O Quarto do Menino

"No meu quarto que eu lia, escrevia, desenhava, pintava, imaginava mil projetos, criava outros mil objetos... Por isso, recebi o apelido de 'Menino do Quarto', título que adotei como pseudônimo e hoje, compartilho neste 'Quarto Virtual do Menino', o que normalmente ainda é gerado em meu próprio quarto". Bem, esse início já é passado; o 'menino' se casou (set/2008); há agora dois quartos, o do casal e o da bagunça... Assim, diretamente do quarto da bagunça, entrem e fiquem a vontade! Sobre a imagem de fundo: A primeira é uma reprodução do quadro "O Quarto" de Vicent Van Gogh; a segunda, é uma releitura que encontrei no site http://www.computerarts.com.br/index.php?cat_id=369. Esta longe de ser o MEU quarto da bagunça, mas em 2007, há um post em que cito o quadro de Van Gogh. Como disse, nada mais propício!!!... Passaram-se mais alguns anos, e o quarto da bagunça, já não é mais da bagunça... é o Quarto do Lorenzo, nosso primogênito, que nasceu em dezembro de 2010!

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domingo, outubro 26, 2025

"UM RIO CORRE DENTRO DO MEU SONHO" - A IDENTIFICAÇÃO DO LEITOR COM O ESCRITOR/LEITOR

 O privilégio de ler um autor contemporâneo que escreve sobre memórias da sua infância, sobre familiares, sua relação com a palavra, a ligação com o objeto livro. Autor brasileiro, nascido na década de 1980, altamente sensível. Todas estas características me levaram a uma identificação com a persona apresentada pelo escritor/leitor Paulo Roberto Farias.

Capa do livro

No seu terceiro livro "Um rio corre dentro do meu sonho" (2024), pela Editora Caos & Letras, com crônicas sem títulos - o que lembra um diário, ainda que não tenha datas, as crônicas versam sobre o fascínio do autor pela Palavra e suas infinitas possibilidades de expressão, seja pela leitura, pela escritura, pela atuação como ator de teatro. Lembranças da infância/adolescência de um menino com medo do mundo, a timidez, enfrentando os obstáculos para tornar-se quem desejava/deseja ser.

O "rio" do título é uma mescla de vários rios da hidrografia da região que os familiares do Paulo viveram, onde ele nasceu, onde passou a infância. Rios que correm, transportam vida, mas também destruição. Em várias passagens, o autor comenta sobre enchentes históricas e a mais recente de 2024, que devastou aquela região do Rio Grande do Sul.


Rio Taquari-RS

Minha identificação com as crônicas do Paulo passa pela relação com a Palavra, com o objeto livro, com o interesse pela história dos seus ascendentes - de onde vieram, como foram suas vidas naqueles tempos, tudo o que tiveram que passar para chegar até o pai e a mãe, com a união de seus materiais biológicos, nos formaram.

Fiquei encantado com a biblioteca do velho alemão; idoso que os tios cuidavam e, portanto, moravam na casa deste homem. Biblioteca que o menino Paulo era fascinado e a descrição que faz dela e dos livros muito antigos trazidos do velho continente, em língua estrangeira criaram o desejo de conhecê-la. Cheguei a pensar: poderia ter exemplares raros, mas se perderam, pois são raras as pessoas que se interessam pela história da escrita, do livro, dos percalços e percursos que a humanidade enfrentou e traços para chegar até nós, a herança da palavra escrita e registrada, atravessando todo tipo de intempéries.

O que pode uma alma sedenta por palavras, por histórias, contra um mundo que passa e segue como um trator? Com toda a transformação da Natureza e de como tudo o que os homens constroem ficam à mercê dessas transformações: construções de cidades, barragens, plantações, desmatamentos, assoreamentos, toda a mudança climática que vemos diante de nossos olhos e nos atravessam material e imaterialmente.

Amei cada página lida, pois, além do poder da literatura e da leitura já conhecidos, há o privilégio de ler literatura feita de histórias e sonhos e desejos de alguém que vive e respira o mesmo tempo cronológico que eu. Cito especialmente a crônica da página 85 que começa assim: "Eu sou dois. Desde pequeno. Um é medroso, o outro é exibido". Interessante! Interessantíssimo!

Eu fui só o medroso. Uma criança extremamente tímida, timidez mórbida que me acompanhou até meus 19 anos de idade. De lá para cá, venho num movimento de transformação. Passei pela fase de enfrentar o público, mesmo com medo. Na graduação com os diversos seminários, na pós-graduação, como professor. E vamos pegando o jeito, a ponto de entrar numa nova sala de aula com 20 e 30 jovens e não ter mais medo, apenas aquela expectativa gostosa "com que diversidade serei presenteado agora?". O mesmo para várias palestras e formações de professores que ministrei...

Depois da pandemia e agora na minha fase mais pessimista, uma pessoa que não acredita em quase nada, tenho preferido o silêncio, a reclusão, quase um retorno ao menino do quarto que fui, porém, naquela época, eu não tinha escolha, ou não tinha recursos e vivências para ser diferente. Hoje, eu prefiro ser o "menino do quarto".

Eu quero uma casa no campo, como a da canção! "[...] eu quero o silêncio das línguas cansadas", "uma casa do tamanho ideal, pau a pique e sapê, onde possa plantar meus amigos, meus discos e livros e nada mais".

É provável que um rio corra perto desta casinha e eu ouça suas águas passando, enquanto eu esteja no deleite com um livro...

quarta-feira, janeiro 11, 2023

21 EM CADA PERNA: meu aniversário está próximo

Daqui há quatro dias completo 42 anos de idade - 21 em cada perna. Quatro décadas e dois anos é a minha soma. Morando os últimos meses sozinho lá no sul do Paraná, mais precisamente, no norte de Santa Catarina, meu kitnet era vizinho de uma funerária, que depois saiu do local, permitindo que a padaria expandisse. Entretanto, ali no centro é possível encontrar outras duas ou três - senão mais funerárias. A maior concentração de funerárias, barbearias e petshops do Brasil, segundo minha própria percepção (fonte: vozes da minha cabeça).


Chegar quase onze horas da noite, depois de dar aula, abrir o pequeno portão, passar pelo corredor, cujas janelas eram da própria funerária. A solidão naqueles dias era gigante e fez-me pensar e repensar no sentido da existência com muito mais intensidade - mais do que o comum.

Estacionamento exclusivo da funerária, minha vizinha

Funerária um pouco mais a frente, na mesma praça

Em anos passados escrevi sobre velórios. Um texto específico sobre a morte da Nina, mãe da Gisele, que estudou comigo no Ensino Médio. Éramos vizinhos de bairro. Eu morava na Rua Carlos Santili, 45. Nina e família moravam na esquina das ruas Luís Rodolfo Miranda e Olar Durigheto. Naquele texto, uma das reflexões que levanto: estarei em quantos outros velórios? Quem estará no meu velório?


Pois bem, não sei quem estará no meu velório, nem quando será, mas sei que no meu velório quero leituras e declamações dos poemas - ou crônicas - de Cecília Meireles. Os presentes que quiserem agradar este ser hoje consciente e que escreve nesse instante - meu corpo será apenas uma concha vazia, como escreveu Edna Adan Ismail, todavia será uma maneira de espalhar poesia, artigo de "luxo", num dia aparentemente triste. Fernando Pessoa escreveu que para ele, o cadáver é como um "trajo", o corpo é como o "terno único" e "alguém se foi embora e não precisou levar aquele fato único que vestira".

Os poemas de Cecília são a expressão da perfeição da imperfeição humana. Poeta que escreveu sobre a brevidade da vida e a iminência da morte terrena de modo tão sublime. Um morto no caixão não manda em nada, mas, registro aqui: leiam poemas de Cecília Meireles em meu velório, dure ele uma hora, dez ou 24 horas (desnecessário!!).

Agora vou escrever sobre o passado.

Nasci no século XX. Amo números romanos, seu funcionamento e lógicas diferenciadas dos números arábicos. Eu criei uma forma idiota para conseguir recordar alguns como "linquenta" (L = 50, cinquenta) ou "dinhentos" (D = 500, quinhentos). I, V, X, C e M eram mais fáceis de lembrar, sendo C e M diretamente relacionados.

15 - 01 - 1981

Era uma quina-feira, 18h40, Maternidade Maria Isabel Sampaio Vidal, em Marília-SP, se acreditarmos nos registros. Devo ter registrado em algum texto minha estranheza em perceber que nasci numa cidade relativamente jovem, em janeiro de 1981, Marília contava com 51 anos de emancipação.


As opções de nomes que minha mãe escolheu eram: André Luís, Álvaro e Paulo Henrique. Amo meu nome - ou me acostumei a ele. Uso Álvaro como pseudônimo em pesquisas que participo. Paulo Henrique é um estranhamento, mas se tivesse sido a opção da minha mãe, eu diria o mesmo de "André Luís" hoje. "A", primeira letra do alfabeto ocidental. Janeiro - primeiro mês do ano ocidental. Minha data de nascimento possui o número 1 no dia, mês e ano. Convenções! Tudo convenções de época, cultura, circunstância. Janeiro e fevereiro foram incluídos no calendário romano (calendário juliano, somente em 46 a. C., como acabo de pesquisar e ler na Wikipedia).

42 anos parecem tantos anos... Porém, divididos em décadas:

1a) 1981-1991, 2a) 1991-2001, 3a) 2001-2011, 4a) 2011-2021...

Na primeira década, fui bebê, criança; na segunda, fui basicamente estudante; na terceira, terminei o mestrado, casei e fui pai do Lorenzo; na quarta, terminei o doutorado, mudamos para Londrina, Benjamin nasceu e mais dois anos de pandemia do coronavírus...

Dentro de cada década, preenchida com vivências, experiências, aprendizados, traumas... Toda a vida fui intenso, sensível ao extremo, vulnerável a toda e qualquer interferência e não precisava ser nada muito drástico. Não por acaso, meu apelido dentro de casa foi "manteiga derretida"; na vizinhança e escolas, os "apelidos" eram mais incisivos: bichinha, viadinho, florzinha... Numa discussão na 5a série, então com 11 anos, na qual eu estava defendendo uma outra aluna de ser passada para trás, a Miléia disse que eu não morreria, pois "bicha não morre, vira purpurina"...

A ponta do meu dedo indicador carrega uma cicatriz por uma desobediência e arte - uma das poucas que cometi, na primeira década. Chegou uma visita em casa, aproveitei a distração da mãe, para pegar a faca e cortar o bambu verde, para construir pipas - que eu não empinava, com medo da força do vento.


Todos esses atropelamentos, determinaram os encaminhamentos para as décadas seguintes. Uma das minhas memórias mais antigas, quatro ou cinco anos de idade, estava só de cuequinha e chinelo, sentei no degrau do quartinho de bagunça e levei uma ferroada de marimbondo no bumbum. É como se pudesse sentir a dor e lembro que chorei muito. Com sete anos tive que ir ao hospital para expurgar um furúnculo gigante no pescoço... lembro da gritaria e do desespero do meu pai, tentando meu acalmar...

A segunda década da minha vida, como escrevi, fui basicamente estudante do Ensino Fundamental, Médio e Técnico. Destaco o período que minha mãe entrou em alguns consórcios com um biscate conhecido (Elias e sua belina) que vendia de lençóis, colchas, roupas a eletroeletrônicos e, justamente por isso, tivemos nosso primeiro e único micro-ondas, bem como nosso primeiro e único videocassete.

Ele é o ponto central aqui! Meus finais de semana, caminhava até a Avenida João Ramalho para a Hobby News Videolocadora. Dependendo do dinheiro disponível para o aluguel das fitas VHS, eram duas a quatro por fim de semana. Durante esse período, comprava a revista SET e criei, num caderno universitário usado, uma espécie de catálogo: uma lista enumerada dos filmes que já tinha visto, recordada no início da lista e depois alimentada/atualizada conforme ia assistindo aos filmes, alugados ou vistos na TV aberta.

Da minha casa até a videolocadora, caminhando, uns 10 minutos

Depois, nesse mesmo caderno, criei páginas para meus atores favoritos, como Whoopi Goldberg e na frente de seus nomes indicava os números dos filmes que participaram. Na minha lista, por exemplo, "A cor púrpura" era o filme número um. 2."O Rei Leão", 3."Lua de Cristal", 4."Ghost, do outro lado da vida", 5."Inimigo Meu" (com Dennis Quaid, meu deus, preciso rever esse filme pela milésima vez, pois as 999 vezes anteriores foram nessa segunda década de vida), 6."Corina, uma babá perfeita". Em frente ao nome de Whoopi Goldberg estava os números: 1, 4, 6... Dennis Quaid: 5; Ray Liotta: 6...

No filme "Corina...", uma babá negra e um viúvo branco, nos anos de 1950 nos EUA, se apaixonam e lembro como hoje uma fala racista da mãe ou avó do homem branco, algo como: um pássaro e um peixe podem se apaixonar, porém, onde farão o seu ninho?".

Fiz questão de focar nessa minha paixão juvenil por filmes, assistir filmes, saber sobre seus bastidores e os atores, comprar a revista, tinha uma coleção de capas de VHS - quatro por revista, que era uma publicação mensal, pois recentemente, iniciei um curso online "Escrita de roteiro para cinema e TV" e estou "feliz" com o que tenho aprendido. "Feliz" entre aspas significa "feliz, sem muita empolgação ou expectativas", ou seja, uma felicidade racional, não emocional. Satisfeito com o que tenho aprendido. Ciente de que sou um amador, meu senhor, quanta coisa para ver e aprofundar!

No livro que escrevi e publiquei no início de 2020, escrevi nas páginas 79/80: "Pastor Alexandre, que celebrou nosso casamento, disse que nossa história daria um bom livro. Eu penso em um roteiro de filme, oportuna motivação para retratar a relação entre Brasil e Bolívia, brasileiros e bolivianos e a nossa história como pano de fundo. Eu tenho uma imaginação muito fértil: 'o fantástico mundo de André'. Nesse caso, as histórias já estão prontas, fico imaginando quais delas selecionar e como serão as cenas, sets de gravação, como será a escolha dos atores mirins que farão Paula e André na infância".

Engraçado ler isso hoje. Aqui eu era o roteirista, o diretor geral, o produtor, o diretor de elenco... Foi a década mais acentuada do "Menino do Quarto", solitário, de casa para a escola, da escola para casa. No quarto eu lia, escrevia, desenhava, pintava, fabricava meus livros e preenchia meus diários, assistia a meus filmes (na sala), mas logo corria para meu lugar seguro.

A terceira década foi a de maior transformação: o Menino do quarto saiu do quarto, entrou na universidade - como eu amei aquele ambiente acadêmico-científico, a igreja e os grupos me ajudaram a ganhar confiança e seguir com meus novos objetivos, avançando, superando os anos anteriores de timidez patológica e solidão extrema.

A quarta década seguiu repleta de mudanças. Mudança de cidade/Estado, trabalho, teve a toxoplasmose congênita do Benjamin e quando o contrato para professor PSS na UEL, além de deteriorar, teve a mudança de chefia do Departamento de Educação (2018-2020), colaborando e muito para o desmoronamento da ilusão que eu tinha de tudo, até então. A única estabilidade, minha âncora foi a família: Paula, Lorenzo e Benjamin, apesar das tempestades internas e externas, que sofria e sigo enfrentando.

Próximo de completar meu quadragésimo segundo verão, pois nasci no hemisfério sul desse planeta, portanto, início do verão, sou um adulto relativamente realizado. Afinal, o que é sucesso? Questionei lá no livro, em 2020. Marido, pai, professor, ainda pago os boletos, aos trancos e barrancos, mas seguimos. Como indivíduo, sujeito psíquico, estou perdido, em desintegração, buscando uma nova estabilidade (sabidamente ilusória). E isso não é culpa de ninguém, nem minha. Todas as circunstâncias, eventos, fatos dessa minha vida trouxeram-me até aqui...

Quem sou eu? Para que vim? Para onde vou? Qual é o sentido de tudo? Essas perguntas-fantasmas, tão velhas quanto o homem e sua consciência da existência humana, respondidas e conformadas com momentos históricos, religiosa ou filosoficamente. Sou apenas mais uma pobre alma perdida, atormentada por esses fantasmas. Os religiosos, especialmente os radicais com os quais convivi das décadas, dirão que é justamente o que ocorre com quem se desvia, sai do caminho que é jesus, apostata da fé, blá blá blá blá... Coitados. tem pessoas muito boa nesse meio, poucas, raríssimas, mas estão mergulhados no radicalismo fanático religioso.

A manutenção da vida é cara e cansativa. Esse mantra se repete de quando acordo até me deitar, ter pesadelos horríveis e outra vez e novamente. algumas esperança? Nenhuma! E isso não é ruim. Desejo que meus filhos encontrem ou construam seus propósitos nesse mundo, que não tem nada de divino ou pré-determinado por um deus onisciente, onipotente e onipresente... Desejo que vivam de modo mais leve, se possível. Não carregar essa carga traumática da religião pode tornar a jornada mais leve... eles poderão escolher o caminho, sem nossa imposição de certo ou errado.

Na página 82 do meu livro: "Cartas do Menino do Quarto para o mundo", na carta dedicada à minha família (esposa e filhos), escrevi: "[...] Lorenzo e Benjamin, sou humano e, portanto, falho; desejo ser o melhor pai do mundo para vocês, mas, as tentativas de ser, são de um pai possível e real!".

Infelizmente, o livro está impregnado de "crentês", referências bíblicas e espirituais (cristãs), mas era no que estava imerso até então. E quando escrevo "infelizmente", não é pelo que vivi e aprendi lá. Muito mais pela forma como se deu. Como tudo na minha vida - e Paula tem o mesmo perfil, de mergulhar, sermos intensos, não fazer pela metade ou superficialmente. Como escrevi em outro momento, o cristianismo evangélico brasileiro, nesses últimos anos, extremista-radical, como podemos verificar com a mistura perniciosa com a política, de caráter fascista.

Consola-me saber que nesses 20 anos de "menino de igreja", e como casal também, tivemos nossos embates e enfrentamentos justamente por sermos questionadores. Batemos de frente com "figurões", pastores e líderes e, portanto, fomos tachados de rebeldes, insubordinados. Mudamos de local - isso em Marília e aqui, ficamos em um e desde a pandemia, graças a deus, Maria, santo expedito, exu, iemanjá, espírito André Luís, todas as bruxas queimadas e vivas, Pachamama e todas as forças vitais do Universo, não somos mais de nenhum local ou estamos debaixo de cobertura espiritual de seu-ninguém. Que alívio!

Recomendo: "Pachamama", uma animação francesa,
sobre a invasão e genocídio dos povos andinos

Caso você que me lê até aqui, se em algum momento do passado quando eu fazia parte desse radicalismo e extremismo religioso, tenha te ofendido por algum ponto de vista ou posicionamento sobre qualquer área e tenha te magoado ou ferido, peço perdão pela minha ignorância.

O que escreverei sobre o ciclo da 5a década de minha vida? (estarei vivo? não terá acontecido antes meu velório com declamações dos poemas de Cecília Meireles? Leiam "Biografia", leiam todos que citei na minha Live com a Fernandinha Meireles em 17 de novembro de 2021).

Ano de 2031, se vivo, completarei 50 anos, meio século e só faltam oito anos para essa data. Neste ano, 2023, deixarei de ser professor universitário, que tenho sido desde 2008 e vou experimentar ser professor de adolescentes, na Sala de Recursos para Altas Habilidades/Superdotação (como PSS ainda pelo Estado do Paraná) e, talvez, seja convocado para uma vaga no concurso para professor de Educação Básica, pela Secretaria Municipal da Educação de Londrina, ser professor de crianças, do 1o ao 5o Ano do Ensino Fundamental. Desafios!

Sem expectativas, tentando administrar todas essas mudanças no mundo das ideias. Vamos ver como será na prática.

A manutenção da vida segue cara e cansativa. Amenizada com poesia. Ótimo ópio, ela, a poesia... refletir sobre a crueldade da existência com inteligência, doçura e incisões precisas.

Seguimos!

Feliz 42 anos para mim.

Obrigado.

De nada.


quinta-feira, dezembro 30, 2021

A ÚLTIMA CAIXA

Fomos passar o natal de 2021 na casa dos meus pais, em Marília-SP. Saímos de Londrina-PR no dia 23 de dezembro bem cedo. Retornamos no dia 26, domingo. Chegamos em casa perto do meio-dia.

Para resumir a ópera e chegar ao cerne: na casa dos meus pais há o quartinho da bagunça. Quando solteiro, boa parte do meu arquivo pessoal ficava no quartinho da bagunça. Quando me casei, levei muita coisa comigo, entretanto, muita coisa ficou.

Já com uma década e poucos anos de casado, fiz uma nova seleção, jogando muita coisa. Por fim, restou uma última caixa no quartinho da bagunça. É sobre esta última caixa que pretendo tecer algumas considerações.

Não era uma caixa de sapatos, nem aquelas comuns de papelão. Foi a embalagem de uma das impressoras que tive, uma impressora pequena. Nessa última caixa, passados muitos anos, depois de todas as seleções e descartes, entre textos utilizados na universidade (graduação, mestrado, doutorado), minhas produções pessoais (desenhos, pequenos textos escritos a mão), fiquei com uns 15% do conteúdo dela.

Desfiz-me dos textos utilizados em algumas disciplinas do mestrado (Profa. Helen, minha orientadora, Prof. Sidnei, que foi orientador dela, Prof. Dagoberto, disciplinas sobre o livro, a leitura, leitores)... Ainda tinha um material produzido por uma professora do primeiro ano de graduação - textos fotocopiados, porém, tão bem feito, com capa, o programa da disciplina, mas decidi que era hora de desprender-me. Cheguei a visitar e participar de algumas reuniões do Grupo de Pesquisa dessa professora, sobre o "Integralismo" no Brasil.








Encontrei um "diploma de honra" da Encyclopedia Britannica do Brasil "por sua participação em nossa exposição de desenhos intercolégios realizado no Marília Tenis Clube", de 13 de agosto de 1994. Ainda esforço minha memória para lembrar algum detalhe desse evento: qual foi o desenho? eu fui na exposição? Eu guardo muita coisa na memória, mas desse evento só o diploma é o mais concreto que tenho.



Sobre desenhos, encontrei algo como "retratos" que fiz dos meus alunos surdos do Projeto de Extensão em que fui bolsista por dois anos e eles continuaram meus alunos nos estágios curriculares na área da Deficiência Auditiva. Formalmente, estive em contato com esses alunos por três anos, no mínimo.






Nessa caixa também estava minha pasta de estágio da área da Deficiência Auditiva, com um "10,0" a lápis e discreto da supervisora de estágio. Também o projeto "Jogo de Xadrez para Surdos" que propus na escola onde fiz o estágio na sala especial para surdos.

Há tantos outros itens com enorme relevância afetiva: um cartão do amigo Valter me desejando feliz 2003, mas um cartão totalmente manual, papel cartolina, colagens, letra do amigo. Onde se encontra isso nos dias de hoje?





Um desenho e texto - "Anjos sem asas" que escrevi em homenagem a minha prima Michelle, que compunha uma agenda minha com outros textos. Só este sobreviveu, pois fui incentivado no discipulado da igreja a me desfazer de tudo que era da minha "velha vida". Joguei textos, CDs (Madonna, por exemplo)... Quanto me arrependo! TANTÍSSIMO!





Estou imensamente grato ao UNIVERSO por estar longe desse tipo de abordagem limitadora, estreita e "emburrecente". De certo modo, lá no fundo, eu sabia que era idiotice me desfazer das minhas produções e objetos pessoais... guardei muitos desenhos "obscenos" e também minha coleção dos signos do zodíaco.

Há o texto intitulado "Um pequeno ensaio sobre mim", em folhas rascunhado manualmente, o qual pretendo digitar e socializar. Um cartão que foi produzido para que os alunos da turma "Maternal" presenteasse suas mamães, com um poema escrito por mim, a pedido das professoras, quando fui estagiário. Fiz isso para a turma da professora Lena também, minha amiga até hoje.




Meu autorretrato, que utilizei na pasta de estágio (Portifólio), inclusive as capas que produzi para esse material com colagens diversas, estavam guardadas, desenho que ganhei de algumas crianças nos meus estágios.

O que pretendo com esse texto? Fazer um inventário de tudo que encontrei? Não! Apesar de ter esse desejo. Um tesouro que sobreviveu há tantos anos e mudanças (mudanças internas, já que meus pais permanecem na casa onde estavam guardados).

Talvez, meu objetivo é, ao resgatar as memórias que estes itens me remetem e, ao contrário, eventos que eu havia me esquecido, mas o item me força uma lembrança - como do diploma da exposição do desenho, poder registrar e compartilhar aqui, com meus amigos, virtuais e reais, com meus leitores fiéis aquilo que considero relevante.

"A última caixa" é literalmente a última caixa que eu tinha na casa dos meus pais. Há uma conta que sigo no Instagram em que o autor - Luciano Lobato, é psicólogo, produtor do conteúdo dessa conta, escreveu sobre "caixas" e é muito interessante a analogia que ele faz das nossas caixas ao longo da existência. Clique aqui se quiser ler.

Também gosto de associar com o filme "O fabuloso destino de Amèlie Poulain" quando ela encontra uma pequena caixa com recordações de uma criança e passa a buscar o dono daquelas lembranças.

De certo modo, fico impressionado com o volume de coisas que produzi, que consegui guardar ao longo dessa minha pequena história de 40 anos. E por questões práticas, logística e de espaço precisamos ir nos desfazendo... É como a vida: cabe numa caixa!