O Quarto do Menino

"No meu quarto que eu lia, escrevia, desenhava, pintava, imaginava mil projetos, criava outros mil objetos... Por isso, recebi o apelido de 'Menino do Quarto', título que adotei como pseudônimo e hoje, compartilho neste 'Quarto Virtual do Menino', o que normalmente ainda é gerado em meu próprio quarto". Bem, esse início já é passado; o 'menino' se casou (set/2008); há agora dois quartos, o do casal e o da bagunça... Assim, diretamente do quarto da bagunça, entrem e fiquem a vontade! Sobre a imagem de fundo: A primeira é uma reprodução do quadro "O Quarto" de Vicent Van Gogh; a segunda, é uma releitura que encontrei no site http://www.computerarts.com.br/index.php?cat_id=369. Esta longe de ser o MEU quarto da bagunça, mas em 2007, há um post em que cito o quadro de Van Gogh. Como disse, nada mais propício!!!... Passaram-se mais alguns anos, e o quarto da bagunça, já não é mais da bagunça... é o Quarto do Lorenzo, nosso primogênito, que nasceu em dezembro de 2010!

quarta-feira, julho 22, 2020

Sobre uma pequena reportagem que me apresentou uma nova (para mim) perspectiva do Tempo

Londrina 22 de julho de 2020.

Nesta data, 22/07/2020, está tudo fora do lugar. Mudamos para esta casa em 14/12/2019, depois ficamos 15 dias em outra cidade. Quando retornamos, recebemos a visita da Marcela, minha cunhada, da Bolívia por primeira vez no Brasil. Depois, trouxemos uma nova moradora para casa, a Lupita; iniciou o ano letivo de 2020, Lorenzo, com nove anos de idade, no 6o. Ano do Colégio Militar, conquistou o primeiro lugar no processo seletivo.

Benjamin, com 5 anos, lendo e escrevendo, tivemos que nos conformar com o resultado do processo que abrimos via Conselho Municipal da Educação de Londrina, solicitando que a matrícula dele fosse no 1o. Ano do Ensino Fundamental. Pedido indeferido e, portanto, matriculado no P5, na Educação Infantil. Agora, com as aulas remotas, está lendo essa letra de imprensa, minúscula.

Um mês e meio depois, chegou a pandemia do novo coronavírus no Brasil e, desde então, 15/03/2020, estamos em isolamento social e mais de 80 mil pessoas morreram, vítimas do covid-19.

Ainda há caixas fechadas da mudança, meus papéis, meus tesouros do passado, agendas, desenhos. Projeto novos não se concretizaram: abrir e movimentar o Instituto Sawubona, oferecer cursos Básico e Avançado de Língua Brasileira de Sinais, Técnicas de Interpretação Português/Libras, outros cursos de formação na área da Superdotação; foi suspenso o lançamento do livro “Cartas do Menino do Quarto para o mundo”, programado para ser no Correio Central de Londrina. Enfim, está tudo fora do lugar!

Escrever, como faço agora, primeiro com papel e caneta, é um exercício terapêutico para mim, contribui para me trazer ao eixo - se é que existe esse eixo. De qualquer modo, escrever me dá a ilusão de colocar alguns dos mil pensamentos por minuto, no lugar ou em algum lugar.

Fui incentivado a vir ao papel e escrever após ler uma reportagem - que não é a reportagem do título ainda - no Facebook, sobre o filósofo Alan Watts, com o título: “O filósofo Alan Watts: por que a educação moderna é uma farsa” (link abaixo nas referências), basicamente, o que mais me chamou atenção no texto foi a questão do tempo (estamos nos aproximando do tema central que me impeliu escrever hoje), estamos sempre, os adultos dizendo às crianças para se prepararem para o futuro, e como fomos todos crianças, foram isso que disseram para nós, que nos fez interiorizar esse aspecto do tempo: o agora não é para ser vivido, serve como preparação para o futuro e quando chegamos num certo “lá”, o sentimento continua sendo de “falta”.

Toda essa introdução para dizer a que vim: escrever sobre o meu contato com uma pequena reportagem anos atrás que versa sobre o tempo, e desde então, essa “nova” percepção do tempo, nova para mim, óbvio - habita em mim, mas é uma moradora passiva, está ali, não entrou em conflito com o habitante mais velho: a noção mais ocidental do tempo, o tempo para o homem branco e europeu, que replica como “normal” para nós do continente americano também, a noção capitalista do tempo: “Time is money”. Foi incrível, até espetacular, ser apresentado a esse modo de habitar o mundo.

Acredito que se você, leitora, leitor, chegou até aqui, é porque consegui atiçar sua curiosidade sobre o que realmente se trata esse texto. Quem foi meu aluno de Libras, especialmente da disciplina de Libras - graduação e especialização - posso ter falado sobre o tema.

O título da reportagem é: “O tempo segundo os aimarás”, da Revista Viver Mente Cérebro, edição de outubro de 2006, p. 18 - a qual eu disponibilizarei aqui digitalizada, mas, basicamente é o seguinte: “para povo tradicional dos Andes, o futuro está atrás e o passado à frente”, aspecto demonstrado em alguns vocábulos da língua Aymara, bem como nos gestos associados à fala, ou seja, ao se referir ao futuro, mãos e braços se movem para trás e sobre o passado, as mãos e braços gesticulam para a frente.


Obviamente que, depois desta pequena reportagem fui buscar mais dados e informações. Foi igualmente impressionante os artigos que encontrei - lá se vão 13 anos. A relação que passei a fazer desse dado com um tópico da gramática da Língua Brasileira de Sinais, diz respeito ao modo como os surdos “conjugam verbos” na Libras, entre aspas mesmo, pois não há conjugação do verbo em Libras, não há como no Português e na maioria das línguas de origem no Latim: há um radical, uma raiz do verbo e as desinências que indicam pessoa (singular e plural) e o tempo (passado, presente, futuro), sinteticamente.

Claro que esta explanação simples se refere somente aos verbos regulares - e não aos misteriosos verbos irregulares. Exemplo: COMER, cuja raiz/radical “COM”, a desinência do infinitivo “-ER”. “COM-O, COM-ES, COM-E, COM-EMOS, COM-EIS, COM-EM”, as desinências do verbo conjugado no presente do indicativo, nas três pessoas do singular e nas três pessoas do plural.

No tema “Tempo e Espaço na Língua Brasileira de Sinais” que ensino na disciplina há mais de uma década, relaciono o tempo (passado, presente, futuro) com o espaço existente entre o corpo que sinaliza e a direção e o tamanho que o sinal realiza para indicar: PASSADO, ANTEONTEM, ONTEM, HOJE, AGORA, AMANHÃ, DEPOIS DE AMANHÃ, FUTURO. Assim, o verbo estará associado a esses e outros sinais de tempo, que dirá se é passado, presente (geralmente sem marcação com outro sinal) e futuro. Exemplo: “ONTEM EU COMER UMA MAÇÔ, “AMANHà EU COMER DUAS MAÇÃS” (sinais são escritos em caixa alta). Em Português: “Ontem, comi uma maçã”, Amanhã, eu comerei duas maçãs”. O verbo “COMER” em Libras foi sinalizado do mesmo modo. A ideia de passado e futuro está posta nos sinais de “ONTEM” e “AMANHÔ.


Introduzo aqui uma receita simples de pão de ló. Guardem a receita para o final: Ingredientes: 4 ovos, 2 copos (americano) de farinha de trigo, 2 copos (americano) de açúcar, 1 copo (americano) de leite quente, 1 colher (sopa) de fermento. Modo de Preparo: Bata as claras em neve e acrescente o açúcar. Depois, acrescente as gemas e misture tudo muito bem. Coloque a farinha de trigo e, em seguida, o fermento. Por último, acrescente o leite quente. Coloque em uma forma untada e enfarinhada, depois leve para assar ao forno 180 °C por 30 a 40 minutos, aproximadamente (link da receita nas referências).

A “lógica” presente no esquema acima - que utilizo na aula, está dentro da “lógica” de 90% das línguas e culturas no mundo, também nos gestos: para frente futuro, para trás passado. Repare quando conversa com alguém, especialmente, os mais idosos. Destarte, é muito precioso os outros 10%, em que a lógica é reversa. Ao ler mais sobre esse modo de habitar o mundo, lembro-me de ser invadido por um sentimento de paz.

Havia exemplos da seguinte natureza, que narro com minhas palavras e interpretação: uma mulher aymara precisa viajar até o próximo povoado, 100 Km distante de onde mora, ela acordará bem cedo, colocará seu aguayo e irá para a estrada aguardar algum transporte, sentará e aguardará pacientemente, contemplando o passado - que está à sua frente. Chegará o transporte, percorrerá todo trajeto, fará as compras de mantimentos de que necessita, voltará para casa, na mesma velocidade em que foi e seguirá sua vida, fazendo o que precisa para aquele momento, sem a pressão do “tempo é dinheiro”, “quanto mais rápido melhor”; a lógica dos Aymaras está diametralmente distante da lógica da maioria da dita “civilização branca”, longe de ser a correta e verdadeira.

Guardo comigo - a essência dele aqui dentro - e anotado em algum lugar “ipsis litteris”, onde provavelmente recorri para copiar e colar aqui, um trecho de uma crônica de Cecília Meireles (sempre ela!) em que a cronista descreve a questão do progresso humano, especialmente, nas sociedades ditas “modernas”:

“O homem tendo que atender a tantas coisas que inventou, secretamente pergunta a si mesmo se valeria a pena tê-las inventado, para assim limitar sua liberdade, para assim ter de ficar como um operário vigilante junto a engrenagens que, ao menor descuido, o sacrificarão – sentindo, no entanto, que a vida verdadeira não é aquela posição atenta do dever, exaustivo, monótono, mesquinho, mas uma participação nesse sentimento total do universo, nessa gravitação geral em que os acontecimento libertam seus ritmos na plenitude de seu poder de realização”. (MEIRELES, 2001).

Um dos trechos que me chamou a atenção, agora voltando a Alan Watts, na reportagem lida hoje: “Se a felicidade sempre depende de algo esperado no futuro, estamos perseguindo um fogo-fátuo que jamais alcançaremos, até o futuro, e nós mesmos desapareceremos no abismo da morte”.

Tudo está fora do lugar e continua assim. Devo aprender que esse movimento de desintegração (positiva, espero) pelo qual passo de modo mais acelerado nos últimos três anos, é, primeiro: real, segundo: necessário - no meu caso, irreversível, terceiro: estabilizará (também espero). Todavia, preciso vivê-lo, não apenas iludir-me com as máximas: “Vai passar! Vai melhorar”, pois, é hoje que estou assim, não devo ignorar o hoje, pensando no “vir a ser”.

Espero, e como espero, poder reverter a lógica de tempo que em mim foi incutida desde que nasci. Chega de “tempo é dinheiro”, chega de me preparar para o que virá, enquanto o hoje é tudo o que tenho. Posso contemplar o passado também, não somente o meu, mas da humanidade, aprender e refletir sobre pessoas, fatos e eventos para não repetir erros.

Se você, leitora e leitor fiéis, chegaram até aqui, retorno à receita do pão de ló, no meio do texto. É uma pegadinha. Uma amiga querida confessou que na faculdade, cansada das exigências dos professores e longos trabalhos, incluiu uma receita de pão de ló no meio do texto. O professor entregou o trabalho com a nota e não fez nenhuma referência à receita: “Não leu!”, concluiu minha amiga. “Deu nota pela quantidade de páginas que escrevi”.

Chegou até aqui? Muitíssimo obrigado. Espero que todas essas informações possam colaborar para algo, especialmente, se possibilitar a você também pensar numa nova perspectiva do tempo. Não fiz uma apologia de apreciação zen do passado, ter uma vida contemplativa, sem planos para o futuro. O segredo deve ser a busca do equilíbrio. Não preciso estar em constante movimento, correndo, agitado, fazendo e acontecendo; o isolamento social tem ensinado isso, forçosamente para muitos!

Eu escreveria muito mais, porém, termino aqui.

Sayonará!

Referências:


“Equilíbrio”, crônica de Cecília Meireles

Receita Bolo Pão de Ló

sexta-feira, julho 03, 2020

INOCÊNCIA PERDIDA



Desde pequeno fui criatura quieta. Observador. Crédulo. Acreditava nas pessoas e no que as pessoas contavam. Acreditava num mundo melhor. Acreditava – que loucura – que eu mesmo poderia ajudar a melhorar o mundo!

Nessa época era uma crença pueril, mística, literária. Segui crédulo e inocente por muitos anos, mesmo depois dos 18 anos. Minha amiga e o namorado foram morar juntos, família e ela estavam em atrito todo o tempo.

Na minha cabeça “morar com o namorado” era somente morar com o namorado. Por isso, o “menino” crédulo e inocente, assustou com a notícia de que a amiga estava grávida. “Ah, então, eles fazem sexo...”

Claro que eu sabia que as pessoas fazem sexo, mas, minha amiga tinha ido morar com o namorado por outro motivo. Eu deveria ter vergonha de confessar isso? Não, não tenho. Revela a minha completa inocência ridícula...

Cresci. Amadureci. Demorou? Tudo no tempo que tinha que ser. Igreja. Universidade. Vida de adulto. Onde foi parar aquele menino crédulo e inocente? Está calejado!

E a crença num mundo melhor? Não creio mais nessa balela. Busco aprender como lidar com a realidade de que o mundo é este e ponto! Não posso mudar o mundo, nem ajudar a muda-lo. O máximo que posso fazer é mudar a mim mesmo.

Mudar para ser melhor para as pessoas que amo, pois não posso agradar a todos.

Passados esses 39 anos de existência, ao contemplar pessoas sem ambição nenhuma – não falo de ambição por dinheiro, riqueza, fama. Aquela em que a pessoa se conformou em ser o que é, o que sempre foi, estar onde está e aceitar: “Meu avô foi pedreiro, meu pai foi pedreiro, eu sou pedreiro. Sou porteiro há 20 anos e vou me aposentar como porteiro”.

Não é desvalorização ou menosprezo pelas profissões de pedreiro e de porteiro. Estou falando do fato das pessoas que se conformaram em exercer este ou aquele papel por toda vida.

Também não estou criticando a atitude da pessoa escolher essa “estabilidade” para sua vida. Eu, particularmente, não posso me conformar com essa estabilidade! Uma vida inteira do mesmo, outra vez, novamente e de novo...

Uma professora que trabalhou comigo disse quando voltávamos da festa da formatura da turma de Pedagogia em que fomos homenageados: “Tenho saudades da pessoa que eu era”. Ela quis dizer que tinha saudade do tempo em que acreditava mais em si, nas pessoas, em uma possível missão no mundo.

“Como eu te entendo!”, porém, minha saudade não é aquela “ah, como eu queria sentir aquilo de novo”, não, não quero. Hoje, é apenas uma constatação: “não sou mais aquele crédulo e inocente”.

A inquietação é que não descobri o que fazer com tudo isso ainda. A casca antiga está apertada, comprimindo, sufocando. Crescer e amadurecer, de verdade, é uma jornada constante e dolorida. Para os que estão paralisados na consciente ou inconsciente “tranquila estabilidade” a casca sempre servirá.

André Coneglian
03 julho 2020

sexta-feira, junho 26, 2020

O Diário de Anne Frank - minha segunda leitura



Londrina-PR, 26 de junho de 2020, é uma sexta-feira nublada e fria, terceiro mês de confinamento, isolamento social devido a pandemia do novo coronavírus. Há poucos minutos encerrei a leitura de "O Diário de Anne Frank" pela segunda vez. A primeira leitura fiz aos 16 anos, recomendado por uma colega da Legião Mirim em Marília-SP. Não consigo me lembrar o nome dessa colega, afinal, nossa interação foi por volta de três meses.

Claro que a primeira leitura me impressionou a ponto de passar a nomear meu diário - meu Querido Pirrô, assim como Anne nomeava seu diário, a querida Kitty. A segunda leitura, meu Deus, meu Deus, dói mil vezes mais. Aos 39 anos de idade, casado, com dois filhos, acumuladas tantas outras vivências, dói muito, profundamente, por tudo que vivemos na atualidade, além da pandemia, a situação política, econômica, social e educacional no Brasil agravadas pela pandemia! A humanidade é doente...

Chego a acreditar que Anne Frank foi uma garota superdotada, com muitos indicadores para chegar a essa conclusão. A Segunda Guerra Mundial para mim sempre foi um tema assombroso demais, inacreditável, aterrador, imaginar que a humanidade chegou nesse nível. Ler o diário de Anne faz com que o horror ao nazismo, Hitler, fascismo, Mussolini e tudo dentro deste pacote seja multiplicado por 1000. Grifei nesse livro que ganhei da minha esposa em 12 de junho de 2020, alguns trechos que me saltam aos olhos, seja por concordar com Anne, seja pela prova de que esta garota era muito à frente de seu tempo.

A data em que ganhei o livro era o 91o. ano de nascimento de Anne, mas ela viveu somente 15. Na página 279 deste exemplar, edição de bolso, Anne escreveu: "quero continuar vivendo depois da morte! E é por isso que agradeço tanto a Deus por ter me dado esse dom, que posso usar para me desenvolver e para expressar tudo o que existe dentro de mim!". Anne realizou seu desejo: continua viva depois de sua morte.

Algo que passou o tempo todo em minha mente nessa segunda leitura é: quem eu seria naquele contexto de guerra? As duas famílias escondidas foram ajudadas por cristãos. Eu seria esse tipo de cristão? Ou seria como a maioria, tipo "umbiguista", não é conosco, cristãos, não é comigo! Aliás, "Deus", o "Deus cristão" que sempre esteve no discurso dos nazistas/fascistas, assim como está nos discursos dos políticos, não só dos políticos atuais, mas ao longo da História, que defendem os valores e a moral da família de bem. Quem seria eu naquele contexto?

Eu teria muito para escrever, mas são tempos malucos: "Kitty, Anne é maluca, mas estes são tempos malucos e as circunstâncias são ainda piores. A melhor coisa é poder escrever todos os meus pensamentos e sentimentos, do contrário, iria me sufocar" (p. 247). Sei como é esse sentimento, Anne: não escrever é acumular a ponto de explodir. Como eu disse acima, teria muito mais para escrever, se eu escrever tudo que penso, ai, ai, ai, ai, serei expulso de muitos círculos de amizades.

Não me importo! Só não escrevo, não por medo da expulsão, mas para manter a falsa ilusão de que algumas poucas coisas continuam no lugar, entretanto, estou muito consciente - todos os dias, horas, e minutos -  de que tudo está desarranjado há muito tempo, tudo perdeu o sentido!

Não sejam superficiais e rasos no julgamento, não me refiro a política e a pandemia somente; antes da pandemia, antes desse governo desastroso, o sentido de tudo já desmoronava. Posso dizer que é admirável o modo como as pessoas se agarram à filosofias de vida, à religião, algumas não apenas seguem agarradas a elas, mas as defende com unhas e dentes, e armas e outros formas de controle.

Por hora, não estou defendendo nada. Sigo nesse mar infinito de “nonsense”...

Fim.

sábado, maio 02, 2020

Diário de Bernardo Soares - Fragmento 303




O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal da prática da vida é aquela qualidade que conduz à ação, isto é, a vontade. Ora há duas coisas que estorvam a ação – a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda ação é, pela sua natureza, a projeção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é um grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projeção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.
Para agir é, pois, preciso que nos não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza para. O homem de ação considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte – ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à pedra ou se afastou ou se passou por cima.
O exemplo máximo do homem prático, porque reúne a extrema concentração da ação com a sua extrema importância, é a do estratégico. Toda a vida é guerra, e a batalha é, pois, a síntese da vida. Ora o estratégico é um homem que joga com vidas como o jogador de xadrez com peças do jogo. Que seria do estratégico se pensasse que cada lance do seu jogo põe noite em mil lares e mágoa em três mil corações? Que seria do mundo se fôssemos humanos? Se o homem sentisse deveras, não haveria civilização. A arte serve de fuga para a sensibilidade que a ação teve que esquecer. A arte é a Gata Borralheira, que ficou em casa porque teve que ser.
Todo o homem de ação é essencialmente animado e otimista porque quem não sente é feliz. Conhece-se um homem de ação por nunca estar mal disposto. Quem trabalha embora mal disposto é um subsidiário da ação; pode ser na vida, na grande generalidade da vida, um guarda-livros, como eu sou na particularidade dela. O que não pode ser é um regente de coisas ou de homens. À regência pertence a insensibilidade. Governa quem é alegre porque para ser triste é preciso sentir.
O patrão Vasques fez hoje um negócio em que arruinou um individuo doente e a família. Enquanto fez o negócio esqueceu por completo que esse individuo existia, exceto como parte contrária comercial. Feito o negócio, veio-lhe a sensibilidade. Só depois, é claro, pois, se viesse antes, o negócio nunca se faria. “Tenho pena do tipo”, disse-me ele. “Vai ficar na miséria.” Depois, acendendo o charuto, acrescentou: “Em todo o caso, se ele precisar qualquer coisa de mim” – entendendo-se qualquer esmola – “eu não esqueço que lhe devo um bom negócio e umas dezenas de contos."
O patrão Vasques não é um bandido: é um homem de ação. O que perdeu o lance neste jogo pode, de facto, pois o patrão Vasques é um homem generoso, contar com a esmola dele no futuro.
Como o patrão Vasques são todos os homens de ação – chefes industriais e comerciais, políticos, homens de guerra, idealistas religiosos e sociais, grandes poetas e grandes artistas, mulheres formosas, crianças que fazem o que querem. Manda quem não sente. Vence quem pensa só o que precisa para vencer. O resto, que é a vaga humanidade geral, amorfa, sensível imaginativa e frágil, e não mais que o pano de fundo contra o qual se destacam estas figuras da cena até que a peça de fantoches acabe, o fundo-chato de quadrados sobre o qual se erguem as peças de xadrez até que as guarde o Grande Jogador que, iludindo a reportagem com uma dupla personalidade, joga, entretendo-se sempre contra si mesmo.

Fonte:

SOARES, Bernardo (pseudo-heterônimo de Fernando Pessoa). Livro do desassossego. Jandira: Ciranda Cultural, 2019. p. 257-259.

quinta-feira, abril 16, 2020

Príncipe Maior e Príncipe Menor

A história que vou contar agora é sobre príncipes, peixes e cachorros. Todos os príncipes e princesas merecem ter animaizinhos de estimação. Era uma vez dois príncipes. Ambos moravam na China com seus pais. Não, seus pais não eram rei e rainha da China. Não pode dois príncipes morarem na China e terem pais comuns? Na China, os príncipes eram príncipes sem bichinhos de estimação. Tinham, sim, Príncipe Maior e Príncipe Menor, muitos bichinhos, bichinhos de pelúcia: dez! Dez mil! Cinco mil para cada um.
Papai e mamãe decidiram mudar da China. O novo lar era em outro reino, o reino de um Barão. Barão de Mesquita, mas o barão já não vivia mais ali. Aliás, Barão já tem uma lápide - uma pedra no cemitério -, na qual consta o ano de nascimento - 1826 e o ano de falecimento - 1886. O importante a destacar é que no novo lar os dois príncipes puderam finalmente ter dois bichinhos de estimação.
Príncipe Maior escolheu para si um peixinho e Príncipe Menor, um cachorrinho. Peixinho continuou peixinho. Cachorrinho cresceu, cresceu tanto que transformou-se no "Cão dos Baskerville" [Sherlock Holmes, Conan Doyle], ops, que exagero! Sim, eu sei, sou exagerado mesmo, mas o cãozinho virou um cãozão.

[Li aos 12, morrendo de medo]

 Peixinho

 Príncipe Maior e Peixinho

Príncipe Menor e Cãozinho/Cãozão

Vocês, crianças que estão lendo/ouvindo essa história sabem sobre as questões da vida e da morte? Pois é, peixinho morreu depois de 1 ano e 10 meses de convivência diária. Desde então, peixinho mora nas nuvens, nuvens não são feitas de algodão, mas de infinitas gotas de água, Peixinho deve amar nadar em infinitas gotas d’água. O aquário dele no reino de Barão de Mesquita era retangular 10x20x15 cm.
Cãozão ainda vive, porém - o que seria das histórias sem os “poréns” - porém, seus pais precisaram mudar novamente. Circunstâncias da vida. Príncipe Maior e Príncipe Menor gostaram do novo lar. Será um lar diferente da China e do Reino do Barão.
O novo lar é na verdade, o lar e o novo “ganha-pão” da família. Você, criança, sabe o que significa “ganha-pão”? Deixa eu explicar: “ganha-pão” é o trabalho que garante o dinheiro, dinheiro para comprar o pão, pagar boletos, questões de adulto e também para comprar doces e brinquedos, estas sim questões prediletas dos príncipes e de todas as crianças.
Ah, o novo lar/trabalho é uma Fábrica, uma Fábrica de Ideias. Ali, as ideias nascem e tomam forma. O problema é que na fábrica não cabe o cãozão e ele teve que morar em outro local, junto com outros cães. Cãozão irá estranhar no início, mas será melhor para ele, terá muito mais espaço - sabe como são os grandes, gentes e cães, estabanados, não é mesmo? Lá, Cãozão terá muito mais amigos de patas.
Cãozão, do Príncipe Menor, agora mora numa chácara com mais de cinco vezes dez outros cães.
Para chegar lá, é preciso ir de carro, de preferência, há 32 km de distância da Fábrica de Ideias, pela rodovia, na zona rural de uma cidade circunvizinha. Depois de um condomínio, avista-se uma igrejinha azul; vira-se a direita, na estradinha de terra, passa por uma pequena ponte de madeira sobre um riacho, tem bois e tem vacas. Uma pintura bucólica!
Assim segue a vida, crianças: despedidas, partidas, mortes, o que exige de todos nós, adultos e crianças, reis, rainhas, príncipes, princesas e todos os mortais, novos planos, novos lugares, novos amigos, novos horizontes.


Fim.

[escrita em janeiro de 2020]

p.s: Moramos na Rua China de 2013 a 2016
e na Rua Barão de Mesquita de 2016 a 2019
O endereço da Fábrica de Ideias?
Conto em outro conto

segunda-feira, abril 13, 2020

A POLÍTICA E AQUELE QUE TEME AO SENHOR DEUS



Utilizarei três pessoas da Bíblia, José do Egito, Ester e Daniel, que tiveram em seus contextos de vida, posições importantes em cargos políticos e da nobreza, exercendo grande influência nos países em que foram contemporâneos.

José e Benjamin foram os dois últimos filhos de Israel com Raquel, sua esposa amada. Portanto, ambos eram seus filhos preferidos. José teve sonhos e declarava-os abertamente aos seus irmãos mais velhos, que o odiavam pela preferência do pai por ele.

Em resumo, tudo o que aconteceu na vida de José, foi para leva-lo até o Egito, interpretar os sonhos do Faraó e ser colocado como o segundo homem do Egito, em posição política tão eminente e importante num reino pagão, para administrar os sete anos de fartura e os sete anos de escassez de alimento.

O desfecho desse ciclo, como sabemos, José reencontra os irmãos que viajaram até o Egito para buscar alimento para a família que ficou em Canaã, há perdão, mudam-se para o Egito, prosperam, multiplicam-se em terra estrangeira.

Ester, cujo nome hebraico era Hassada, era órfã de pai e mãe, criada pelo primo Mardoqueu. Quando Vasti foi destituída como rainha, Mardoqueu “inscreveu” Hadassa no processo seletivo para o posto de rainha do Rei Assuero. No livro de Ester, capítulo 2, versículo 9, lemos que:

“E a moça pareceu formosa aos seus olhos, e alcançou graça perante ele; por isso se apressou a dar-lhe os seus enfeites, e os seus quinhões, como também em lhe dar sete moças de respeito da casa do rei; e a fez passar com as suas moças ao melhor lugar da casa das mulheres”.

“Pareceu formosa aos olhos” de um funcionário do rei, ou seja, a primeira etapa do processo seletivo para o posto de rainha. A conclusão é que, depois de um ano de espera, Ester também achou graça aos olhos do Rei Assuero e assumiu o posto de Rainha:

“E o rei amou a Ester mais do que a todas as mulheres, e alcançou perante ele graça e benevolência mais do que todas as virgens; e pôs a coroa real na sua cabeça, e a fez rainha em lugar de Vasti” (Ester 2:17).

Quem conhece a história da rainha Ester, sabe o papel estratégico que ela teve para preservar a vida do pai adotivo, Mardoqueu, e de todos judeus de sua época: “quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino?” (Ester 4: 14b), lembrou Mardoqueu a Ester, que estava com medo de quebrar o protocolo, ao entrar na presença do Rei Assuero sem ser chamada.

Daniel viveu na Babilônia desde a sua juventude, levado como escravo judeu. Esteve diante de três reis pagãos: Nabucodonosor, Belsazar e Dario. Para o primeiro, Daniel interpretou os sonhos; para o segundo, teve o episódio da mão que escreveu uma mensagem na parede e Daniel a interpretou também e, na sequência, Belsazar mandou que “vestissem Daniel de púrpura, e lhe pusessem cadeia de ouro ao pescoço, e proclamassem que passaria a ser o terceiro no governo do seu reino” (Daniel 5:29).

Naquela mesma noite, Belsazar foi morto, ou seja, cumpriu-se a mensagem revelada na parede: “dividido foi o teu reino e dado aos medos e aos persas” (Daniel 5: 28). Dario, ao assumir o reino conquistado, constitui 120 sátrapas “e sobre eles, três presidentes, dos quais Daniel era um”.

O desenrolar dessa história sabemos que levou Daniel à cova dos leões. Por ser temente ao Deus Vivo? Não! Vejamos: “Então, o mesmo Daniel se distinguiu destes presidentes e sátrapas, porque nele havia um espírito excelente; e o rei pensava em estabelecê-lo sobre todo o reino. Então, os presidentes e sátrapas procuravam ocasião para acusar a Daniel a respeito do reino; mas, não puderam acha-la, nem culpa alguma; porque ele era fiel, e não se achava nele nenhum erro nem culpa” (Daniel 6:3,4).

José, governador do Egito, antes dele era somente o Faraó, exerceu seu cargo de modo excelente, num reino pagão. assim como o fez quando era escravo na casa de Potifar ou na prisão, mesmo acusado injustamente. Cultivou sua devoção ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó em foro íntimo. José foi temente ao Senhor o tempo todo, o que quero dizer é: não IMPÔS o seu modo de vida utilizando-se de sua posição política.

Ester, judia, rainha de um rei pagão, levada pelas circunstâncias – pelo próprio Deus – àquele posto para salvar a vida do primo e evitar um grande massacre dos judeus de sua época. Como rainha, servia ao Senhor Deus em foro íntimo, por isso foi encontrando graça aos olhos alheios e “conquistando” o lugar que devia estar.

Temente ao Deus Vivo, Daniel era fiel, um espírito excelente, executava sua responsabilidade política perante Dario, num reino idólatra, de modo impecável, diante dos homens, por isso o rei o colocaria sobre todo o reino, depois do rei, seria Daniel. Principalmente, Daniel manteve-se fiel ao Deus Vivo, mesmo num cargo politico tão importante num reino pagão.

Esses três exemplos de homens e mulher, tementes ao Deus Vivo numa posição política importante bastam para eu dizer o seguinte: foram políticos destacados em reinos pagãos e não leio relato algum nas páginas da Bíblia que decretaram alguma lei ou qualquer ordem, impondo seus costumes e fé. Exerciam seus papéis e viviam sua fé ao Deus Todo Poderoso, de modo pessoal e, óbvio, essa fé conduzia suas ações enquanto políticos, porém, nunca para impor sua fé àquelas nações.

Será preciso desenhar? Precisamos de políticos éticos. Não de um salvador dos bons costumes que brigará com “unhas e dentes” – e armas, para proteger a “família tradicional brasileira”. Os judeus religiosos da época de Jesus não entenderam que o Salvador não era um salvador político; eles esperavam o Rei que os livraria da opressão romana e Jesus não foi esse rei para eles; os judeus o levaram à condenação perante os romanos.

A história também nos ensina quando a fé é institucionalizada, seus efeitos são contrários ao princípio da própria fé.

“[...] Mesmo gerando antipatias – e até perseguições, como no reinado de Nero entre os anos 54 e 68 – eles [os cristãos] foram tolerados nos primeiros séculos de vida de sua religião. Com a decadência do império no final do século II e a ameaça de invasões bárbaras, iniciou-se outro período de dura perseguição aos cristãos, que se recusavam a servir no exército romano. Mas nem isso impedia o cristianismo de ganhar seguidores, tornando-se logo a crença mais popular no império. Percebendo a força crescente da religião, o imperador Constantino I resolveu usá-la politicamente para fortalecer seu próprio poder e enfrentar a decadência romana. Sob a inspiração do lema ‘um Deus no Céu, um Imperador na Terra’, Constantino proclamou em 313 o Édito de Milão, lei que garantia liberdade para cultuar qualquer deus, o que seria fundamental para a futura conversão total do império à religião”. (Fonte: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/como-foi-a-conversao-do-imperio-romano-ao-cristianismo/)

Nosso posicionamento “cristão” na política está longe do exemplo de José do Egito, Ester e Daniel. O mundo jaz no maligno (I João 5:19), mundo é mundo, igreja é igreja, estamos no mundo, não somos do mundo (João 17:14-16). O mundo que jaz no maligno não se transformará em paraíso. Sua fé precisa ser vivida no dia a dia, iniciando no mais profundo âmago do ser para ser exteriorizada em ações que serão vistas, conhecidas e reconhecidas e, de repente, numa posição política importante, continuar sendo um cristão de dentro para fora, nunca impondo a fé, que é pessoal.

É o Espírito Santo que convence do pecado e do juízo!



Escrito originalmente em 26 de setembro de 2018, com excertos e reconfiguração em 13 de abril de 2020.

segunda-feira, março 30, 2020

Whatsapp de 2004


Nesses dias de isolamento social, vasculhando caixas que guardam recordações, dentro de um diário, na última página, um bolso feito com as duas últimas folhas, encontro alguns papéis.
O que se destacou entre eles foi uma folha que continha, além da minha letra, outra caligrafia diferente, a de uma grande amiga, Aldine. Cursamos, na mesma turma o curso de Pedagogia, na Unesp de Marília-SP, de 2001 a 2004.
Concluímos a graduação em julho de 2005. Nós dois na Pedagogia, ambos escolhemos a Educação Especial, ela a habilitação em Deficiência Física e eu, a Deficiência Auditiva. Algumas disciplinas das habilitações em Educação Especial eram comuns a todas as especialidades: auditiva, física, intelectual e visual.
Guardei essa folha sem pretensão, que hoje, quase 16 anos depois, para mim é uma preciosidade: é como se nos dias de hoje, dois amigos trocassem mensagens via whatsapp durante uma aula.







Fotografei a folha e enviei para Aldine, que vive em Osasco-SP, via whatsapp. Perguntei como estavam, de que modo estavam enfrentando o isolamento social, perguntei do Lucas, o filho e da mãe. Então, Aldine lembrou outro fato: lembra que ele rebaixou nossas notas quando vocês brigaram?
Ao que respondi: como esquecer! Minha primeira e única média seis da vida inteira.
Devo ter relatado em algum diário o fato, quando encontrar posso reproduzir aqui, mas basicamente foi: o professor estava atribuindo falta aos alunos que não participavam da aula. Ticiane e eu, que não tínhamos recebido a falta, fomos falar em nome dos alunos que foram lesados.
Argumentamos que o professor tinha todo direito de descontar pontos, diminuir a nota dos alunos que não estavam participando, entretanto, atribuir falta a alunos presentes era algo muito grave. Foi o suficiente para ambos sermos atacados e o professor começou um ataque verbal a toda turma.
Tentamos ainda recorrer à sessão de graduação, a que nos recomendou procurar a coordenação pedagógica do curso... Não me recordo se chegamos a protocolar algo. A consequência desse triste episódio – o autoritarismo docente – foram médias não condizentes com o desempenho real dos alunos na disciplina. Retaliação da pior espécie.
Éramos todos professores em formação e ele nos deu o pior exemplo do que não se deve fazer com alunos. Primeiro e único professor que discuti na vida. Apesar de traumático todo esse episódio, também foi pedagógico: não seja como ele, nunca. Primeiro: prepare melhor suas aulas. Segundo: esteja aberto às demandas dos alunos, inclusive abra canais de discussão sobre a sua didática. Nunca, nunca mesmo, transforme questões de sala de aula em perseguição pessoal, muito menos, não faça do seu “poder” de atribuir notas e presenças, elemento de chantagem: se não fizerem desse modo, vocês sofrerão consequências, hahahahahah!
Minha amiga Aldine deu a ideia: “escreve uma crônica sobre seu único 6,0 da vida”. Para ajudar, tinha compartilhado outro papel, com uma oração escrita, datada em 13 de abril de 2004, ou seja, pouco menos de um mês antes da outra folha com trocas de mensagens.



“Essa oração foi na aula dele também, só pode”, disse ela, ao que eu confirmei, sim, era. “Medidas em Educação Especial”, o título da disciplina. E como vocês podem verificar pelo histórico, não foi 6,0 e sim 6,5, tão bonzinho esse professor.


Comprometedor tantos dados assim, mas, aviso aos leitores: não fiquem especulando quem era o professor, não vale a pena quem era, vale o aprendizado com tudo isso. Claro que depois de formado, ainda participando de cursos e eventos na Unesp, reencontrei esse professor. Reinava o formalismo, a polidez, a educação. Ele está aposentado há muitos anos.
A conclusão: viva as recordações, viva a amizade, viva a oportunidade de crescer e amadurecer, sempre! Obrigado Aldine pela sugestão. Feito. Espero que goste do resultado desta “crônica”!

sábado, março 28, 2020

Uma cena


(foto ilustrativa)

No meio do caminho há um trilho. Há um trilho no meio do caminho. Há uma rua íngreme no final deste trilho. No final deste trilho há uma rua íngreme. Este trilho e esta rua fazem parte do trajeto que faço de segunda a sexta-feira para ir trabalhar, pela manhã.
Há um alto muro por toda a extensão deste trilho, cercado por bambuzais e eucaliptos gigantes e, do outro lado, há uma grande depressão, cheia de árvores que cercam um campo de futebol.
Nesse horário da manhã, são poucos os transeuntes, mas com certeza o horário que as pessoas mais o utilizam. Às vezes passo por ele todo sozinho; só eu “desço”, os outros sempre “sobem” o trilho.
Esse trilho inspira-me a falar com o Senhor Jesus, a orar, a louvar, a pensar em coisas grandes como a vida que logo passará e o que de eterno permanecerá. Dias desses passados na semana anterior, ao final desse trilho, uma cena muito me tocou: um cavalo, uma carroça, três cachorros e dois homens.

(foto ilustrativa)

O personagem principal foi o cavalo. Por ser a rua íngreme, patente foi para mim, observar o esforço do cavalo para se equilibrar, agüentando o peso da carroça e da descida para não “desimbestar”. Os dois homens tentavam, através de cordas, contrabalancear o peso, segurando a carroça. Mas o trabalho todo era do cavalo. Até aí, toda esta descrição parece muito natural, não fosse a presença dos caninos e o papel que tiveram nessa cena.
Não sei que aversão é essa que os caninos sentem pelos eqüinos, uma antipatia que os impelem para cima do cavalo; ladra incansavelmente enquanto o animal trota e segue seu caminho. Não entendo, mas nessa cena especificamente, a insistência desses cachorros, aliás, dois deles ainda filhotes, provocou, como em efeito dominó, uma analogia simples, mas muito forte, em meu pensamento.
As pessoas têm muitas cargas pesadas e difíceis de carregar, andam por caminhos tortuosos, atribulados por vários aspectos da vida, obviamente aqueles que conhecem a Cristo e Sua Palavra, sabem e crêem que toda tribulação tem um propósito maior e mais excelente (Romanos 5: 3-4; II Coríntios 7:4), somos auxiliados por Anjos eleitos e fortes, sustentados pelo Amor e Soberania do nosso Rei, nosso Pai.
E existe, no mundo espiritual, invisível, assim como os Anjos do Senhor, os demônios, principados e potestades, dominadores deste mundo tenebroso, que vivem ao derredor para dificultar, atrapalhar, para roubar, destruir, para matar. São incansáveis, irritantes, barulhentos como três cachorrinhos no caminho de um cavalo, já em dificuldades. Realizando sua tarefa: carregar a carroça.
Nessa analogia, os homens seriam os anjos do Senhor (Salmo 37:4), no caso, ajudando o cavalo com as cordas.
Fui trabalhar mais feliz neste dia. Através de uma cena simples, não tão cotidiana, mas normal, falou profundamente ao meu coração, ministrado pelo Espírito, lembrando a fidelidade e fidedignidade da Palavra do Senhor Deus.

Escrita originalmente em 06/07/2004.

quarta-feira, março 25, 2020

Este cinzeiro não estava vazio?



          
          Deve ser muito engraçado ver uma pessoa em dúvida de ter feito algo ou não, e você saber que foi feito, mas se disser a verdade, acaba se entregando.
            Esta foi com uma amiga.
            Numa noite discutia, como sempre, com o namorado na casa dele.
- ... e pare de fumar; sabe que cigarro não faz bem para a saúde!
- Deixa-me fumar, sempre fumei, não vou parar agora.
Ela pedia para ele.
Numa outra ocasião, bem antes dessa discussão, ela manifestou o desejo de fumar (mais curiosidade que desejo).
- Se eu te pegar fumando, bato na sua boca! – ele.
- Olha quem fala. – ela.
- Estou avisando!
Eis que surge a discussão iniciada logo acima. Ele fumava.
- Você me deixa muito nervosa, você é um “cabeça-dura”!
- Eu vou para a faculdade; estou atrasado. Tchau!
- Não me deixe falando sozinha!
Ele apagou o cigarro no cinzeiro, jogou as cinzas no lixo, colocou o maço de cigarro em cima da geladeira, pegou o capacete e saiu.
- Como ele me deixa nervosa!
Ela batia os dedos na mesa; era uma forma de extravasar. Se falasse sozinha, os vizinhos iam a chamar de doida; gritar então, não pensariam duas vezes, chamariam os psiquiatras para colocá-la na camisa de força.
Foi então que ele atraiu sua atenção. Quase inconscientemente foi até a geladeira, pegou um cigarro, colocou na boca e acendeu. Deu o primeiro trago; engasgou com a fumaça. Continuou fumando ainda assim. O nervoso foi passando, parecia se esvair com a fumaça que soltava, já com certa categoria.
Fumou um cigarro inteirinho. O cinzeiro sobre a mesa estava repleto de cinzas novamente. Ela colocou uma bala na boca, esborrifou perfume pela cozinha, chupou outra bala, por garantia.
Ele chegou. Beijo na boca: nada!
Respiração ambiente: nada!
Ufa! Ele nem vai desconfiar.
- Ei, eu não joguei as cinzas no lixo?!
“Ih, o cinzeiro!”
- Eu não vi!
- Devo estar ficando louco!
- É o cigarro que está te deixando assim!!!

Escrito originalmente em 21/02/2001.