O Quarto do Menino

"No meu quarto que eu lia, escrevia, desenhava, pintava, imaginava mil projetos, criava outros mil objetos... Por isso, recebi o apelido de 'Menino do Quarto', título que adotei como pseudônimo e hoje, compartilho neste 'Quarto Virtual do Menino', o que normalmente ainda é gerado em meu próprio quarto". Bem, esse início já é passado; o 'menino' se casou (set/2008); há agora dois quartos, o do casal e o da bagunça... Assim, diretamente do quarto da bagunça, entrem e fiquem a vontade! Sobre a imagem de fundo: A primeira é uma reprodução do quadro "O Quarto" de Vicent Van Gogh; a segunda, é uma releitura que encontrei no site http://www.computerarts.com.br/index.php?cat_id=369. Esta longe de ser o MEU quarto da bagunça, mas em 2007, há um post em que cito o quadro de Van Gogh. Como disse, nada mais propício!!!... Passaram-se mais alguns anos, e o quarto da bagunça, já não é mais da bagunça... é o Quarto do Lorenzo, nosso primogênito, que nasceu em dezembro de 2010!

segunda-feira, janeiro 03, 2022

AS CRIANÇAS E AS ARMAS

 A vida e suas contradições. A vida é contraditória por si só: existir é um contrassenso. É O PRÓPRIO CONTRASSENSO! Gostaria eu de escrever sempre, minhas impressões diárias sobre os acontecimentos pessoais, acerca dos acontecimentos e circunstâncias em geral. Entretanto, a manutenção da vida demanda tarefas e essas tarefas cansam, e então não sobra ânimo para escrever. Aliás, uma constatação e uma "verdade" que me persegue: a manutenção da vida é cara e cansativa!

Já fiz muito isso: escrever, escrever, escrever... - diários, rascunhos, folhas soltas, o blog, mesmo alguns trabalhos acadêmicos em que pude ser mais autor que meramente um seguidor de técnicas e burocracias academicistas - e quando releio o que escrevi naqueles tempos, também são contraditórios os sentimentos: "que bom que escrevi!", "que idiota que eu era por pensar assim!", "o importante é que você registrou", "mas agora você não está registrando que não pensa nem age mais assim...". Existir é confuso!

E digo mais: em tempos de redes sociais, o visual é mais atrativo: fotos, fotos, fotos... Os vídeos - curtos de preferência, fazem muito sucesso. Tiktokers! Se usar palavras, use poucas, pouquíssimas, do contrário, ninguém lerá os textos "enormes" que escreve. Minha esposa disse: "entretanto, se parar de escrever, estará colaborando com a extinção dos leitores de textos 'maiores'".

Cecília Meireles escreveu: "dizei-me com poucas palavras" e já escrevi um texto aqui no blog usando esse poema como referência - com muitas palavras - pois é sim, admirável o poder de síntese de alguns autores, escritores, poetas, todavia, não consigo escrever com poucas palavras. Toda essa introdução para escrever sobre o encontro com um texto de Umberto Eco e releituras de Cecília Meireles acerca dos temas: guerra, paz, desarmamento e, claro que todas essas questões envolvem outras maiores e mais filosóficas.

Ler Umberto Eco é um grande desafio para mim. "O cemitério de praga", que ganhei de presente no Natal de 2018 da Paula foi o primeiro romance dele que li. Eu já tinha na minha prateleira o livro "A estranha chama da Rainha Loana", comprado em 2008 e que li no início da pandemia (abril de 2020, para ser mais exato). Pois bem, em dezembro último, no sebo, comprei mais dois livros dele: "O pêndulo de Foucault" e "Diário Mínimo".

"Diário Mínimo" é a reunião de textos que o autor escreveu para jornais e reuniu no livro, pelo que entendi. Como eu disse, um desafio ler Umberto Eco, um erudito. Entretanto, com um tanto de esforço, acredito até que chego perto de uma compreensão de alguns desses textos e como é impressionante a repetição a que está fadada a humanidade. "Repetição" no sentido de que os "problemas", "alertas", "questionamentos" levantados e abordados por Eco na década de 1960, passadas mais seis décadas, quase nada mudou: somos previsíveis, repetitivos, imbecis.



A constatação dessa "anomalia" humana por essas mentes brilhantes e, lida por pessoas curiosas e questionadoras como eu é um misto de revolta com passividade. Uma passividade entreguista: não adianta ser revolucionário, a idiotice irá prevalecer de novo e novamente e outra vez na face desta terra. O Brasil que elegeu uma aberração em 2018 é uma prova evidente de como a imbecilidade está impregnada nas mais diversas áreas. Como foi e é danosa, perniciosa, mortífera a "babaquice" levada ao extremo. Não se administra um país "brincando" de ser presidente. Enfim, não vou desviar o foco para questões políticas...

Quero me deter num dos textos do Umberto - não li o livro todo ainda, intitulado "Carta ao meu filho", escrito em 1964. O impressionante desse texto é que chegou até mim logo depois de trechos escritos por Cecília, versando sobre o mesmo tema, os quais eu já tinha tido contato em anos anteriores. Gostaria de poder reproduzir o texto completo do Eco para aqueles que estão me lendo agora pudessem contribuir com o debate. Vou tentar digitalizar as páginas...

O texto começa assim:

"Querido Stefano,

aproxima-se o Natal e as lojas do centro logo estarão lotadas de pais excitadíssimos que representarão a comédia da generosidade anual - aqueles pais que com alegria hipócrita aguardaram o momento em que poderão comprar para si próprios, contrabandeando-os para os filhos, seus trenzinhos preferidos, os teatrinhos de fantoches, os tiros ao alvo com flechas e os pingues-pongues domésticos"

Segue o autor dizendo que ainda não chegou a sua vez, pois Stefano ainda é pequeno, entretanto, mais quatros anos:

"E então, Stefano... Então te darei espingardas. De dois canos. De repetição. Fuzis-metralhadoras. Canhões. Bazucas. Sabres. Exércitos de soldadinhos em formação de combate. Castelos com pontes levadiças. Fortins a assediar. Casamatas, paióis, couraçados, reatores. Metralhadoras, punhais, revólveres."

E Eco segue com uma lista de objetos e artifícios bélicos que nunca ouvi falar. É óbvio que há uma explicação do próprio autor para presentear o filho Stefano e mais, incentivá-lo a brincar com armas e guerra. Antes, porém, quero ir ao outro texto, a crônica "Natal" de Cecília, escrita em 23 de dezembro de 1931, no Diário de Notícias.


"Nestes três dias a população carioca - assim como a de uma boa parte do mundo - vai agitar-se pelas lojas de brinquedos à procura de mimos para os sapatinhos das crianças. Não quero entrar em considerações sobre as conveniências e inconveniências com que se costuma cerca o Natal das crianças. Mas gostaria de intervir seriamente na escolha dos brinquedos, chamando a atenção dos adultos para o abuso que se costuma fazer de apetrechos militares como presente de boas festas e estímulo das mais graves tendências infantis."

A autora continua: "Na noite de Natal, as mãezinhas põem nos sapatinhos dos filhos espingardas e baionetas, quepes e tambores, cornetas e soldadinhos de chumbo... Fazem-no inocentemente, pensando que dão felicidade às crianças. Ensinar a brincar com armas é a mais dolorosa ocupação a que se podem entregar as mães".

A crônica vai terminando e tem uma frase em especial que é para mim impressionante: "Se fosse possível não ensinar a matar, - uma vez que para morrer todos nascemos já ensinados...".

Viram a que contradição cheguei com a leitura de Eco? Que me levou a reler esta crônica e outras de Cecília. Em "Crônicas de Educação", especialmente no volume 4, no décimo quarto núcleo temático: "Paz, desarmamento e não-violência" têm 31 crônicas. Reli 15. Faltam 16.



Vou reproduzir aqui o último parágrafo do texto de Umberto Eco, que é uma síntese de seu pensamento sobre as crianças brincarem de guerra, usando as armas de brinquedos, todavia, como eu escrevi anteriormente, é um texto que vale ser lido na íntegra, pois há tantas outras referências e argumentos preciosos:

"Portanto, querido Stefano, eu te presentearei fuzis. E te ensinarei a brincar de guerras muito complexas, nas quais a verdade nunca esteja de um só lado, nas quais, conforme o caso, seja preciso organizar dias 8 de setembro. Irás desafogar-te, nos teus anos jovens, confundirás um pouco tuas ideias, mas lentamente te nascerão convicções. Depois, adulto, acreditarás que foi tudo uma fábula, chapeuzinho vermelho, cinderela, os fuzis, os canhões, o homem contra o homem, a bruxa contra os sete anões, os exércitos contra os exércitos. Mas, se por acaso, quando fores grande, ainda te surgirem as monstruosas figuras dos teus sonhos infantis, as bruxas, os duendes, as armas, as bombas, os recrutamentos obrigatórios, talvez já tenhas adquirido uma consciência crítica em relação às fábulas e aprendido a mover-te criticamente dentro da realidade" (p. 115)

Na crônica "Desarmamento", Cecília escreve:

"Suprimir as armas é difícil. Mas, ainda quando fosse fácil, não seria bastante. As armas são apenas o instrumento inventado para o serviço de um intuito. É o intuito, portanto, que se precisa suprimir. É o espírito que se precisa desarmar, antes da mão. Por isso mesmo, todos os educadores se têm voltado para a escola e para a criança com a mais firme esperança de começarem por aí a obra de pacifismo universal" (p. 238).

Vou repetir: "É o espírito que se precisa desarmar, antes da mão"! E, para mim, o texto de Eco, faz sentido e não é contraditório com o movimento pela paz. Enquanto existir pessoas com espíritos beligerantes e com acesso às armas, as guerras não cessarão e sofrerão terrivelmente os espíritos pacíficos e pacifistas.

Eu ficarei imensamente feliz se o meu texto produzir em você, leitora e leitor, algum aprendizado, provocar outras questões e puder compartilhar comigo.

quinta-feira, dezembro 30, 2021

A ÚLTIMA CAIXA

Fomos passar o natal de 2021 na casa dos meus pais, em Marília-SP. Saímos de Londrina-PR no dia 23 de dezembro bem cedo. Retornamos no dia 26, domingo. Chegamos em casa perto do meio-dia.

Para resumir a ópera e chegar ao cerne: na casa dos meus pais há o quartinho da bagunça. Quando solteiro, boa parte do meu arquivo pessoal ficava no quartinho da bagunça. Quando me casei, levei muita coisa comigo, entretanto, muita coisa ficou.

Já com uma década e poucos anos de casado, fiz uma nova seleção, jogando muita coisa. Por fim, restou uma última caixa no quartinho da bagunça. É sobre esta última caixa que pretendo tecer algumas considerações.

Não era uma caixa de sapatos, nem aquelas comuns de papelão. Foi a embalagem de uma das impressoras que tive, uma impressora pequena. Nessa última caixa, passados muitos anos, depois de todas as seleções e descartes, entre textos utilizados na universidade (graduação, mestrado, doutorado), minhas produções pessoais (desenhos, pequenos textos escritos a mão), fiquei com uns 15% do conteúdo dela.

Desfiz-me dos textos utilizados em algumas disciplinas do mestrado (Profa. Helen, minha orientadora, Prof. Sidnei, que foi orientador dela, Prof. Dagoberto, disciplinas sobre o livro, a leitura, leitores)... Ainda tinha um material produzido por uma professora do primeiro ano de graduação - textos fotocopiados, porém, tão bem feito, com capa, o programa da disciplina, mas decidi que era hora de desprender-me. Cheguei a visitar e participar de algumas reuniões do Grupo de Pesquisa dessa professora, sobre o "Integralismo" no Brasil.








Encontrei um "diploma de honra" da Encyclopedia Britannica do Brasil "por sua participação em nossa exposição de desenhos intercolégios realizado no Marília Tenis Clube", de 13 de agosto de 1994. Ainda esforço minha memória para lembrar algum detalhe desse evento: qual foi o desenho? eu fui na exposição? Eu guardo muita coisa na memória, mas desse evento só o diploma é o mais concreto que tenho.



Sobre desenhos, encontrei algo como "retratos" que fiz dos meus alunos surdos do Projeto de Extensão em que fui bolsista por dois anos e eles continuaram meus alunos nos estágios curriculares na área da Deficiência Auditiva. Formalmente, estive em contato com esses alunos por três anos, no mínimo.






Nessa caixa também estava minha pasta de estágio da área da Deficiência Auditiva, com um "10,0" a lápis e discreto da supervisora de estágio. Também o projeto "Jogo de Xadrez para Surdos" que propus na escola onde fiz o estágio na sala especial para surdos.

Há tantas outros itens com enorme relevância afetiva: um cartão do amigo Valter me desejando feliz 2003, mas um cartão totalmente manual, papel cartolina, colagens, letra do amigo. Onde se encontra isso nos dias de hoje?





Um desenho e texto - "Anjos sem asas" que escrevi em homenagem a minha prima Michelle, que compunha um agenda minha com outros textos. Só este sobreviveu, pois fui incentivado no discipulado da igreja a me desfazer de tudo que era da minha "velha vida". Joguei textos, CDs (Madonna, por exemplo)... Quanto me arrependo! TANTÍSSIMO!





Estou imensamente grato ao UNIVERSO por estar longe desse tipo de abordagem limitadora, estreita e "emburrecente". De certo modo, lá no fundo, eu sabia que era idiotice me desfazer das minhas produções e objetos pessoais... guardei muitos desenhos "obscenos" e também minha coleção dos signos do zodíaco.

Há o texto intitulado "Um pequeno ensaio sobre mim", em folhas rascunhado manualmente, o qual pretendo digitar e socializar. Um cartão que foi produzido para que os alunos da turma "Maternal" presenteasse suas mamães, com um poema escrito por mim, a pedido das professoras, quando fui estagiário. Fiz isso para a turma da professora Lena também, minha amiga até hoje.




Meu autorretrato, que utilizei na pasta de estágio (Portifólio), inclusive as capas que produzi para esse material com colagens diversas, estavam guardadas, desenho que ganhei de algumas crianças nos meus estágios.

O que pretendo com esse texto? Fazer um inventário de tudo que encontrei? Não! Apesar de ter esse desejo. Um tesouro que sobreviveu há tantos anos e mudanças (mudanças internas, já que meus pais permanecem na casa onde estavam guardados).

Talvez, meu objetivo é, ao resgatar as memórias que estes itens me remetem e, ao contrário, eventos que eu havia me esquecido, mas o item me força uma lembrança - como do diploma da exposição do desenho, poder registrar e compartilhar aqui, com meus amigos, virtuais e reais, com meus leitores fiéis aquilo que considero relevante.

"A última caixa" é literalmente a última caixa que eu tinha na casa dos meus pais. Há uma conta que sigo no Instagram em que o autor - Luciano Lobato, é psicólogo, produtor do conteúdo dessa conta, escreveu sobre "caixas" e é muito interessante a analogia que ele faz das nossas caixas ao longo da existência. Clique aqui se quiser ler.

Também gosto de associar com o filme "O fabuloso destino de Amèlie Poulain" quando ela encontra uma pequena caixa com recordações de uma criança e passa a buscar o dono daquelas lembranças.

De certo modo, fico impressionado com o volume de coisas que produzi, que consegui guardar ao longo dessa minha pequena história de 40 anos. E por questões práticas, logística e de espaço precisamos ir nos desfazendo... É como a vida: cabe numa caixa!

quarta-feira, novembro 03, 2021

SOBRE "LES ÎLES", DE JEAN GRENIER


Duvido que ao ler este pequeno texto de Albert Camus sobre o livro "Les îles", de Jean Grenier, não ficará com imenso desejo de ler o livro tbm.

"É tempo que novos leitores venham a este. Eu gostaria de estar entre eles, gostaria de voltar para aquela noite quando, após ter aberto este pequeno volume na rua, fechei-o após as primeiras linhas que li, apertei-o em meu peito e corri até o meu quarto para devorá-lo enfim sem testemunhas. E invejo, sem amargura, invejo, se ouso dizê-lo, calorosamente, o jovem desconhecido que, hoje, aborda pela primeira vez Les îles..." (p.112), no livro "A inteligência e o cadafalso".

Este último trecho me fez querer ser esse "jovem desconhecido". Acho que o livro não foi traduzido do Francês para o Português.

Também me lembrou muito a menina Clarice Lispector, narrando sua "tortura e glória" com o livro "As reinações de Narizinho":

"Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante".

Este conto também aparece com o título "Felicidade clandestina", além de "Tortura e glória".







 

quinta-feira, outubro 07, 2021

terça-feira, outubro 05, 2021

 



Um personagem de filme ou série, ao ser indagado sobre ter lido um autor contemporâneo, responde: “Só leio gente morta!”.

Respeito a escolha. Tubo bem! Eu leio “gente morta” e tenho meus mortos preferidos, mas também leio gente viva, vivíssima.

Ontem recebi em casa os livros “Mulher emudecida” e “Mulher umedecida”, ambos de Maria Mortatti.

Maria Mortatti foi minha professora de graduação em Pedagogia, no ano de 2002. Também foi minha professora numa disciplina na pós-graduação, em 2006, quando eu estava no primeiro ano do mestrado.

A admiração pela professora e pesquisadora é real e significativa desde a primeira aula lá na graduação, com a disciplina “Didática II”, ocasião em que pediu um dos trabalhos acadêmicos que mais me marcou: relatar a trajetória escolar. Trabalho que guardo com carinho, cujas tramas que envolvem a escrita, devolutiva e reverberações foram narradas em vários outros momentos, como num texto em meu Blog.

Considero essa introdução importante para desenhar minimamente o cenário que me ajudará a refletir sobre as leituras dos livros anunciados acima.

A conexão que criei com a figura/imagem da professora/pesquisadora da “História do ensino da leitura e da escrita no Brasil”, na relação professora-aluno, de respeito, admiração, muito tem a ver com o fato da professora ser formada em Letras, ter atuado como professora de Literatura em escolas públicas e, nas aulas da graduação/pós-graduação exalar literatura pelos poros.

E ainda, à distância, sigo-a pelo Facebook, com algumas oportunidades de interação. Foi pela rede social que soube do lançamento dos livros. No turbilhão desse momento que afligiu a humanidade e continua a nos castigar aqui no Brasil, somente agora consegui adquirir e ler os livros. Chegamos assim às minhas percepções e impressões das leituras.

Um é prosa, outro é poesia. Confesso que prosa é mais atrativa para mim, por gostar muito de histórias. Poesia é uma paixão recente, que tenho buscado me alimentar, muito pelos poemas de Cecília Meireles, e mais recentemente com poemas de Rainer Maria Rilke. Também tenho o livro “Breviário amoroso de sóror Beatriz”, outro livro de poemas de Maria Mortatti.

Os contos no livro “Mulher emudecida” que mais me impressionaram narram episódios da infância/juventude da personagem principal. A narrativa me ajuda a compor com outros elementos e a ratificar uma hipótese de algum tempo: Maria é uma pessoa superdotada, com múltiplas inteligências e sobre-excitabilidades bem marcantes.

Os contextos histórico, social e familiar dessa menina/adolescente não foram propícios e adequados para todo o arcabouço de desejos, habilidades e talentos fora da curva, mas Maria não pode esconder o que lhe é natural: querer conhecer, desbravar, provar, ser intensa em tudo, no desejo pelo tamanco, pela boneca Belinha, de ser bailarina.

As memórias e eventos resgatados nos contos contam como a menina/adolescente/jovem foi sendo proibida de ser quem era. Para mim, sempre nostálgico e revisitando episódios da infância, ler essas memórias de não apenas uma autora contemporânea, viva, vivíssima, mas minha professora e uma professora querida, admirada por sua postura e competência, essas leituras ganham outro significado.

Encerradas as leituras eu humanizo a figura/imagem cristalizada em meu imaginário na relação professora-aluno: uma professora de carne e osso, com casa e rotinas (que não mora na escola e que não se dedica 24 horas do dia aos alunos, ao ensino, essas ideias todas fantásticas que as crianças criam sobre seus professores, mesmo no ensino superior, não essas, mas criamos outros idealismos sobre nossos professores, os maravilhosos e os péssimos).

Recomendo a leitura de ambos os livros e não vejo a hora de ter em mãos o terceiro livro que completa a trilogia de “Essa Mulher” (“Mulher enlouquecida”, uma novela). As páginas, da prosa e dos poemas são regadas de outras referências literárias e de outras Estéticas, em outras linguagens como músicas clássicas e pinturas.

Em suma: a vida real, do dia a dia, transformada em palavras, transportada para a literatura, como para extrair beleza e leveza dessa vida que não é um conto de fadas, muito mais um conto cheio de falhas (como li dias desses nas redes sociais), falhas nossas que nos tornam quem somos, nossos “defeitos” estruturais.

Maria, mulher, professora, pesquisadora, autora, escritora, poeta. Parabéns pela concretização desse projeto forte e necessário: “Essa Mulher”!

E a todas as mulheres da minha vida e do mundo: você é o sexo forte, o mundo só é possível pela sua sensibilidade. Avante!

sexta-feira, setembro 24, 2021

MEUS QUATRO RG’s BRASILEIROS

 

1990                       2007                2011               2021


O primeiro é de e 1990. Eu estava com nove anos e meio. Lembro que a foto 3x4 foi tirada na Casa Alvorada, um armarinho sempre em expansão lá no bairro onde morei até meus 27 anos, na minha cidade natal, Marília-SP. Roupa de passeio, cabelo penteado, foto tirada, esperar um dia para revelar e buscar depois.

Acordei cedo, minha mãe disse: “ – Vai lá na Júlia do Mané (proprietários do armarinho), pegar as fotos para levar na escola. ao chegar na Júlia: “ – Sua foto queimou, temos que tirar outra agora”. “ – Agora?”. “ – Sim, agora!”. A roupa de dormir (nunca tivemos pijama, só roupas “de dormir”), cabelo despenteado, foto tirada e mais tarde revelada.

Está a prova na foto do primeiro RG: o André de nove anos e meio, cabelos desarrumados, camisa polo com botões abertos. Guardo com muito carinho o documento e todas as lembranças desse episódio, como os dedos sujos de tinta para que as impressões digitais fossem registradas em nossa ficha, os fichados corriam para o lavatório para tirar a tinta dos dedos.

Acredito que todos que estudávamos no SESI no. 308, em Marília-SP, naquele ano de 1990 e tiramos o RG, temos o número de registro muito parecidos. O número do RG da minha irmã, por exemplo, aluna da 2ª. série naquele ano e o meu são diferentes apenas nos últimos três números e o dígito (aquele número solitário depois do hífen).

O documento guardado ainda revela outros detalhes como minha letra de aluno da 3ª. série: eu acentuei “André” e “Onório” e não “Luis”. Entretanto, me acostumei a acentuar os dois nomes e o sobrenome. Questionei a agente que emitiu meu RG paranaense (o último e mais recente) a falta do acento agudo no “Onorio”. “ – Não posso mudar, coloco como está na certidão de casamento” (que copiou a certidão de nascimento – confirmo na fotocópia que tenho da original, e a original está no cartório civil, lá em Marília-SP).

O meu segundo RG, ainda paulista, mesmo número, com data de 01 de fevereiro de 2007, foi motivado pela necessidade de provar que eu era aquele menino do primeiro RG; as pessoas não acreditavam mais que aquele menino fofinho de nove anos era eu mesmo.

O terceiro RG, emitido em 01 de junho de 2011 e era, até então o RG utilizável. A diferença, para além da foto e da assinatura de gente grande, mudou também as informações sobre o meu registro civil – não mais o livro A, desde 2008, registrado no livro B. A camisa que uso na foto é uma laranja que ganhei da Paula quando éramos recém namorados.

Meu quarto e, por ora, meu último RG tem data de emissão: 15 de setembro de 2021, ou seja, escrevo esse texto no mesmo mês e ano de emissão do RG. A motivação para um novo RG? Tem dois motivos: 1) Meu novo local de trabalho – instituição estadual de ensino superior, na relação de documentos para a contratação exigia RG emitido no próprio Estado. Devido à pandemia, estavam aceitando RG de outro Estado, porém com o compromisso de logo emitir o RG paranaense. Nós, brasileiros podemos ter 27 RGs, um registro para cada Estado, mais o Distrito Federal - sim, desnecessário, mas estamos no Brasil!

Confesso que foi o segundo motivo que me fez correr no site de agendamento do Instituto de Identificação do Paraná, com atendimento reduzido pela covid-19, demorei dois dias para conseguir agendar. O segundo motivo é para o reconhecimento da cidadania italiana, no Consulado Italiano de Curitiba, que exige que o RG tenha menos de 10 anos de expedição e o meu RG paulista completou 10 anos em 01/06/2021.

O processo de reconhecimento da cidadania italiana: um sonho de algumas décadas, sempre me pareceu impossível e agora está tão próximo de se tornar realidade. Claro, taxas, traduções, apostila de documentos, uma fortuna! Porém, inspira, expira, inspira, expira... tenho até 17 de dezembro de 2021 para apresentar os documentos no vice-consulado italiano aqui em Londrina-PR.

Lá em 2006 e 2007 quando trabalhei (e gastei) com afinco reunindo informações, certidões de nascimento, casamento e óbito da minha árvore genealógica paterna (aliás, tenho cadastro em pelo menos dois sites com esses propósitos de reunir dados sobre os antepassados e pessoas da família), aprendi que nossa passagem pela Terra, ao menos aqui no Brasil, fica registrada nos livros alfa-numéricos (A-16, B-116, C-0, ainda não morri e não saberei o número do meulivro C).

Todas as certidões que comprei nessa época não eram de inteiro teor, como exigido para o processo de reconhecimento da cidadania. Desde 2019, aos poucos vinha pedindo novas certidões, agora em inteiro teor. Outro contratempo nos idos de 2006/2007, cujo equívoco descobri anos mais tarde é que a certidão de nascimento do antenato italiano que eu tinha em mãos não era do meu bisavô.

Para ter certidão italiana de nascimento correta gastei mais dinheiro para uma assessoria localizar e mais outro tanto para outra pessoa solicitar, buscar e me enviar. Sim, muito dinheiro desembolsado.

São pessoas diferentes, mesmo nome e sobrenome, mesmo pai e mãe, porém, com datas e locais de nascimento diferentes. A primeira certidão que eu recebi quando paguei um jovem brasileiro recém chegado na Itália para procurar e enviar o documento para mim é de “PRIMO SANTE CONEGLIAN”, nascido em 02 de novembro de 1893, em Villadose. O meu bisavô foi “PRIMO VINCENZO CONEGLIAN”, nascido em 13 de agosto de 1890, no comune de Ceregnano, também na Província de Rovigo, Itália.

Villadose e Ceregnano, Rovigo, Itália

Meu bisavô Primo Vicente Coneglian se casou com minha bisavó Maria Carolina Dadalto Coneglian, tiveram 11 filhos, dentre os quais meu avô Luiz Coneglian. Meu avô faleceu quando meu pai, o filho caçula de sete, estava com 17 anos. Foi casado com minha avó Olinda Brichi Coneglian. Meu pai se casou com minha mãe e eu sou o filho mais velho, tenho uma irmã e um irmão.

Por minha vez, casei-me com Paula Rosario Cruz Coneglian, boliviana, de Oruro, e temos dois filhos: Lorenzo e Benjamin. Algumas curiosidades sobre o registro civil na Bolivia: o carnet de identidad precisa ser renovado periodicamente, quando um casal oficializa o casamento no civil, eles recebem a “libreta da família” e conforme nascem os filhos, eles vão sendo acrescentados na libreta. Paula disse que sua mãe nunca teve a libreta por não ter sido casada oficialmente.

Libreta de Familia (Bolivia)

Mais um dos muitos procedimentos formais e burocráticos que marginalizam e discriminam pessoas e famílias que não se encaixam no padrão de família imposto pelo Estado e igreja cristã: homem, mulher e filhos felizes como numa propaganda de margarina tomando café da manhã num domingo, numa casa linda, com uma mesa farta!

Bem, a motivação inicial do texto foi escrever sobre meus quatro RGs e a discussão, para além das descritas acima: minha nostalgia em relação ao primeiro RG, todos os desdobramentos que impeliram a renovação dos RGs paulista e agora meu novo RG (Estado diferente, registro diferente), as mudanças no código civil brasileiro, muitos avanços como a não obrigatoriedade da mulher alterar seu nome incluindo o nome do marido ou ainda permitindo que o homem adote o sobrenome da esposa (alguns já usam essa possibilidade com outras motivações, como adotar o sobrenome japonês da esposa para ir ao Japão e trabalhar como dekassegui).

Desejo que o texto possa provocar outras linhas de pensamento, raciocínio e reflexão. Suscitar as memórias particulares de cada leitor em relação aos registros civis e sua história no mundo.

Meu grande sonho e há décadas quase inalcançável, o reconhecimento da cidadania italiana, agora tão próximo, sinto uma mescla de enorme de sentimentos. Pergunto-me: e quando for real e estiver com minha carteira de identidade italiana e passaporte europeu emitidos em minhas mãos?

Não queria que fosse acontecimento tão esperado o único motivo para trazer alegria e esperança para os meus dias... Aguardarei, sem criar expectativas conforme minha nova filosofia de vida – sem expectativas, para uma vida mais realista.

Quando for real, processarei o novo fato e a vida segue, até minha existência se encerrar e ser registrada no livro C. bem: Basta a cada dia o seu mal!