O Quarto do Menino

"No meu quarto que eu lia, escrevia, desenhava, pintava, imaginava mil projetos, criava outros mil objetos... Por isso, recebi o apelido de 'Menino do Quarto', título que adotei como pseudônimo e hoje, compartilho neste 'Quarto Virtual do Menino', o que normalmente ainda é gerado em meu próprio quarto". Bem, esse início já é passado; o 'menino' se casou (set/2008); há agora dois quartos, o do casal e o da bagunça... Assim, diretamente do quarto da bagunça, entrem e fiquem a vontade! Sobre a imagem de fundo: A primeira é uma reprodução do quadro "O Quarto" de Vicent Van Gogh; a segunda, é uma releitura que encontrei no site http://www.computerarts.com.br/index.php?cat_id=369. Esta longe de ser o MEU quarto da bagunça, mas em 2007, há um post em que cito o quadro de Van Gogh. Como disse, nada mais propício!!!... Passaram-se mais alguns anos, e o quarto da bagunça, já não é mais da bagunça... é o Quarto do Lorenzo, nosso primogênito, que nasceu em dezembro de 2010!

sábado, maio 02, 2020

Diário de Bernardo Soares - Fragmento 303




O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal da prática da vida é aquela qualidade que conduz à ação, isto é, a vontade. Ora há duas coisas que estorvam a ação – a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda ação é, pela sua natureza, a projeção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é um grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projeção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.
Para agir é, pois, preciso que nos não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza para. O homem de ação considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte – ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à pedra ou se afastou ou se passou por cima.
O exemplo máximo do homem prático, porque reúne a extrema concentração da ação com a sua extrema importância, é a do estratégico. Toda a vida é guerra, e a batalha é, pois, a síntese da vida. Ora o estratégico é um homem que joga com vidas como o jogador de xadrez com peças do jogo. Que seria do estratégico se pensasse que cada lance do seu jogo põe noite em mil lares e mágoa em três mil corações? Que seria do mundo se fôssemos humanos? Se o homem sentisse deveras, não haveria civilização. A arte serve de fuga para a sensibilidade que a ação teve que esquecer. A arte é a Gata Borralheira, que ficou em casa porque teve que ser.
Todo o homem de ação é essencialmente animado e otimista porque quem não sente é feliz. Conhece-se um homem de ação por nunca estar mal disposto. Quem trabalha embora mal disposto é um subsidiário da ação; pode ser na vida, na grande generalidade da vida, um guarda-livros, como eu sou na particularidade dela. O que não pode ser é um regente de coisas ou de homens. À regência pertence a insensibilidade. Governa quem é alegre porque para ser triste é preciso sentir.
O patrão Vasques fez hoje um negócio em que arruinou um individuo doente e a família. Enquanto fez o negócio esqueceu por completo que esse individuo existia, exceto como parte contrária comercial. Feito o negócio, veio-lhe a sensibilidade. Só depois, é claro, pois, se viesse antes, o negócio nunca se faria. “Tenho pena do tipo”, disse-me ele. “Vai ficar na miséria.” Depois, acendendo o charuto, acrescentou: “Em todo o caso, se ele precisar qualquer coisa de mim” – entendendo-se qualquer esmola – “eu não esqueço que lhe devo um bom negócio e umas dezenas de contos."
O patrão Vasques não é um bandido: é um homem de ação. O que perdeu o lance neste jogo pode, de facto, pois o patrão Vasques é um homem generoso, contar com a esmola dele no futuro.
Como o patrão Vasques são todos os homens de ação – chefes industriais e comerciais, políticos, homens de guerra, idealistas religiosos e sociais, grandes poetas e grandes artistas, mulheres formosas, crianças que fazem o que querem. Manda quem não sente. Vence quem pensa só o que precisa para vencer. O resto, que é a vaga humanidade geral, amorfa, sensível imaginativa e frágil, e não mais que o pano de fundo contra o qual se destacam estas figuras da cena até que a peça de fantoches acabe, o fundo-chato de quadrados sobre o qual se erguem as peças de xadrez até que as guarde o Grande Jogador que, iludindo a reportagem com uma dupla personalidade, joga, entretendo-se sempre contra si mesmo.

Fonte:

SOARES, Bernardo (pseudo-heterônimo de Fernando Pessoa). Livro do desassossego. Jandira: Ciranda Cultural, 2019. p. 257-259.

quinta-feira, abril 16, 2020

Príncipe Maior e Príncipe Menor

A história que vou contar agora é sobre príncipes, peixes e cachorros. Todos os príncipes e princesas merecem ter animaizinhos de estimação. Era uma vez dois príncipes. Ambos moravam na China com seus pais. Não, seus pais não eram rei e rainha da China. Não pode dois príncipes morarem na China e terem pais comuns? Na China, os príncipes eram príncipes sem bichinhos de estimação. Tinham, sim, Príncipe Maior e Príncipe Menor, muitos bichinhos, bichinhos de pelúcia: dez! Dez mil! Cinco mil para cada um.
Papai e mamãe decidiram mudar da China. O novo lar era em outro reino, o reino de um Barão. Barão de Mesquita, mas o barão já não vivia mais ali. Aliás, Barão já tem uma lápide - uma pedra no cemitério -, na qual consta o ano de nascimento - 1826 e o ano de falecimento - 1886. O importante a destacar é que no novo lar os dois príncipes puderam finalmente ter dois bichinhos de estimação.
Príncipe Maior escolheu para si um peixinho e Príncipe Menor, um cachorrinho. Peixinho continuou peixinho. Cachorrinho cresceu, cresceu tanto que transformou-se no "Cão dos Baskerville" [Sherlock Holmes, Conan Doyle], ops, que exagero! Sim, eu sei, sou exagerado mesmo, mas o cãozinho virou um cãozão.

[Li aos 12, morrendo de medo]

 Peixinho

 Príncipe Maior e Peixinho

Príncipe Menor e Cãozinho/Cãozão

Vocês, crianças que estão lendo/ouvindo essa história sabem sobre as questões da vida e da morte? Pois é, peixinho morreu depois de 1 ano e 10 meses de convivência diária. Desde então, peixinho mora nas nuvens, nuvens não são feitas de algodão, mas de infinitas gotas de água, Peixinho deve amar nadar em infinitas gotas d’água. O aquário dele no reino de Barão de Mesquita era retangular 10x20x15 cm.
Cãozão ainda vive, porém - o que seria das histórias sem os “poréns” - porém, seus pais precisaram mudar novamente. Circunstâncias da vida. Príncipe Maior e Príncipe Menor gostaram do novo lar. Será um lar diferente da China e do Reino do Barão.
O novo lar é na verdade, o lar e o novo “ganha-pão” da família. Você, criança, sabe o que significa “ganha-pão”? Deixa eu explicar: “ganha-pão” é o trabalho que garante o dinheiro, dinheiro para comprar o pão, pagar boletos, questões de adulto e também para comprar doces e brinquedos, estas sim questões prediletas dos príncipes e de todas as crianças.
Ah, o novo lar/trabalho é uma Fábrica, uma Fábrica de Ideias. Ali, as ideias nascem e tomam forma. O problema é que na fábrica não cabe o cãozão e ele teve que morar em outro local, junto com outros cães. Cãozão irá estranhar no início, mas será melhor para ele, terá muito mais espaço - sabe como são os grandes, gentes e cães, estabanados, não é mesmo? Lá, Cãozão terá muito mais amigos de patas.
Cãozão, do Príncipe Menor, agora mora numa chácara com mais de cinco vezes dez outros cães.
Para chegar lá, é preciso ir de carro, de preferência, há 32 km de distância da Fábrica de Ideias, pela rodovia, na zona rural de uma cidade circunvizinha. Depois de um condomínio, avista-se uma igrejinha azul; vira-se a direita, na estradinha de terra, passa por uma pequena ponte de madeira sobre um riacho, tem bois e tem vacas. Uma pintura bucólica!
Assim segue a vida, crianças: despedidas, partidas, mortes, o que exige de todos nós, adultos e crianças, reis, rainhas, príncipes, princesas e todos os mortais, novos planos, novos lugares, novos amigos, novos horizontes.


Fim.

[escrita em janeiro de 2020]

p.s: Moramos na Rua China de 2013 a 2016
e na Rua Barão de Mesquita de 2016 a 2019
O endereço da Fábrica de Ideias?
Conto em outro conto

segunda-feira, abril 13, 2020

A POLÍTICA E AQUELE QUE TEME AO SENHOR DEUS



Utilizarei três pessoas da Bíblia, José do Egito, Ester e Daniel, que tiveram em seus contextos de vida, posições importantes em cargos políticos e da nobreza, exercendo grande influência nos países em que foram contemporâneos.

José e Benjamin foram os dois últimos filhos de Israel com Raquel, sua esposa amada. Portanto, ambos eram seus filhos preferidos. José teve sonhos e declarava-os abertamente aos seus irmãos mais velhos, que o odiavam pela preferência do pai por ele.

Em resumo, tudo o que aconteceu na vida de José, foi para leva-lo até o Egito, interpretar os sonhos do Faraó e ser colocado como o segundo homem do Egito, em posição política tão eminente e importante num reino pagão, para administrar os sete anos de fartura e os sete anos de escassez de alimento.

O desfecho desse ciclo, como sabemos, José reencontra os irmãos que viajaram até o Egito para buscar alimento para a família que ficou em Canaã, há perdão, mudam-se para o Egito, prosperam, multiplicam-se em terra estrangeira.

Ester, cujo nome hebraico era Hassada, era órfã de pai e mãe, criada pelo primo Mardoqueu. Quando Vasti foi destituída como rainha, Mardoqueu “inscreveu” Hadassa no processo seletivo para o posto de rainha do Rei Assuero. No livro de Ester, capítulo 2, versículo 9, lemos que:

“E a moça pareceu formosa aos seus olhos, e alcançou graça perante ele; por isso se apressou a dar-lhe os seus enfeites, e os seus quinhões, como também em lhe dar sete moças de respeito da casa do rei; e a fez passar com as suas moças ao melhor lugar da casa das mulheres”.

“Pareceu formosa aos olhos” de um funcionário do rei, ou seja, a primeira etapa do processo seletivo para o posto de rainha. A conclusão é que, depois de um ano de espera, Ester também achou graça aos olhos do Rei Assuero e assumiu o posto de Rainha:

“E o rei amou a Ester mais do que a todas as mulheres, e alcançou perante ele graça e benevolência mais do que todas as virgens; e pôs a coroa real na sua cabeça, e a fez rainha em lugar de Vasti” (Ester 2:17).

Quem conhece a história da rainha Ester, sabe o papel estratégico que ela teve para preservar a vida do pai adotivo, Mardoqueu, e de todos judeus de sua época: “quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino?” (Ester 4: 14b), lembrou Mardoqueu a Ester, que estava com medo de quebrar o protocolo, ao entrar na presença do Rei Assuero sem ser chamada.

Daniel viveu na Babilônia desde a sua juventude, levado como escravo judeu. Esteve diante de três reis pagãos: Nabucodonosor, Belsazar e Dario. Para o primeiro, Daniel interpretou os sonhos; para o segundo, teve o episódio da mão que escreveu uma mensagem na parede e Daniel a interpretou também e, na sequência, Belsazar mandou que “vestissem Daniel de púrpura, e lhe pusessem cadeia de ouro ao pescoço, e proclamassem que passaria a ser o terceiro no governo do seu reino” (Daniel 5:29).

Naquela mesma noite, Belsazar foi morto, ou seja, cumpriu-se a mensagem revelada na parede: “dividido foi o teu reino e dado aos medos e aos persas” (Daniel 5: 28). Dario, ao assumir o reino conquistado, constitui 120 sátrapas “e sobre eles, três presidentes, dos quais Daniel era um”.

O desenrolar dessa história sabemos que levou Daniel à cova dos leões. Por ser temente ao Deus Vivo? Não! Vejamos: “Então, o mesmo Daniel se distinguiu destes presidentes e sátrapas, porque nele havia um espírito excelente; e o rei pensava em estabelecê-lo sobre todo o reino. Então, os presidentes e sátrapas procuravam ocasião para acusar a Daniel a respeito do reino; mas, não puderam acha-la, nem culpa alguma; porque ele era fiel, e não se achava nele nenhum erro nem culpa” (Daniel 6:3,4).

José, governador do Egito, antes dele era somente o Faraó, exerceu seu cargo de modo excelente, num reino pagão. assim como o fez quando era escravo na casa de Potifar ou na prisão, mesmo acusado injustamente. Cultivou sua devoção ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó em foro íntimo. José foi temente ao Senhor o tempo todo, o que quero dizer é: não IMPÔS o seu modo de vida utilizando-se de sua posição política.

Ester, judia, rainha de um rei pagão, levada pelas circunstâncias – pelo próprio Deus – àquele posto para salvar a vida do primo e evitar um grande massacre dos judeus de sua época. Como rainha, servia ao Senhor Deus em foro íntimo, por isso foi encontrando graça aos olhos alheios e “conquistando” o lugar que devia estar.

Temente ao Deus Vivo, Daniel era fiel, um espírito excelente, executava sua responsabilidade política perante Dario, num reino idólatra, de modo impecável, diante dos homens, por isso o rei o colocaria sobre todo o reino, depois do rei, seria Daniel. Principalmente, Daniel manteve-se fiel ao Deus Vivo, mesmo num cargo politico tão importante num reino pagão.

Esses três exemplos de homens e mulher, tementes ao Deus Vivo numa posição política importante bastam para eu dizer o seguinte: foram políticos destacados em reinos pagãos e não leio relato algum nas páginas da Bíblia que decretaram alguma lei ou qualquer ordem, impondo seus costumes e fé. Exerciam seus papéis e viviam sua fé ao Deus Todo Poderoso, de modo pessoal e, óbvio, essa fé conduzia suas ações enquanto políticos, porém, nunca para impor sua fé àquelas nações.

Será preciso desenhar? Precisamos de políticos éticos. Não de um salvador dos bons costumes que brigará com “unhas e dentes” – e armas, para proteger a “família tradicional brasileira”. Os judeus religiosos da época de Jesus não entenderam que o Salvador não era um salvador político; eles esperavam o Rei que os livraria da opressão romana e Jesus não foi esse rei para eles; os judeus o levaram à condenação perante os romanos.

A história também nos ensina quando a fé é institucionalizada, seus efeitos são contrários ao princípio da própria fé.

“[...] Mesmo gerando antipatias – e até perseguições, como no reinado de Nero entre os anos 54 e 68 – eles [os cristãos] foram tolerados nos primeiros séculos de vida de sua religião. Com a decadência do império no final do século II e a ameaça de invasões bárbaras, iniciou-se outro período de dura perseguição aos cristãos, que se recusavam a servir no exército romano. Mas nem isso impedia o cristianismo de ganhar seguidores, tornando-se logo a crença mais popular no império. Percebendo a força crescente da religião, o imperador Constantino I resolveu usá-la politicamente para fortalecer seu próprio poder e enfrentar a decadência romana. Sob a inspiração do lema ‘um Deus no Céu, um Imperador na Terra’, Constantino proclamou em 313 o Édito de Milão, lei que garantia liberdade para cultuar qualquer deus, o que seria fundamental para a futura conversão total do império à religião”. (Fonte: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/como-foi-a-conversao-do-imperio-romano-ao-cristianismo/)

Nosso posicionamento “cristão” na política está longe do exemplo de José do Egito, Ester e Daniel. O mundo jaz no maligno (I João 5:19), mundo é mundo, igreja é igreja, estamos no mundo, não somos do mundo (João 17:14-16). O mundo que jaz no maligno não se transformará em paraíso. Sua fé precisa ser vivida no dia a dia, iniciando no mais profundo âmago do ser para ser exteriorizada em ações que serão vistas, conhecidas e reconhecidas e, de repente, numa posição política importante, continuar sendo um cristão de dentro para fora, nunca impondo a fé, que é pessoal.

É o Espírito Santo que convence do pecado e do juízo!



Escrito originalmente em 26 de setembro de 2018, com excertos e reconfiguração em 13 de abril de 2020.

segunda-feira, março 30, 2020

Whatsapp de 2004


Nesses dias de isolamento social, vasculhando caixas que guardam recordações, dentro de um diário, na última página, um bolso feito com as duas últimas folhas, encontro alguns papéis.
O que se destacou entre eles foi uma folha que continha, além da minha letra, outra caligrafia diferente, a de uma grande amiga, Aldine. Cursamos, na mesma turma o curso de Pedagogia, na Unesp de Marília-SP, de 2001 a 2004.
Concluímos a graduação em julho de 2005. Nós dois na Pedagogia, ambos escolhemos a Educação Especial, ela a habilitação em Deficiência Física e eu, a Deficiência Auditiva. Algumas disciplinas das habilitações em Educação Especial eram comuns a todas as especialidades: auditiva, física, intelectual e visual.
Guardei essa folha sem pretensão, que hoje, quase 16 anos depois, para mim é uma preciosidade: é como se nos dias de hoje, dois amigos trocassem mensagens via whatsapp durante uma aula.







Fotografei a folha e enviei para Aldine, que vive em Osasco-SP, via whatsapp. Perguntei como estavam, de que modo estavam enfrentando o isolamento social, perguntei do Lucas, o filho e da mãe. Então, Aldine lembrou outro fato: lembra que ele rebaixou nossas notas quando vocês brigaram?
Ao que respondi: como esquecer! Minha primeira e única média seis da vida inteira.
Devo ter relatado em algum diário o fato, quando encontrar posso reproduzir aqui, mas basicamente foi: o professor estava atribuindo falta aos alunos que não participavam da aula. Ticiane e eu, que não tínhamos recebido a falta, fomos falar em nome dos alunos que foram lesados.
Argumentamos que o professor tinha todo direito de descontar pontos, diminuir a nota dos alunos que não estavam participando, entretanto, atribuir falta a alunos presentes era algo muito grave. Foi o suficiente para ambos sermos atacados e o professor começou um ataque verbal a toda turma.
Tentamos ainda recorrer à sessão de graduação, a que nos recomendou procurar a coordenação pedagógica do curso... Não me recordo se chegamos a protocolar algo. A consequência desse triste episódio – o autoritarismo docente – foram médias não condizentes com o desempenho real dos alunos na disciplina. Retaliação da pior espécie.
Éramos todos professores em formação e ele nos deu o pior exemplo do que não se deve fazer com alunos. Primeiro e único professor que discuti na vida. Apesar de traumático todo esse episódio, também foi pedagógico: não seja como ele, nunca. Primeiro: prepare melhor suas aulas. Segundo: esteja aberto às demandas dos alunos, inclusive abra canais de discussão sobre a sua didática. Nunca, nunca mesmo, transforme questões de sala de aula em perseguição pessoal, muito menos, não faça do seu “poder” de atribuir notas e presenças, elemento de chantagem: se não fizerem desse modo, vocês sofrerão consequências, hahahahahah!
Minha amiga Aldine deu a ideia: “escreve uma crônica sobre seu único 6,0 da vida”. Para ajudar, tinha compartilhado outro papel, com uma oração escrita, datada em 13 de abril de 2004, ou seja, pouco menos de um mês antes da outra folha com trocas de mensagens.



“Essa oração foi na aula dele também, só pode”, disse ela, ao que eu confirmei, sim, era. “Medidas em Educação Especial”, o título da disciplina. E como vocês podem verificar pelo histórico, não foi 6,0 e sim 6,5, tão bonzinho esse professor.


Comprometedor tantos dados assim, mas, aviso aos leitores: não fiquem especulando quem era o professor, não vale a pena quem era, vale o aprendizado com tudo isso. Claro que depois de formado, ainda participando de cursos e eventos na Unesp, reencontrei esse professor. Reinava o formalismo, a polidez, a educação. Ele está aposentado há muitos anos.
A conclusão: viva as recordações, viva a amizade, viva a oportunidade de crescer e amadurecer, sempre! Obrigado Aldine pela sugestão. Feito. Espero que goste do resultado desta “crônica”!

sábado, março 28, 2020

Uma cena


(foto ilustrativa)

No meio do caminho há um trilho. Há um trilho no meio do caminho. Há uma rua íngreme no final deste trilho. No final deste trilho há uma rua íngreme. Este trilho e esta rua fazem parte do trajeto que faço de segunda a sexta-feira para ir trabalhar, pela manhã.
Há um alto muro por toda a extensão deste trilho, cercado por bambuzais e eucaliptos gigantes e, do outro lado, há uma grande depressão, cheia de árvores que cercam um campo de futebol.
Nesse horário da manhã, são poucos os transeuntes, mas com certeza o horário que as pessoas mais o utilizam. Às vezes passo por ele todo sozinho; só eu “desço”, os outros sempre “sobem” o trilho.
Esse trilho inspira-me a falar com o Senhor Jesus, a orar, a louvar, a pensar em coisas grandes como a vida que logo passará e o que de eterno permanecerá. Dias desses passados na semana anterior, ao final desse trilho, uma cena muito me tocou: um cavalo, uma carroça, três cachorros e dois homens.

(foto ilustrativa)

O personagem principal foi o cavalo. Por ser a rua íngreme, patente foi para mim, observar o esforço do cavalo para se equilibrar, agüentando o peso da carroça e da descida para não “desimbestar”. Os dois homens tentavam, através de cordas, contrabalancear o peso, segurando a carroça. Mas o trabalho todo era do cavalo. Até aí, toda esta descrição parece muito natural, não fosse a presença dos caninos e o papel que tiveram nessa cena.
Não sei que aversão é essa que os caninos sentem pelos eqüinos, uma antipatia que os impelem para cima do cavalo; ladra incansavelmente enquanto o animal trota e segue seu caminho. Não entendo, mas nessa cena especificamente, a insistência desses cachorros, aliás, dois deles ainda filhotes, provocou, como em efeito dominó, uma analogia simples, mas muito forte, em meu pensamento.
As pessoas têm muitas cargas pesadas e difíceis de carregar, andam por caminhos tortuosos, atribulados por vários aspectos da vida, obviamente aqueles que conhecem a Cristo e Sua Palavra, sabem e crêem que toda tribulação tem um propósito maior e mais excelente (Romanos 5: 3-4; II Coríntios 7:4), somos auxiliados por Anjos eleitos e fortes, sustentados pelo Amor e Soberania do nosso Rei, nosso Pai.
E existe, no mundo espiritual, invisível, assim como os Anjos do Senhor, os demônios, principados e potestades, dominadores deste mundo tenebroso, que vivem ao derredor para dificultar, atrapalhar, para roubar, destruir, para matar. São incansáveis, irritantes, barulhentos como três cachorrinhos no caminho de um cavalo, já em dificuldades. Realizando sua tarefa: carregar a carroça.
Nessa analogia, os homens seriam os anjos do Senhor (Salmo 37:4), no caso, ajudando o cavalo com as cordas.
Fui trabalhar mais feliz neste dia. Através de uma cena simples, não tão cotidiana, mas normal, falou profundamente ao meu coração, ministrado pelo Espírito, lembrando a fidelidade e fidedignidade da Palavra do Senhor Deus.

Escrita originalmente em 06/07/2004.

quarta-feira, março 25, 2020

Este cinzeiro não estava vazio?



          
          Deve ser muito engraçado ver uma pessoa em dúvida de ter feito algo ou não, e você saber que foi feito, mas se disser a verdade, acaba se entregando.
            Esta foi com uma amiga.
            Numa noite discutia, como sempre, com o namorado na casa dele.
- ... e pare de fumar; sabe que cigarro não faz bem para a saúde!
- Deixa-me fumar, sempre fumei, não vou parar agora.
Ela pedia para ele.
Numa outra ocasião, bem antes dessa discussão, ela manifestou o desejo de fumar (mais curiosidade que desejo).
- Se eu te pegar fumando, bato na sua boca! – ele.
- Olha quem fala. – ela.
- Estou avisando!
Eis que surge a discussão iniciada logo acima. Ele fumava.
- Você me deixa muito nervosa, você é um “cabeça-dura”!
- Eu vou para a faculdade; estou atrasado. Tchau!
- Não me deixe falando sozinha!
Ele apagou o cigarro no cinzeiro, jogou as cinzas no lixo, colocou o maço de cigarro em cima da geladeira, pegou o capacete e saiu.
- Como ele me deixa nervosa!
Ela batia os dedos na mesa; era uma forma de extravasar. Se falasse sozinha, os vizinhos iam a chamar de doida; gritar então, não pensariam duas vezes, chamariam os psiquiatras para colocá-la na camisa de força.
Foi então que ele atraiu sua atenção. Quase inconscientemente foi até a geladeira, pegou um cigarro, colocou na boca e acendeu. Deu o primeiro trago; engasgou com a fumaça. Continuou fumando ainda assim. O nervoso foi passando, parecia se esvair com a fumaça que soltava, já com certa categoria.
Fumou um cigarro inteirinho. O cinzeiro sobre a mesa estava repleto de cinzas novamente. Ela colocou uma bala na boca, esborrifou perfume pela cozinha, chupou outra bala, por garantia.
Ele chegou. Beijo na boca: nada!
Respiração ambiente: nada!
Ufa! Ele nem vai desconfiar.
- Ei, eu não joguei as cinzas no lixo?!
“Ih, o cinzeiro!”
- Eu não vi!
- Devo estar ficando louco!
- É o cigarro que está te deixando assim!!!

Escrito originalmente em 21/02/2001.

segunda-feira, março 23, 2020

Eles escolheram, eu escolhi, nós escolhemos




Nascer no século XX, na América Latina, Brasil. Não escolhi!
Nascer homem, filho mais velho de um jovem casal. Não escolhi!
Meu nome e sobrenome, nem ter mais uma irmã e irmão. Não escolhi!
As escolas que frequentei e professores que tive. Não escolhi!
Meus pais escolheram por mim, já emaranhados pelas escolhas feitas para eles e por eles
Mas eu cresci! E com o fardo da adultice veio o privilégio das escolhas, e claro, saber das consequências de cada uma delas.
Escolhi não parar de estudar!
Para isso, fiz um curso que não me agradava, mas que foi muito útil, técnico de contabilidade
Escolhi aprender Língua Brasileira de Sinais e por isso, ser Pedagogo, ou melhor, professor de crianças surdas
Escolhi, depois de formado, prestar prova de um concurso querendo a única vaga disponível para professor de LIBRAS
Escolhi namorar Paula, primeira namorada e, vejam só, importada
O melhor, ela também me escolheu!
Não mais eles (pais), não mais eu... o verbo “escolher” passou a ser conjugado na primeira pessoa do plural.
Escolhemos nos tornar noivos com dez meses de namoro e oito meses depois nos casamos.
Dentro das nossas possibilidades escolhemos morar num apartamento e nos locomovermos de moto.
Escolhemos viajar por aqui e por ali, escolhemos amigos!
Uma das nossas mais importantes escolhas: escolhemos ser pais!
10 de maio de 2010 a notícia de que estávamos grávidos!
23 de julho de 2010 soubemos que seria um menino!
Então começamos as escolhas por ele: nome e sobrenome
LORENZO CRUZ CONEGLIAN
Até o dia de nascimento escolhemos: 21/12/2010.
Mas, Deus, o Altíssimo, escolheu outra data: 19/12/2010.
E fomos escolhendo outras coisas para nós e para ele.
Escolhemos mudar de cidade e Estado, de Marília-SP para Londrina-PR.
Uma grande mudança em nossas vidas, grandes aprendizagens.
Nessa terra vermelha, escolhemos sermos pais novamente.
29 de novembro de 2013 a notícia de que estávamos grávidos novamente!
15 de janeiro de 2014 soubemos que seria outro menino!
BENJAMIN CRUZ CONEGLIAN.
Porém, um micro-organismo mudou tudo: toxoplasma gondii.
Do sexto para o sétimo mês de gestação um exame de sangue acusou a toxoplasmose.
Perdemos o chão! O Senhor nos segurou no colo.
Pela fé, nós cremos no milagre e acrescentamos um outro nome:
BENJAMIN DANIEL CRUZ CONEGLIAN
Pois, como o Senhor livrou Daniel nos leões na cova
Cremos que o mesmo Deus livraria o pequeno Daniel dos leões microscópicos no ventre.
Dia 14 de junho de 2014 foi o grande dia.
O milagre foi real: um menino lindo e saudável, para honra e glória do Grande EU SOU!
A vida continua e as escolhas também!
Mas a melhor escolha de todas:
Servir ao Senhor e desejar que Lorenzo seja amigo de Deus,
Servo de Cristo, filho adotivo do Pai Celestial, por meio do sangue de Jesus.

O texto foi escrito originalmente em 03 de agosto de 2012; o trecho em itálico foi escrito hoje, 23 de março 2020.

domingo, março 22, 2020

O Homem ideal


            

               Este homem existe.
            Para preservar a sua identidade e garantir-lhe o direito de ir e vir e ser o que quiser, vamos apelida-lo de Ferreirão.
            Ferreirão, homem de meia idade, forte, cabelos levemente grisalhos, se gabava dentre muitas outras coisas de ser o garanhão em pessoa.
            Muitas pessoas são assim; espalham sua imagem como se vêem. Agora, se o são realmente, é outra história.
            Não que Ferreirão falhava no seu papel de galanteador... apenas faltava-lhe naturalidade em certos pontos. Malandro, no trabalho finge que trabalha. Os subordinados, estes sim, pegam no batente. É um sarro vê-lo como uma barata tonta quando o patrão aparece: e ele, é claro, quer aparecer. Ah, Ferreirão, deixa de lorota!
            É uma piada, às vezes, o saco dos subordinados enche, mas Ferreirão é Ferreirão, não se toca, não muda nem por milagre.
            Detalhe: Ferreirão é casado, leva, até como bom chefe a família; mulher, filha e filho. Sempre atento nos assuntos familiares e muito prestativo.
            Mas que virilidade é esta que não deixa ele (e muitos outros) serem apenas homem de uma mulher. Um defeito? Desde que o mundo é mundo, o homem é assim. E pelo andar da carruagem não há que o fará mudá-lo!
            Ainda bem!, dizem as amantes. A de Ferreirão é a secretária do Dr. Hamilton. Não conhecem? Bem, só o Ferreirão mesmo. Não só conhece como ele até come. Já o doutor em questão nem existe. É um código, entende: “Ferreirão, o Dr. Hamilton está na linha!”, “Ferreirão, o Dr. Hamilton pediu para você ligar para ele”.
            Os subordinados, depois de descoberto este insuspeito código de comunicação – não vamos deixar de elogiar a inteligência dos ativamente sexuados, a do Ferreirão e da secretária do fictício Dr. Hamilton – fica até difícil dizer: “Ferreirão, é o Dr. Hamilton na linha”... quando eles sabem que não é. E agora também nós que lemos até aqui.
            Ferreirão não deixa passar despercebido qualquer corpão-violão que passa pela sua vista. Come com os olhos: “Que gostosona, vem cá chuchu. Faz carinho aqui no papai, faz.”
            Ferreirão, além de tudo, faz brincadeiras (de mau gosto) com quem não devia mexer. Tem um funcionário, vamos dizer, obediente às Leis de Deus. E veio ele, Ferreirão, todo malandrão, balançando as pernas, gemendo e olhando para este funcionário, disse:
- “Jeremias, to com uma vontade de trepar!”
Os outros em volta, não imaginavam que Jeremias, tão na sua e tão sabiamente, deixou Ferreirão com cara de palhaço, que faz a piada e é, ele próprio o motivo da piada, obrigado a dar uma risadinha sem graça e sair mais que depressa. Jeremias olhou-o e disse simplesmente:
- “Tem um monte de árvore lá fora!”
Esperaram Ferreirão sair, sem ter conseguido ferir Jeremias com sua malícia, para caírem na gargalhada. Ficaram vermelhos, choraram de tanto rir. Ferreirão nunca mais se atreveu com Jeremias.
Suas investidas nas mulheres devem ser tantas e muitas delas, nada agradáveis, que surgem as “indelicadas”.
Uma dessas foi seca e direta.
Discou o número do celular de Ferreirão e como de costume, não foi ele quem atendeu. Pode estar do lado do celular, finge que não é com ele. Ferreirão às vezes irrita com tanta folga e burrice: após atenderem o celular que é dele, tem a capacidade de perguntar: “É pra mim?”
Desta vez a voz do outro lado ouviu apenas o “Alô” do subordinado de Ferreirão e despejou:
- “Seu gordo, escroto!!”, com um tom ritmado de nojo, para deixar explícito que era isso que ela estava sentindo.
No primeiro instante o subordinado ficou paralisado:
“E agora, contar ou não contar, eis a questão?!”. “Conto!”. “Mas como?”. “Do mesmo jeito, ué!”. “Certo”. – um diálogo com ele mesmo.
- “Ferreirão, tem alguém com muita raiva de você”
- “É, por quê?”
- “Uma mulher ligou e disse: ‘Seu gordo, escroto!’” – o subordinado imitou até a entonação da voz, que era de nojo mesmo.
Ferreirão deu uma risadinha sem graça. Os outros funcionários riram, mas com mais vontade. E ele saiu de perto, mais uma vez como barata tonta.
- “Barata. Ah, eu odeio barata!”
No maior estilo feminino, esta frase é dita pelo másculo Ferreirão quando vê uma. Se fosse só a barata, afinal é um bicho tão nojento. Mas Ferreirão se deixa perder nos medos quando é apenas o Ferreira. Já o viram cambalear depois de uma trovoada, abaixando-se de qualquer coisa que pensasse poder o atingir (estava bem protegido dentro do prédio onde trabalha). Ao fechar a firma não pode ficar sozinho: tem medo de ser seqüestrado.
E por aí vai, Ferreirão com as mulheres, deixa seus instintos falarem mais alto. Ferreirão consigo mesmo, deixa o medo tomar-lhe conta.
Não bastasse tudo isso, tem os espetáculos quando se reúnem em confraternizações semanais regadas com muito álcool, churrasco, mais álcool, peixada e muito, muito mais álcool.
Esta aconteceu na mesa de truco:
- “Truco, filho da p* ! Desgra*...”
- “Seis, nojento, fidido!”
- “Nove, cachorro, corno...” (exagerado, eu).
Era tanta cerveja, muito líquido retido na bexiga e muito álcool afetando os neurônios que Ferreirão nem pensou duas vezes.
“É aqui mesmo”. E abriu a torneira. Sentado na mesa de truco, “levemente” alcoolizado como podem constatar, se mijou todo.
No serviço, foi piada por uma semana.
Este, meus caros e caras, é o Ferreirão. O homem ideal do título. Podem perceber, pelas atitudes exemplificadas, que ele não é tão difícil de encontrar por aí. Todos conhecem um...
E Ferreirão continua por aí, caçando os “pitéuzinhos”. Malandro que é malando não se dobra. Homem que é homem não se entrega.
- “Ferreirão, ligação no celular, tome”
- “É pra mim?!”

Escrita originalmente em 09/07/2000.

sábado, março 21, 2020

O Doce da Vida




Correndo pelas longas estradas do tempo, o mundo deu tantas voltas que sorri ao parar no mesmo lugar de anos atrás. Lembranças pueris, pequenos gestos, grandes pessoas, sentimentos enraizados, que naquele instante floresceram e exalaram o aroma que me fez desejar viver aquilo tudo novamente.
            Mas, o grande personagem dessa história, não são minhas saudades, não é a criança que um dia eu fui, não exatamente isso. Mas, sim, seu Joaquim, o grande personagem, responsável por essa viagem tão doce no tempo.
Seu Joaquim é um nome fictício. Não por querer preservar sua identidade, é por que eu não sei o seu nome de verdade. Idade: mais de sessenta, setenta anos talvez. Onde mora? Não sei! Sei onde encontrá-lo. Por isso não me perguntem mais nada.
De seu Joaquim sei que vende doces. O lugar: o portão em frente da escola em que estudei. Seu Joaquim vendia doces, carregados pela sua bicicleta, numa caixinha de plástico, acoplada na frente deste veículo que o transportava para todos os lugares.
Balas, pirulitos, chicletes, pipoca, chocolate, doces e mais doces, todo dia ele estava lá, na entrada e na saída, fazia chuva, fazia sol.
Esta lembrança vale pela emoção que ele provocou em mim. Não me lembro claramente o que comprei de Seu Joaquim, comprei pouco, muito pouco, é uma pena...
Hoje, dez, onze anos depois eu poderia descrever o gosto do chocolate, os vários sabores de chicletes e balas, se a pipoca era fresca ou murcha... Não posso lembrar sabores, mas foram os sabores que Seu Joaquim sempre vendeu que me fizeram descrever esta sensação incrível.
Vi-o uma vez no ônibus. “Meu Deus! – exclamei – Ele ainda está vivo?!”, pensei comigo mesmo. Não que eu o queria morto, não. Aquele velhinho que fazia parte da minha infância, estava naquele ônibus que eu pegara na correria de minha vida, agora adulta. Pensei: “Deve estar aposentado, vivendo como pode, dependendo do INSS”.
Seus doces eram sabores do passado, deixados de lado, pois, a velhice exigia mais cuidados.
Muito me enganei e sorri. Sozinho, andando pela avenida, ao passar em frente a antiga escola do primário, no horário de entrada, um pouco depois em que se vê apenas os atrasadinhos correndo para chegar a tempo, ele, Seu Joaquim, plácido, tranqüilo, na sombra de uma arvorezinha, tendo ao lado sua bicicleta com a caixa de doces e um isopor, chupando um “geladinho”, assim, como quem só pensava em saborear o gosto gelado do sorvete que vendia.
            As imagens, o sentimento foi tão forte, que o sorriso apenas disfarçou e segurou as lágrimas que fizeram meus olhos brilharem. Brilharam momentos felizes de criança que se preocupa apenas com a brincadeira depois da escola, brilharam a felicidade de ver aquela pessoa que nos ama verdadeiramente no mundo, que nos esperava todo dia na saída, descompromissada sempre, quando se tratava de buscar e levar-nos para a escola, brilharam ainda, mais intensamente momentos que se foram e nunca mais voltarão. É uma dor, sentida lá no mais íntimo do coração, infância que não volta mais, mundo de encanto e fantasia perdido para sempre, anos em que se era feliz e não sabia. Não sabia que bastava sorrir e pular e cantar e brincar e correr e abraçar a mãe e ir feliz para casa, quem sabe antes pedir com jeito um pirulito ou um chiclete...
            É, assim é a vida. Crescer, amadurecer e admirar, esses momentos mágicos de reencontros, de pessoas, olha só, que apenas estiveram ali, em algum lugar de nossa vida e nos proporcionam mais adiante tamanha felicidade e emoção.
            Seu Joaquim, passarei por ti e não direi nada, comprarei um chocolate, quem sabe, esse sim terá um sabor todo especial, não só aquele doce, melado, gostoso, sabor de saudade, de um trabalho humilde de uma grande pessoa que foi apenas um vendedor de doces para essa eterna criança...
            “Ao velhinho que vende doces e, que há anos faz a alegria de milhares de crianças na frente da escola: Obrigado!”

p.s.: depois de alguns anos, descobri que Mateus é o verdadeiro nome do seu Joaquim, foi meu pai quem disse, pois o conhecia; lembro-me que pensei: que nome de menino para um idoso... eu e meus preconceitos! Viva o seu Mateus!

[Menino do Quarto, Sem data]