblia, na igreja não me aflige. É um alívio! Quem ainda está lá e ainda acredita, e é fanático-radical, dirá: "é o que acontece com quem se afasta da igreja, da fé...". E eu não responderei, pois minhas palavras e argumentos serão como jogar "pérolas aos porcos", essa figura de linguagem bíblica tão interessante (sendo meio sarcástico).


Deparo-me com o absurda da vida, do non-sense de existir... Muito obrigado, Camus por suas considerações relevantes e únicas sobre esse absurdo! Óbvio que entendi superficialmente, no senso comum, sem me aprofundar... Quem sabe um dia estudo profundamente!


Estar afastado das redes sociais desde 13/11/2022 e ter ocorrido tantos traumas de lá para cá, por exemplo, ser reprovado na prova didática para a Unespar de Apucarana, dia 25/11/2022. Teria tanto para escrever sobre vivenciar o processo eleitoral, primeiro turno, segundo turno... o nervoso que passei de estar na rodoviária de Curitiba, no dia 31/10/2022 desde as 6h30 da manhã e perto das 11h00 a empresa de ônibus anunciar que as viagens foram canceladas por conta dos bloqueios nas estradas, por conta dos bestinhas/merdinhas descontentes com o resultado do pleito no dia anterior... e olha que já foram tantos fatos esdrúxulos de lá para cá, por exemplo, terrorismo, com a tentativa de detonar um caminhão-bomba no aeroporto de Brasília, semana passada...


Entretanto, vim para o blog com o objetivo de registar os presentes que ganhei de Natal e o que rascunhei hoje, após a leitura e cópia manuscrita de uma poema de Cecília Meireles - sempre ela!


Passamos o Natal em casa. Carro quebrado, esperando o conserto do motor... Caro! Paula tinha comprado jogos para os meninos e eles perguntaram se nós não ganharíamos presentes... Paula foi ao centro da cidade no sábado, 24 de dezembro e comprou os livros de Cecília para mim e uma camiseta do Mickey para ela.








Ontem, comecei a ler e fazer cópias manuscritas de alguns poemas, estrofes ou versos marcantes. Hoje, ao ler e copiar "Conveniência", tive mais um episódio de "desejo fazer assim um dia". Assim, transcrevo abaixo o poema e o que escrevi.


CONVENIÊNCIA

CONVÉM que o sonho tenha margens de nuvens rápidas
e os pássaros não se expliquem, e os velhos andem pelo sol,
e os amantes chorem, beijando-se, por algum infanticídio

Convém tudo isso, e muito mais, e muito mais…
E por esse motivo aqui vou, como os papéis abertos
que caem das janelas dos sobrados, tontamente…

Depois das ruas, e dos trens, e dos navios,
encontrarei casualmente a sala que afinal buscava,
e o meu retrato, na parede, olhará para os olhos que levo.

E encolherei meu corpo nalguma cama dura e fria.
(Os grilos da infância estarão cantando dentro da erva…)
E eu pensarei: «Que bom! nem é preciso respirar!…»

Cecilia Meireles, Viagem

"Sonhar é livre, é gratuito e, não necessariamente precisa ou irá se realizar, ainda que se gaste até o último tostão e se desperdice os anos de vida em busca dos sonhos.


Enquanto copiava e meditava sobre o poema acima, eu que sonhei por várias vezes realizar projetos que envolvam vida e obra de Cecília Meireles, um filme biográfico, por exemplo, as cenas seriam quase todas elas, inspiradas nos poemas e crônicas.


Li que Cecília faleceu às 15h00 do dia 09 de novembro de 1964, em seu quarto, no bairro Cosme Velho, Rio de Janeiro.


O filme poderia começar ou terminar com base nesse poema (Conveniência), boa parte das cenas aceleradas, até culminar em seu espírito chegando em sua casa, na sala com o retrato, ela deita e encolhe o corpo - "numa cama dura e fria" - e ouvimos os grilhos (ou grilos) cantando e a câmera se aproxima dos olhos de Cecília que estão fechados e num clímax, eles se abrem de repente, como se voltando a respirar... e o filme começa ou termina..."





Estendendo o rascunho acima, em outros momentos em que penso sobre o filme que narrará a história de vida de Cecília, a referência a alguns poemas serão obrigatórias, como "Retrato"... As viagens de Cecília ao exterior, todas elas... as muitas viagens a Ouro Preto, para escrever o "Romanceiro da Inconfidência". Cecília menina, a cena e situações narradas no poema "Desenho": "Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,/ e comia mamão, e mirava a flor da goiaba". Vó Jacinta cantando e cosendo na sala e a menina Cecília a admirando profundamente... "E minha avó cantava e cosia. Cantava/ canções de mar e de arvoredo, em língua antiga./ E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos/ e palavras de amor em minha roupa escritas".

Da infância, entre tantas outras preciosidades que imagino é a convivência com sua amiga Josefina e que falece, num texto em "Giroflê, Giroflá", com o título "Josefina", Cecília descreve o impacto da morte de Josefina: "Encontrei-a no mais belo jardim do mundo [...]. Era, porém, o mais belo jardim do mundo, porque Josefina passava por ali, e suas saias crepitavam nas folhas secas e seus dedos tão brancos aramavam raminhos com malvas, miosótis, amores-perfeitos, - raminhos de trazer ao peito, de colocar diante dos santos, de pousar as mãos dos mortos..."

Enfim... vou ali aprender como se escreve um roteiro de um longa-metragem...


E encerro este registro de fim de 2022, com ela, sempre ela, Cecília Meireles, com dois trechos da crônica "A quinhentos metros":


"A quinhentos metros, os vossos belos olhos desaparecem; e essa claridade do vosso rosto; e a fascinação da vossa palavra. É uma pena (eu também acho que é uma pena!) mas, a quinhentos metros tudo se torna muito reduzido: sois uma pequena figura sem pormenores; vossas amáveis singularidades fundem-se numa sombra neutra e vulgar. Ao longe, caminhais como qualquer pessoa - e até como certas aves: é o que resta de vós: esse ritmo, na imensa estrada que também se vai projetando, estreita e indistinta, sobre o horizonte.


[...]


A quinhentos metros, na verdade, há muita ausência, vamos acabando muito depressa. Pensai que, geralmente, neste mundo, há sempre cerca de quinhentos metros de uma pessoa para outra! Somos só desaparecimento. E apenas quando conseguimos ficar, também, a uns quinhentos metros de nós mesmos, encontramos algum sossego. Porque, então, é a vez dos nossos tormentos mudarem de proporções e aspecto. De serem vistos só de longe, sem pormenores, sem voz, sem ritmo: nem mês de maio, nem flores, nem arroio. Talvez a memória serenada. Talvez nem a memória… - É assim em quinhentos metros!"


MEIRELES, Cecília. A quinhentos metros. In: Quadrante. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1962, p. 34-36.


Entre mim e mim, um intervalo de quinhentos metros!


A bientôt

terça-feira, novembro 15, 2022

Que não sejam estas minhas últimas palavras

Por onde começar? São 21h23m do feriado de 15 de novembro de 2022, uma terça-feira. Estou na cama do quarto do kitnet, apartamento 24, na praça Hercílio Luz, no. 39, na cidade de Porto União-SC, grudada com União da Vitória-PR, onde trabalho, como professor temporário na Unespar. Contrato iniciou em 29 de abril de 2021, remotamente, por conta da pandemia do covid-19, e, desde maio desse ano, precisei me mudar, sozinho, para cá. Família - esposa e filhos, ficaram em Londrina.

Foram dias, semanas, meses difíceis, obviamente, porém, as palavras jamais poderão contemplar o que foi e está sendo toda essa vivência. Pois não é "só isso". É toda a vida e suas incontáveis e incalculáveis surpresas e obstáculos, que a maioria das pessoas dizem servir para crescimento e amadurecimento, porém, digo que servem apenas e exclusivamente para fazer sofrer!

Desde o último domingo, 13 de novembro, desinstalei Facebook e Instagram do meu celular. Minhas redes sociais, como a maioria das pessoas que as usam servem como contatos imediatos com o exterior e outras tantas possíveis distrações, divertimento com vídeos de estranhos, a incrível produção e criatividade dos memes, a vida no Brasil nesses tempos turbulentos, violência política e tudo que não consigo escrever...

Sozinho, longe da família, sem as redes sociais, distraindo-me agora somente com o Gatinho Tom - aplicativo de jogo e com a Duolingo, aplicativo de línguas/idiomas... justo hoje, esse último resolveu mudar o layout e eu detestei a mudança... Entretanto, como costumo dizer, mesmo sem querer adaptar-me-ei ao novo... como me adaptei a essa vida mais solitária, mesmo não gostando... Nós, simples mortais, temos um superpoder: é o da adaptação!

Fiz muitas, várias, diversas postagens nas redes sociais... O último texto que publiquei aqui, nesse blog querido, amado, porém "desprezado", foi em janeiro de 2022. "Desprezado" por mim e por leitores. Ninguém quer ler textos enormes, afinal, estamos na era dos vídeos curtos e engraçados e dos muitos divertidos memes.

Ah, outra coisa que tenho feito um pouco antes de abandonar as redes sociais e segui firme depois, foi maratonar a série "This is us"... eu tinha começado faz um tempo, inclusive, como sugestão de uma pessoa que, faz um tempo, detesto a lembrança de tê-la conhecido e os dias de convivência, infelizmente. Pois, essa pessoa e suas ações e palavras estão vinculadas a tudo que não acredito mais e que me faz muito mal saber que passei 20 anos da minha vida "preso" a crenças tão limitantes,  limitadoras, castradoras, enfim...

Essa série é uma tortura! Porém, não consigo me desvencilhar... Tenho outros amigos que dizem "amar" a série, que é perfeita, maravilhosa... Deve ser. Teria sido para mim, em outro momento da vida. Nós, humanos, que vivemos de relacionamentos, e temos que aprender a criá-los, alimentá-los, resolvê-los e saber perdê-los, pois assim é a vida e assim somos nós - this is us! Estou terminando a segunda temporada - e são seis! Meu senhor jesuuuuiiiiissssss da goiabeira, quanto sofrimento!

Espero que essas não sejam minhas últimas palavras, não porque desejo me matar, ou porque sinto que vou morrer amanhã ou logo... Porém, a imprevisibilidade da vida é esmagadora!

Paula perdeu uma tia na Bolívia hoje. É a terceira tia que morre desde que ela está no Brasil - mais o primo Jaime (acidente de ônibus). A segunda a ter uma morte trágica. Tia Maria foi a primeira, morreu atropelada. Tia Aleja foi a segunda, ficou doente, faleceu. Tia Alzira estava embriagada, sozinha, caiu da cama e se afogou com o sangue provocado pelas fraturas. Uma idosa. Estava sozinha em casa, ainda que tenha trazido ao mundo 11 filhos...

Minha sogra, dona Júlia, mais velha que tia Alzira, já vem uns meses doente, na cama, quase se foi mês passado. Paula acredita que a mãe não morre, com a esperança de poder revê-la e ver novamente os únicos netos: Lorenzo e Benjamin. Se viram pessoalmente última vez em agosto de 2019. Quando conheceu por primeira vez Benjamin.

Minha família e eu estamos mais distantes do que nunca - mãe, pai, irmãos. Não soubemos criar, alimentar, resolver os relacionamentos nos anos que vivemos juntos, muito menos agora morando longe. Não há quem culpar, pois os adultos não souberam ensinar às crianças, pois também não tiveram exemplos e, assim, seguimos.

Tia Alzira, que tragicamente perdeu a vida hoje, uma vida de sofrimentos e privações de todas as ordens, último domingo comprou "chicharron" (um prato tipicamente boliviano) e levou para a irmã, dona Julia, algo muito raro - pois foi uma senhora de pouquíssimas posses... Era uma despedida. Semana passada, tia Mêche, outra irmã, estava com dona Júlia e disse: muitos pássaros cantando, não tem água para dar a eles... alguém irá morrer... e dona Júlia externou: será que chegou a hora da minha partida?

Todos esses acontecimentos são muito recentes... e nem contei tudo o que se passou nesses últimos tempos. Vários dias com dor de cabeça. Dores na mandíbula, ATM ou bruxismo. Uma ansiedade do tamanho de um dragão. Passei para a segunda fase do concurso na Unespar, em Apucarana, vizinha de Londrina. Daqui a menos de duas semanas é a prova didática e de títulos.

Em junho, fiz outro concurso para a Unesp em Marília, minha cidade natal e não passei na primeira fase, por meio décimo (0,5). Preciso administrar tudo isso e um pouco mais, pois sempre é mais e mais e mais e muito mais.

Por exemplo, esse ano tivemos covid - e nos dias em que fiz a prova em Marília. Este ano, Benjamin recebeu o diagnóstico de síndrome de Hashimoto e, desde então está tomando "puran" todos os dias. Lorenzo recebeu o diagnóstico de asma e está fazendo uso de bombinhas, duas vezes ao dia... Esse ano, Lorenzo já torceu o pé, no treino de badminton e usou muletas por 8 dias. Esse ano, Benjamin e Paula foram para Macapá-AP (setembro) e em Novo Hamburgo-RS (outubro), em ambos lugares para participar de Feira de Ciência e Tecnologia, por conta do projeto "Todos contra o lixo: em defesa dos animais marinhos e silvestres".

Benjamin ganhou um concurso de desenho na TV e o prêmio foi um tablet; ele deu entrevista em dois programas de duas emissoras locais diferentes; reportagens no blog da prefeitura de Londrina e de outros canais nas redes sociais. Lorenzo participou de várias Olímpiadas Nacionais de diversas áreas do conhecimento e ganhou medalhas de ouro e prata.

A vida "e suas incontáveis e incalculáveis surpresas e obstáculos, que a maioria das pessoas dizem servir para crescimento e amadurecimento, porém, digo que servem apenas e exclusivamente para fazer sofrer!", escrevi lá no início... Eu não sou mais eu... Na verdade, eu não sou mais a ilusão que tinha criado de mim, da minha vida toda... esse processo de desintegração não cessa e está ficando cada vez mais difícil.

Até quando? E qual será o resultado desse processo intenso e dolorido? Estou esgotado...

Hoje, depois do banho, decidi ir até a praça aqui em frente - evento raríssimo! Levei "Flor de Poemas" comigo e abri ao acaso e li, por primeira vez "O Aeronauta" (Cecília Meireles). Neste livro, especificamente, não estão os poemas completos - é uma seleção de Darcy Damasceno. Assim, finalizo este texto sem pretensão alguma, reproduzindo a primeira estrofe do Poema 1, d'O Aeronauta que fiz questão de memorizar e espero sabê-lo "para sempre":


"Agora podeis tratar-me

como quiserdes:

não sou feliz nem sou triste,

humilde nem orgulhoso,

- não sou terrestre"


Como vedes, cara minha, sigo terrestre. Pesadamente terrestre!

segunda-feira, janeiro 03, 2022

AS CRIANÇAS E AS ARMAS

 A vida e suas contradições. A vida é contraditória por si só: existir é um contrassenso. É O PRÓPRIO CONTRASSENSO! Gostaria eu de escrever sempre, minhas impressões diárias sobre os acontecimentos pessoais, acerca dos acontecimentos e circunstâncias em geral. Entretanto, a manutenção da vida demanda tarefas e essas tarefas cansam, e então não sobra ânimo para escrever. Aliás, uma constatação e uma "verdade" que me persegue: a manutenção da vida é cara e cansativa!

Já fiz muito isso: escrever, escrever, escrever... - diários, rascunhos, folhas soltas, o blog, mesmo alguns trabalhos acadêmicos em que pude ser mais autor que meramente um seguidor de técnicas e burocracias academicistas - e quando releio o que escrevi naqueles tempos, também são contraditórios os sentimentos: "que bom que escrevi!", "que idiota que eu era por pensar assim!", "o importante é que você registrou", "mas agora você não está registrando que não pensa nem age mais assim...". Existir é confuso!

E digo mais: em tempos de redes sociais, o visual é mais atrativo: fotos, fotos, fotos... Os vídeos - curtos de preferência, fazem muito sucesso. Tiktokers! Se usar palavras, use poucas, pouquíssimas, do contrário, ninguém lerá os textos "enormes" que escreve. Minha esposa disse: "entretanto, se parar de escrever, estará colaborando com a extinção dos leitores de textos 'maiores'".

Cecília Meireles escreveu: "dizei-me com poucas palavras" e já escrevi um texto aqui no blog usando esse poema como referência - com muitas palavras - pois é sim, admirável o poder de síntese de alguns autores, escritores, poetas, todavia, não consigo escrever com poucas palavras. Toda essa introdução para escrever sobre o encontro com um texto de Umberto Eco e releituras de Cecília Meireles acerca dos temas: guerra, paz, desarmamento e, claro que todas essas questões envolvem outras maiores e mais filosóficas.

Ler Umberto Eco é um grande desafio para mim. "O cemitério de praga", que ganhei de presente no Natal de 2018 da Paula foi o primeiro romance dele que li. Eu já tinha na minha prateleira o livro "A estranha chama da Rainha Loana", comprado em 2008 e que li no início da pandemia (abril de 2020, para ser mais exato). Pois bem, em dezembro último, no sebo, comprei mais dois livros dele: "O pêndulo de Foucault" e "Diário Mínimo".

"Diário Mínimo" é a reunião de textos que o autor escreveu para jornais e reuniu no livro, pelo que entendi. Como eu disse, um desafio ler Umberto Eco, um erudito. Entretanto, com um tanto de esforço, acredito até que chego perto de uma compreensão de alguns desses textos e como é impressionante a repetição a que está fadada a humanidade. "Repetição" no sentido de que os "problemas", "alertas", "questionamentos" levantados e abordados por Eco na década de 1960, passadas mais seis décadas, quase nada mudou: somos previsíveis, repetitivos, imbecis.



A constatação dessa "anomalia" humana por essas mentes brilhantes e, lida por pessoas curiosas e questionadoras como eu é um misto de revolta com passividade. Uma passividade entreguista: não adianta ser revolucionário, a idiotice irá prevalecer de novo e novamente e outra vez na face desta terra. O Brasil que elegeu uma aberração em 2018 é uma prova evidente de como a imbecilidade está impregnada nas mais diversas áreas. Como foi e é danosa, perniciosa, mortífera a "babaquice" levada ao extremo. Não se administra um país "brincando" de ser presidente. Enfim, não vou desviar o foco para questões políticas...

Quero me deter num dos textos do Umberto - não li o livro todo ainda, intitulado "Carta ao meu filho", escrito em 1964. O impressionante desse texto é que chegou até mim logo depois de trechos escritos por Cecília, versando sobre o mesmo tema, os quais eu já tinha tido contato em anos anteriores. Gostaria de poder reproduzir o texto completo do Eco para aqueles que estão me lendo agora pudessem contribuir com o debate. Vou tentar digitalizar as páginas...

O texto começa assim:

"Querido Stefano,

aproxima-se o Natal e as lojas do centro logo estarão lotadas de pais excitadíssimos que representarão a comédia da generosidade anual - aqueles pais que com alegria hipócrita aguardaram o momento em que poderão comprar para si próprios, contrabandeando-os para os filhos, seus trenzinhos preferidos, os teatrinhos de fantoches, os tiros ao alvo com flechas e os pingues-pongues domésticos"

Segue o autor dizendo que ainda não chegou a sua vez, pois Stefano ainda é pequeno, entretanto, mais quatros anos:

"E então, Stefano... Então te darei espingardas. De dois canos. De repetição. Fuzis-metralhadoras. Canhões. Bazucas. Sabres. Exércitos de soldadinhos em formação de combate. Castelos com pontes levadiças. Fortins a assediar. Casamatas, paióis, couraçados, reatores. Metralhadoras, punhais, revólveres."

E Eco segue com uma lista de objetos e artifícios bélicos que nunca ouvi falar. É óbvio que há uma explicação do próprio autor para presentear o filho Stefano e mais, incentivá-lo a brincar com armas e guerra. Antes, porém, quero ir ao outro texto, a crônica "Natal" de Cecília, escrita em 23 de dezembro de 1931, no Diário de Notícias.


"Nestes três dias a população carioca - assim como a de uma boa parte do mundo - vai agitar-se pelas lojas de brinquedos à procura de mimos para os sapatinhos das crianças. Não quero entrar em considerações sobre as conveniências e inconveniências com que se costuma cerca o Natal das crianças. Mas gostaria de intervir seriamente na escolha dos brinquedos, chamando a atenção dos adultos para o abuso que se costuma fazer de apetrechos militares como presente de boas festas e estímulo das mais graves tendências infantis."

A autora continua: "Na noite de Natal, as mãezinhas põem nos sapatinhos dos filhos espingardas e baionetas, quepes e tambores, cornetas e soldadinhos de chumbo... Fazem-no inocentemente, pensando que dão felicidade às crianças. Ensinar a brincar com armas é a mais dolorosa ocupação a que se podem entregar as mães".

A crônica vai terminando e tem uma frase em especial que é para mim impressionante: "Se fosse possível não ensinar a matar, - uma vez que para morrer todos nascemos já ensinados...".

Viram a que contradição cheguei com a leitura de Eco? Que me levou a reler esta crônica e outras de Cecília. Em "Crônicas de Educação", especialmente no volume 4, no décimo quarto núcleo temático: "Paz, desarmamento e não-violência" têm 31 crônicas. Reli 15. Faltam 16.



Vou reproduzir aqui o último parágrafo do texto de Umberto Eco, que é uma síntese de seu pensamento sobre as crianças brincarem de guerra, usando as armas de brinquedos, todavia, como eu escrevi anteriormente, é um texto que vale ser lido na íntegra, pois há tantas outras referências e argumentos preciosos:

"Portanto, querido Stefano, eu te presentearei fuzis. E te ensinarei a brincar de guerras muito complexas, nas quais a verdade nunca esteja de um só lado, nas quais, conforme o caso, seja preciso organizar dias 8 de setembro. Irás desafogar-te, nos teus anos jovens, confundirás um pouco tuas ideias, mas lentamente te nascerão convicções. Depois, adulto, acreditarás que foi tudo uma fábula, chapeuzinho vermelho, cinderela, os fuzis, os canhões, o homem contra o homem, a bruxa contra os sete anões, os exércitos contra os exércitos. Mas, se por acaso, quando fores grande, ainda te surgirem as monstruosas figuras dos teus sonhos infantis, as bruxas, os duendes, as armas, as bombas, os recrutamentos obrigatórios, talvez já tenhas adquirido uma consciência crítica em relação às fábulas e aprendido a mover-te criticamente dentro da realidade" (p. 115)

Na crônica "Desarmamento", Cecília escreve:

"Suprimir as armas é difícil. Mas, ainda quando fosse fácil, não seria bastante. As armas são apenas o instrumento inventado para o serviço de um intuito. É o intuito, portanto, que se precisa suprimir. É o espírito que se precisa desarmar, antes da mão. Por isso mesmo, todos os educadores se têm voltado para a escola e para a criança com a mais firme esperança de começarem por aí a obra de pacifismo universal" (p. 238).

Vou repetir: "É o espírito que se precisa desarmar, antes da mão"! E, para mim, o texto de Eco, faz sentido e não é contraditório com o movimento pela paz. Enquanto existir pessoas com espíritos beligerantes e com acesso às armas, as guerras não cessarão e sofrerão terrivelmente os espíritos pacíficos e pacifistas.

Eu ficarei imensamente feliz se o meu texto produzir em você, leitora e leitor, algum aprendizado, provocar outras questões e puder compartilhar comigo.