O Quarto do Menino

"No meu quarto que eu lia, escrevia, desenhava, pintava, imaginava mil projetos, criava outros mil objetos... Por isso, recebi o apelido de 'Menino do Quarto', título que adotei como pseudônimo e hoje, compartilho neste 'Quarto Virtual do Menino', o que normalmente ainda é gerado em meu próprio quarto". Bem, esse início já é passado; o 'menino' se casou (set/2008); há agora dois quartos, o do casal e o da bagunça... Assim, diretamente do quarto da bagunça, entrem e fiquem a vontade! Sobre a imagem de fundo: A primeira é uma reprodução do quadro "O Quarto" de Vicent Van Gogh; a segunda, é uma releitura que encontrei no site http://www.computerarts.com.br/index.php?cat_id=369. Esta longe de ser o MEU quarto da bagunça, mas em 2007, há um post em que cito o quadro de Van Gogh. Como disse, nada mais propício!!!... Passaram-se mais alguns anos, e o quarto da bagunça, já não é mais da bagunça... é o Quarto do Lorenzo, nosso primogênito, que nasceu em dezembro de 2010!

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quarta-feira, janeiro 25, 2023

COMO BICHOS QUANDO SE LEVANTA UMA PEDRA

Na pandemia, especialmente nos primeiros meses, eu li muito. Muito mesmo! Um dos livros que devorei foi o "Livro do Desassossego", de Bernardo Soares, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. É um livro que me impressionou bastante, para uma pessoa de alma desassossegada que eu estava desde 2017/2018, vivenciar o horror dos primeiros meses da pandemia, pessoas morrendo, sem poderem respirar, por conta de um ser microscópico, um vírus, sem vacina eficaz à época.

Tudo isso, somado e multiplicado a outros fatores externos e internos, que vão se retroalimentando, um interferindo no outro. Presos (que delícia!) dentro de casa - e fomos "privilegiados" por ficar a pandemia numa "mansão", passei a odiar dias ensolarados, céu azul, nuvens brancas... Os dias nublados e chuvosos combinavam e ainda combinam mais com meu interior.

Dedicarei este texto, em efeito retardado, às minhas impressões ou destaques de trechos do referido livro. Conheço pouco, muito pouco de Fernando Pessoa, porém, este pouco que li - não apenas no livro, mas outras informações sobre sua vida, já me impressionam sobremaneira. Com certeza, Fernando Pessoa, foi um sujeito com muitas sobre-excitabilidades (ler Kazimierz Dabrowski ou estudiosos desse psiquiatra polonês). São cinco: sobre-excitabilidade emocional, imaginativa, intelectual, psicomotora e sensorial.

No caso de Pessoa, claro que são apenas especulações minhas, emocional, imaginativa e intelectual, com certeza, mas a sensorial, com base no que li no diário de Bernardo Soares, é muito evidente. O modo como ele nomeia e descreve sensações, o incômodo de quase todas delas, por isso sobre-excitabilidade, over, over, over...

"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir", é um ótimo exemplo e uma construção com a qual me identifico demais. Escrever é isso: diminuir a febre de sentir. Nos idos de 1999 ou antes, escrevi um "poema" - entre aspas mesmos: "Eu, poeta que não sou" e que contém essa ideia de sofrer a vida e a necessidade de escrever sobre ela.

"A poesia me perturba assim:/ Se vejo o pôr-do-sol, primeiro admiro,/ depois ele me persegue até sobre ele poetar./ Se me pego preso à luz da lua, primeiro me deixo levar,/ depois ela não sai de mim até acalmá-la na ponta da caneta."

"Viver é não pensar" (p. 109). "O coração, se pudesse pensar, pararia" (p. 16). "O mundo é de quem não sente" (p. 257). Nesta última frase, o autor prossegue: "A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade". "Nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos - um poço fitando o Céu" (p. 25). "Tão supérfluo tudo! Nós e o mundo e o mistério de ambos" (p. 101) - coloquei esta última como epígrafe no meu perfil de whatsapp hoje (25/01/2023).

Tentei no final do ano passado, reler o livro e consegui até um tanto, destacando com marca texto algumas dessas passagens... não consegui reler até o final... Ontem decidi buscar uma passagem específica que fiquei devendo numa interação de comentários do Facebook, com uma ex-aluna querida, a Grazi Pestana. Na postagem, um trecho do Carl Sagan e eu comentei que lembrava uma passagem do "Livro do Desassossego" e, acredito que não fiz o retorno a ela, de que encontraria o trecho e a enviaria.

De tudo o que li na primeira vez, o trecho a seguir, especialmente a imagem que Pessoa descreve, passou a habitar minha alma e coração, imbricada com minha descrença do mundo - tão supérfluo!, de deus, céu, inferno, a parafernália cristã toda - e aqui não é um ataque à fé de ninguém, apenas um reflexo natural de quem esteve pouco mais de 20 anos dentro desse grupo religioso.

"[...] gentes remexendo-se, como bichos quando se levanta uma pedra, sob o grande pedregulho abstrato do céu azul sem sentido" (Bernardo Soares, "Livro do Desassossego", p. 112). É isso! É exatamente isso que somos.


O início desse parágrafo é impressionante: "Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale: o mais é homens e mulheres, amores supostos e vaidades factícias, subterfúgios da digestão e do esquecimento, gentes remexendo-se, como bichos quando se levanta uma pedra, sob o grande pedregulho abstrato do céu azul sem sentido".

Fernando Pessoa honrou sua palavra, soube existir para além da vida terrena, por meio da "voz escrita" e, neste livro especialmente descreve imagens intelectuais perfeitas.

Conheci um poema nas redes sociais ano passado, de uma poeta mineira. Busquei informações sobre ela, óbvio... vou tentar resgatar aqui, pois neste momento que escrevo, sei o que quero dizer, mas minha memória está prejudicada... Depois de uma pesquisada no Facebook (postagem minha de 05 de abril de 2022), encontrei o poema e a poeta: "Teologia II", de Orides Fontela (1940-1998):


Associei o poema com essa passagem de Bernardo Soares: "Haja ou não deuses, deles somos servos" (p. 30). Por minha vez, também influenciado pela leitura mais recente (início de 2022), dos livros de Yuval Noah Harari: "Sapiens: uma breve história da humanidade" e "Homo deus: uma breve história do amanhã", escrevi "Haja Deus":


Outras passagens que destaquei entre ontem e hoje, nesse retorno ao "Livro do Desassossego": "[...] O mal da vida, a doença de ser consciente com o meu próprio corpo e perturba-me" (p. 95). A altíssima sensibilidade, como se o corpo fosse uma esponja, uma antena, um imã de sensações e ele tentou controlar a avalanche constante das sensações produzidas de seu contato com a existência. Acredito que por essa hipersensibilidade, a febre de Pessoa era constante.

"[...] Com pequenos mal-entendidos com a realidade construímos as crenças e as esperanças, e vivemos das códeas a que chamamos bolos, como as crianças pobres que brincam a ser felizes" (p. 69). Tive que procurar "códea" no dicionário, e trago para você minha leitora, meu leitor: "a parte exterior do pão, do queijo, das massas endurecidas pelo cozimento".

Vários exemplos de mal-entendidos com a realidade podem ser levantados aqui: desde a ideia da Terra ser o centro do Universo ou do Sistema Solar, até o problema mortal com a ideia de "deus monoteísta" judaico-mulçumano-cristão. Não bastasse as brigas e disputas "internas", como a briga de Esaú e Jacó, anteriormente, tem Isaque e Ismael, ambos filhos de Abraão - o mais velho (Ismael) com Hagar e, Isaque, com a idosa Sara. E a disputa para quem é o filho legítimo, herdeiro do Deus Poderoso, temos o conflito secular e presente/permanente em pleno século XXI, como a Faixa de Gaza.

Sobre o relato bíblico de Hagar, me ocorre um poema chocante, de Adriane Garcia, poeta mineira, que nos oferece outra perspectiva dessa história: a perspectiva da serva, da própria Hagar.

Lembrei de outros versos de Cecília, do poema "Contemplação", que carrega essa ideia de que o que fazemos tem consequências e sequelas, imediatas e seculares: "Tão poucos somos, - e tanto causamos,/ com tão longos ecos!/ Nossas viagens têm cargas ocultas, de desconhecidos vínculos". 

O importante aqui é a construção que Pessoa nos presenteia: vivemos baseados em pequenos mal-entendidos e enchemos a boca para dizer "eu sou..., você não é...", sendo que nada, nem ninguém não é, pois tudo é ilusão...

"De repente estou só no mundo. Vejo tudo do alto de um telhado espiritual. Estou só no mundo. Ver é estar distante. Ver claro é parar. Analisar é ser estrangeiro" (p. 84/85). Que imagem! Telhado espiritual, uau! E faço mil conexões... Albert Camus que escreve: "Agora, não desejo mais ser feliz, e sim apenas estar consciente". Afinal, um Filósofo! Prefere a consciência. Muitas passagens sobre solidão e o sentimento de ser estrangeiro de Cecília Meireles ("Desejo de regresso", logo abaixo). O próprio Camus escreveu "O estrangeiro", que é essa a ideia, estrangeiro de si, do mundo, da vida...

Desejo de regresso

Deixai-me nascer de novo,
nunca mais em terra estranha,
mas no meio do meu povo,
com meu céu, minha montanha,
meu mar e minha família.

E que na minha memória
fique esta vida bem viva,
para contar minha história
de mendiga e de cativa
e meus suspiros de exílio.

Porque há doçura e beleza
na amargura atravessada,
e eu quero memória acesa
depois da angústia apagada.
Com que afeição me remiro!

Marinheiro de regresso
com seu barco posto a fundo,
às vezes quase me esqueço
que foi verdade este mundo.
(Ou talvez fosse mentira…)

É como me sinto! Estrangeiro! Só no mundo... e, novamente, isso não tem a ver com "nossa, nem sua esposa e filhos te dão sentido de pertencimento?"... Espero que façam uma análise mais profunda do que escrevo, pois é exatamente isso que estou tentando dizer. Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita... Exercício difícil. Se o foi para Pessoa, ele se empenhou tanto, que conseguiu.

Manual Bandeira, no poema "A vida assim nos afeiçoa", na última estrofe, em poucas palavras, ele define a dicotomia de viver (que maravilhoso! que terrível): "A vida assim nos afeiçoa,/ Prende. Antes fosse toda fel!/ Que ao se mostrar às vezes boa,/ Ela requinta em ser cruel" ("Estrela da vida inteira: poesias reunidas", Manual Bandeira, p. 20/21). A vida prende, mesmo que seja um inferno, nos afeiçoamos nas pequenas bolhas de esperanças, que logo estouram... por isso a vida é requintadamente cruel!

Cecília Meireles, na última estrofe de "A flor e o ar" escreve: "Neste destino a que vim,/ tudo é longe, tudo é alheio./ Pulsa o coração no meio/ só para marcar o fim" ("Retrato Natural", Obra Poética, p. 362). Tudo é longe! Tudo é alheio! Hoje eu li, de Cecília também: "Meus olhos andavam mais longe do que nunca,/ voavam, nem fechados nem abertos,/ independentes de mim,/ sem peso algum, na escuridão/ e liam, liam, liam o que jamais esteve escrito/ na rasa solidão do tempo, e sem qualquer esperança,/ - qualquer" (última estrofe do no. "Dois", "Doze noturnos da Holanda", Obra Poética, p. 382).

Hoje pela manhã, levei Benjamin ao HC-UEL para tirar sangue... As veias dele não facilitam o trabalho para a retirada do sangue, ou seja, muitas furadas, sem sucesso e muita dor... e não estou falando só de hoje, que foram duas furadas sem sucesso, sendo a segunda que o fez derramar lágrimas pesadas. E ele não é a criança-comum que berra, esperneia, como num extinto natural de sobrevivência para fugir desse lugar traumático, que causa dor. Como um cordeiro vai para o abatedouro, ele permanece quieto, parado, tenso sim, e quando a dor é terrível, brotam as lágrimas de uma tonelada cada uma, pesadas porém mas silenciosas.

Como disse para a jovem enfermeira (no jaleco estava escrito biomédica) que furou as duas primeiras vezes: desde o primeiro dia de vida, 14/06/2014, ele é furado. Passou pela tentativa de extração do liquor da medula óssea. Eu estava lá e ouvi os berros daquele pequeno bebê que acabara de sair do ventre materno - por conta da toxoplasmose congênita, e até a alta com 2 anos e meio, muitas furadas. A enfermeira Vera resolveu a questão hoje. Apalpou, procurou, sentiu a veia e terceiro furo foi certeiro. Levantei as mãos aos céus: Viva a Vera! Benjamin voltou mais silencioso no trajeto de Uber...

Amo meus filhos e por amá-los tanto, me arrependo de tê-los tirados seja lá onde estavam para virem sofrer nesse inferno que chamamos Terra. Anseio para que ganhem ferramentas emocionais, intelectuais, espirituais - e nunca religiosas, para saberem minimizar as sequelas dos sofrimentos terrenos...

Bem, por enquanto é isso. Felicidade e ser consciente são incompatíveis mesmo, Camus. E para terminar com mais uma ideia de Bernardo Soares, afinal, quem me trouxe para esse texto, na tentativa de diminuir a febre de sentir: "Uma só coisa me maravilha mais do que a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida: é a inteligência que há nessa estupidez" (p. 154).

quinta-feira, dezembro 29, 2022

ENTRE MIM E MIM

 Let's go! Mais um registro para a posteridade... Pessoa que me lê, espero que esteja relativamente bem... Eu estou relativamente bem. Digo relativamente, pois não há o "estar realmente bem", conscientemente, o "bem" é uma ilusão, enfim...

"Entre mim e mim" é um empréstimo que fiz de uma citação de Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa: "Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quantos sou? Quem é eu? O que é este intervalo que há entre mim e mim?" ("Livro do Desassossego", Bernardo Soares, p. 189).

Encontro-me exatamente neste intervalo, entre mim e mim, e faço o mesmo questionamento: o que é este intervalo entre o que fui e o que serei (serei?)?

[acréscimo, 09/01/2023]. Lendo algumas páginas da obra Poética de Cecília Meireles, encontrei esse: "Noções", que inicia exatamente assim: "Entre mim e mim, há vastidões bastantes/ para a navegação dos meus desejos afligidos. // Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos./ Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.// Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,/ só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.//Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a./Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,/e este abandono para além da felicidade e da beleza.//Ó meu Deus, isto é a minha alma:/qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,/como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera..." (p. 109).

O fato do Brasil ter eleito uma b6e6s6ta em 2018 me fez muito mal, sim, pela be6s6t6a em si, mas muito por todo o contexto que o elegeu e as pessoas que se converteram a essa b6e6s6ta. Mudanças importantes que já estavam em movimento dentro de mim, foram acentuadas...

Então veio a pandemia do coronavírus... A pandemia no Brasil foi um inferno diferente dos outros locais do mundo, se não o pior, um dos piores, sim, pela be6s6t6a no poder e seus filhotes - me refiro a todos, não apenas aos bestinhas de sangue e mesma merda!

Sou um sobrevivente desse cenário apocalíptico brasileiro... não tiveram a mesma "sorte" mais de 660 mil pessoas, especialmente os que perderam a oportunidade da vacinação em tempo hábil, pois sabemos que o "atraso" na chegada da vacina no Brasil esteve envolvido em escândalos...

Essa introdução se faz necessária para tentar montar um cenário. Outro grande trauma que preciso destacar é o modo como saí do trabalho na universidade que me trouxe até Londrina. De abril de 2013 a março de 2018 foram os melhores cinco anos, mesmo com as perdas contratuais sofridas pelos professores temporários.

A chefia que assumiu a partir de março de 2018 transformou um ambiente de trabalho que eu realizava - ainda que em condições precárias, comparada aos professores efetivos, num inferno. Pior, sem ser ajudado ou orientado por exatamente NINGUÉM...

Em janeiro de 2020, decidi sair, pois já estava muito, muito doente... as crises de depressão anteriores, as transformações internas, o cenário político-econômico brasileiro-paranaense...

Paula e eu brincamos que temos saudades do tempo do isolamento social. Sim. Foi incrível, não podemos negar, o tempo em nossa "mansão" na Rua Arthur... (esqueci o nome da rua... e estou ficando preocupado com minha saúde mental...).

Foi um período de medo pelo que estava acontecendo no mundo, porém, um período de mergulhar mais para dentro de mim... Leituras, exercícios de escrita... Escrevi em julho de 2020:

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BOTÃO


Uma coisa é certa:

Ligaram ou desligaram

Algum botão em mim.


Fato!


O que faço com ele?

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O que faço com ele, com o fato de sentir profundamente que esse botão, desligado ou ligado, apartou-me da ideia que eu tinha de mim, da minha existência até então? Até hoje, dois anos e meio depois, não sei responder...


Em agosto de 2020, escrevi outra versão, a mesma ideia do botão, agora um pouco mais estendida:


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BOTÃO ON/OFF


Das duas, uma:

um botão foi desligado

ou um botão foi ligado.


Algo se quebrou aqui dentro;

o que eu era se rompeu,

se desprendeu, não sei mais ser.


Não sou mais eu, não sei quem sou.

Só sei que tudo foi em vão.

Não há razões para ser.

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E ainda escrevi esse:

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A VIDA ME CANSOU


Não me cansei da vida,

A vida que me cansou.

Os sentidos - que nunca existiram,

Se desfizeram todos, como névoa.


Inerte, mente fria e estática,

Num corpo que perambula

E anseia pelo fim de tudo.

O motivo desse martírio todo?

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Não acreditar mais no deus cristão, na bíblia, na igreja não me aflige. É um alívio! Quem ainda está lá e ainda acredita, e é fanático-radical, dirá: "é o que acontece com quem se afasta da igreja, da fé...". E eu não responderei, pois minhas palavras e argumentos serão como jogar "pérolas aos porcos", essa figura de linguagem bíblica tão interessante (sendo meio sarcástico).


Deparo-me com o absurda da vida, do non-sense de existir... Muito obrigado, Camus por suas considerações relevantes e únicas sobre esse absurdo! Óbvio que entendi superficialmente, no senso comum, sem me aprofundar... Quem sabe um dia estudo profundamente!


Estar afastado das redes sociais desde 13/11/2022 e ter ocorrido tantos traumas de lá para cá, por exemplo, ser reprovado na prova didática para a Unespar de Apucarana, dia 25/11/2022. Teria tanto para escrever sobre vivenciar o processo eleitoral, primeiro turno, segundo turno... o nervoso que passei de estar na rodoviária de Curitiba, no dia 31/10/2022 desde as 6h30 da manhã e perto das 11h00 a empresa de ônibus anunciar que as viagens foram canceladas por conta dos bloqueios nas estradas, por conta dos bestinhas/merdinhas descontentes com o resultado do pleito no dia anterior... e olha que já foram tantos fatos esdrúxulos de lá para cá, por exemplo, terrorismo, com a tentativa de detonar um caminhão-bomba no aeroporto de Brasília, semana passada...


Entretanto, vim para o blog com o objetivo de registar os presentes que ganhei de Natal e o que rascunhei hoje, após a leitura e cópia manuscrita de uma poema de Cecília Meireles - sempre ela!


Passamos o Natal em casa. Carro quebrado, esperando o conserto do motor... Caro! Paula tinha comprado jogos para os meninos e eles perguntaram se nós não ganharíamos presentes... Paula foi ao centro da cidade no sábado, 24 de dezembro e comprou os livros de Cecília para mim e uma camiseta do Mickey para ela.








Ontem, comecei a ler e fazer cópias manuscritas de alguns poemas, estrofes ou versos marcantes. Hoje, ao ler e copiar "Conveniência", tive mais um episódio de "desejo fazer assim um dia". Assim, transcrevo abaixo o poema e o que escrevi.


CONVENIÊNCIA

CONVÉM que o sonho tenha margens de nuvens rápidas
e os pássaros não se expliquem, e os velhos andem pelo sol,
e os amantes chorem, beijando-se, por algum infanticídio

Convém tudo isso, e muito mais, e muito mais…
E por esse motivo aqui vou, como os papéis abertos
que caem das janelas dos sobrados, tontamente…

Depois das ruas, e dos trens, e dos navios,
encontrarei casualmente a sala que afinal buscava,
e o meu retrato, na parede, olhará para os olhos que levo.

E encolherei meu corpo nalguma cama dura e fria.
(Os grilos da infância estarão cantando dentro da erva…)
E eu pensarei: «Que bom! nem é preciso respirar!…»

Cecilia Meireles, Viagem

"Sonhar é livre, é gratuito e, não necessariamente precisa ou irá se realizar, ainda que se gaste até o último tostão e se desperdice os anos de vida em busca dos sonhos.


Enquanto copiava e meditava sobre o poema acima, eu que sonhei por várias vezes realizar projetos que envolvam vida e obra de Cecília Meireles, um filme biográfico, por exemplo, as cenas seriam quase todas elas, inspiradas nos poemas e crônicas.


Li que Cecília faleceu às 15h00 do dia 09 de novembro de 1964, em seu quarto, no bairro Cosme Velho, Rio de Janeiro.


O filme poderia começar ou terminar com base nesse poema (Conveniência), boa parte das cenas aceleradas, até culminar em seu espírito chegando em sua casa, na sala com o retrato, ela deita e encolhe o corpo - "numa cama dura e fria" - e ouvimos os grilhos (ou grilos) cantando e a câmera se aproxima dos olhos de Cecília que estão fechados e num clímax, eles se abrem de repente, como se voltando a respirar... e o filme começa ou termina..."





Estendendo o rascunho acima, em outros momentos em que penso sobre o filme que narrará a história de vida de Cecília, a referência a alguns poemas serão obrigatórias, como "Retrato"... As viagens de Cecília ao exterior, todas elas... as muitas viagens a Ouro Preto, para escrever o "Romanceiro da Inconfidência". Cecília menina, a cena e situações narradas no poema "Desenho": "Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,/ e comia mamão, e mirava a flor da goiaba". Vó Jacinta cantando e cosendo na sala e a menina Cecília a admirando profundamente... "E minha avó cantava e cosia. Cantava/ canções de mar e de arvoredo, em língua antiga./ E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos/ e palavras de amor em minha roupa escritas".

Da infância, entre tantas outras preciosidades que imagino é a convivência com sua amiga Josefina e que falece, num texto em "Giroflê, Giroflá", com o título "Josefina", Cecília descreve o impacto da morte de Josefina: "Encontrei-a no mais belo jardim do mundo [...]. Era, porém, o mais belo jardim do mundo, porque Josefina passava por ali, e suas saias crepitavam nas folhas secas e seus dedos tão brancos aramavam raminhos com malvas, miosótis, amores-perfeitos, - raminhos de trazer ao peito, de colocar diante dos santos, de pousar as mãos dos mortos..."

Enfim... vou ali aprender como se escreve um roteiro de um longa-metragem...


E encerro este registro de fim de 2022, com ela, sempre ela, Cecília Meireles, com dois trechos da crônica "A quinhentos metros":


"A quinhentos metros, os vossos belos olhos desaparecem; e essa claridade do vosso rosto; e a fascinação da vossa palavra. É uma pena (eu também acho que é uma pena!) mas, a quinhentos metros tudo se torna muito reduzido: sois uma pequena figura sem pormenores; vossas amáveis singularidades fundem-se numa sombra neutra e vulgar. Ao longe, caminhais como qualquer pessoa - e até como certas aves: é o que resta de vós: esse ritmo, na imensa estrada que também se vai projetando, estreita e indistinta, sobre o horizonte.


[...]


A quinhentos metros, na verdade, há muita ausência, vamos acabando muito depressa. Pensai que, geralmente, neste mundo, há sempre cerca de quinhentos metros de uma pessoa para outra! Somos só desaparecimento. E apenas quando conseguimos ficar, também, a uns quinhentos metros de nós mesmos, encontramos algum sossego. Porque, então, é a vez dos nossos tormentos mudarem de proporções e aspecto. De serem vistos só de longe, sem pormenores, sem voz, sem ritmo: nem mês de maio, nem flores, nem arroio. Talvez a memória serenada. Talvez nem a memória… - É assim em quinhentos metros!"


MEIRELES, Cecília. A quinhentos metros. In: Quadrante. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1962, p. 34-36.


Entre mim e mim, um intervalo de quinhentos metros!


A bientôt