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| Retrato de Manuel Bandeira, 1931, Portinari |
Hoje, 13 de julho de 2026, segunda-feira,
primeiro dia do recesso escolar de duas semanas, acordei, tomei banho, fiz
café, comecei a lavar a louça e senti a necessidade de escrever um texto sobre
a VIDA.
Lembrei de uma informação científica sobre a
existência da vida, que basicamente dizia que a vida surgiu no mar, ou seja, na
água e na evolução das espécies, especialmente os seres vivos terrestres,
precisou adaptar-se e, os mamíferos, as fêmeas criam um ambiente aquático em
seus úteros para dar VIDA. Essa informação científica tornou-se uma informação poética
para mim, desde então.
Lembrei ainda, lavando a louça, que quando eu
era professor da disciplina de libras em diversas licenciaturas, na primeira
aula, perguntando aos alunos nome, de onde era, porque havia escolhido aquele
curso, uma aluna do curso de Ciências Biológicas disse que queria estudar
tantas áreas e decidiu pela Biologia pois ela estuda a VIDA (das plantas,
animais...). Quer curso mais abrangente que esse? Era a lógica da escolha dessa
aluna pelo curso e eu achei isso muito profundo e... POÉTICO!
O dia 13 de julho foi passando e agora são
20h07 e iniciei a escrita, mas minutos antes, ao dar o possível título “A vida
assim nos afeiçoa. Prende!”, que é um empréstimo de um verso do Manuel
Bandeira, decidi digitar no meu blog as muitas vezes que usei esse verso como referência. Ao digitar
Manuel, vi uma postagem de 20 de março de 2020, a crônica “Do milagre”
digitalizada e comecei a ler.
E, corri para a minha estante pegar o livro
física pois estava perplexo. O autor do verso que eu queria usar como título
escreveu algo assombroso, ou melhor, que nesta altura dos meus 45 anos de vida,
me espantou! Somado à minha necessidade desde a manhã de escrever um texto sobre
a VIDA.
Recomendo a leitura da crônica citada na
íntegra, obviamente. Entretanto, trata basicamente de crer ou não em milagres. Manuel
nos conta que foi confrontado por um amigo – que provavelmente não acreditava
em milagres, e ele, Manuel passa a relatar ao amigo e, consequentemente para
nós leitores porque acreditava em milagres.
Deixa claro que não acreditava em milagres
religiosos e beleza da crônica, a essência está exatamente aí e, em 2020 não
sei o que meu chamou a atenção para eu digitalizar e colocar no blog, mas hoje,
ao reler, sim, eu sei, eu sei!
O absurdo de existir e estar consciente dessa
existência, o assombro da existência do Universo e não falamos de deus – Manuel
e eu.
“[...] para mim, o milagre por excelência é a
simples existência do Universo, fato evidentemente absurdo, e todavia, temos
que acreditar nele, pois aí está” (p. 92)
Manuel segue:
“Do encontro de duas células forma-se um óvulo
e esse óvulo evolui, diferenciando-se em vários sistemas complicadíssimos,
regulados com a maior precisão. Milagre. Cada organismo vivo, animal ou
vegetal, é um milagre. Organismo vivo? Todo cristal não é um milagre?” (p. 93).
O autor diz na sequência que é um privilégio
nosso, humano, “o privilégio da razão humana está na consciência desse assombro
que é a vida. A vida é realmente uma maravilha, no seu conjunto e em cada um
dos seus detalhes”
Então, Manuel registra algo extremamente
crucial para todo ser pensante e questionador: “o prazer de admirar paga-se
demasiadamente caro. Acabamos um dia cansados de tantos assombros, de tantos
milagres. Acabamos cansados do Universo.”
Sim, Manuel, sim, eu sei do que você está
falando!
Ele, poeta, diz que quando chegou nesse ponto,
resumiu suas “muitas horas de barata filosofia neste poema, que só tem de
sinistro o título”:
PREPARAÇÃO
PARA A MORTE
A
vida é um milagre.
Cada
flor,
Com
sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada
flor é um milagre.
Cada
pássaro,
Com
sua plumagem, seu voo, seu canto,
Cada
pássaro é um milagre.
O
espaço, infinito,
O
espaço é um milagre.
O
tempo, infinito,
O
tempo é um milagre.
A
memória é um milagre.
A
consciência é um milagre.
Tudo
é milagre.
Tudo,
menos a morte.
–
Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres!
É um assombro para mim como tudo converge:
minha mudança radical sobre não acreditar mais no deus cristão – e em 2020, era um
sentimento embrionário, todo dia pensando que o fim é a morte e como sofremos
para nada, para um dia tudo acabar... e a minha necessidade de hoje, o desejo
de escrever sobre a vida, a vida que afeiçoa, prende, mas que é cruel, como
escreveu o poeta.
E este mesmo poeta que escreveu esta crônica
que tinha me esquecido e o Universo fez-me o favor de relembrar... e a informação
científica-poética do útero-mar, da aluna Ana que, desejosa de estudar e
conhecer sobre a VIDA, era aluna do curso de Biologia...
Estou consciente, Universo, aparentemente
consciente. Sei que não sou nada, nada... – lembro de outro poeta: “Não sou
nada,/ Não posso ter nada,/ Não quero ter nada” (Fernando Pessoa). Como é
pesado sentir tanto... milagre!
São 20h47, Paula está na cozinha preparando uma
lentilha com frango e linguiça para a janta logo mais, os meninos na sala, eu
aqui no computador escrevendo, ouvindo minhas músicas favoritas, vivo. Milagre!
