O Quarto do Menino

"No meu quarto que eu lia, escrevia, desenhava, pintava, imaginava mil projetos, criava outros mil objetos... Por isso, recebi o apelido de 'Menino do Quarto', título que adotei como pseudônimo e hoje, compartilho neste 'Quarto Virtual do Menino', o que normalmente ainda é gerado em meu próprio quarto". Bem, esse início já é passado; o 'menino' se casou (set/2008); há agora dois quartos, o do casal e o da bagunça... Assim, diretamente do quarto da bagunça, entrem e fiquem a vontade! Sobre a imagem de fundo: A primeira é uma reprodução do quadro "O Quarto" de Vicent Van Gogh; a segunda, é uma releitura que encontrei no site http://www.computerarts.com.br/index.php?cat_id=369. Esta longe de ser o MEU quarto da bagunça, mas em 2007, há um post em que cito o quadro de Van Gogh. Como disse, nada mais propício!!!... Passaram-se mais alguns anos, e o quarto da bagunça, já não é mais da bagunça... é o Quarto do Lorenzo, nosso primogênito, que nasceu em dezembro de 2010!

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segunda-feira, julho 13, 2026

A VIDA ASSIM NOS AFEIÇOA. PRENDE!

 

Retrato de Manuel Bandeira, 1931, Portinari

Hoje, 13 de julho de 2026, segunda-feira, primeiro dia do recesso escolar de duas semanas, acordei, tomei banho, fiz café, comecei a lavar a louça e senti a necessidade de escrever um texto sobre a VIDA.

Lembrei de uma informação científica sobre a existência da vida, que basicamente dizia que a vida surgiu no mar, ou seja, na água e na evolução das espécies, especialmente os seres vivos terrestres, precisou adaptar-se e, os mamíferos fêmeas criam um ambiente aquático em seus úteros para possibilitar a criação da VIDA. Essa informação científica tornou-se uma informação poética para mim, desde então.

Lembrei ainda, lavando a louça, que quando eu era professor da disciplina de Libras em diversas licenciaturas, na primeira aula, perguntava aos alunos nome, de onde eram, porque haviam escolhido aquele curso, uma aluna do curso de Ciências Biológicas disse que queria estudar tantas áreas e decidiu pela Biologia pois ela estuda a VIDA (das plantas, animais...). Quer curso mais abrangente que esse? Era a lógica da escolha dessa aluna pelo curso e eu achei isso muito profundo e... POÉTICO!

O dia 13 de julho foi passando e agora são 20h07 e iniciei a escrita, mas minutos antes, ao dar o possível título “A vida assim nos afeiçoa. Prende!”, que é um empréstimo de um verso do Manuel Bandeira, decidi digitar no meu blog as muitas vezes que  usei esse verso como referência. Ao digitar Manuel, vi uma postagem de 20 de março de 2020, a crônica “Do milagre” digitalizada e comecei a ler.

E, corri para a minha estante pegar o livro físico pois estava perplexo. O autor do verso que eu queria usar como título escreveu algo assombroso, ou melhor, que nesta altura dos meus 45 anos de vida, me espantou! Somado à minha necessidade desde a manhã deste dia de escrever um texto sobre a VIDA.

Recomendo a leitura da crônica citada na íntegra, obviamente. Entretanto, trata basicamente de crer ou não em milagres. Manuel nos conta que foi confrontado por um amigo – que provavelmente não acreditava em milagres, e ele, Manuel passa a relatar ao amigo e, consequentemente para nós leitores porque acreditava em milagres.

Deixa claro que não acreditava em milagres religiosos e a beleza da crônica, a essência está exatamente aí. Não consigo me lembrar o que me chamou a atenção para eu digitalizar e colocar no blog em 2020, mas hoje, ao reler a crônica, sim, eu sei, eu sei!

O absurdo de existir e estar consciente dessa existência, o assombro da existência do Universo e não falamos de deus – Manuel e eu.

“[...] para mim, o milagre por excelência é a simples existência do Universo, fato evidentemente absurdo, e todavia, temos que acreditar nele, pois aí está” (p. 92)

Manuel segue:

“Do encontro de duas células forma-se um óvulo e esse óvulo evolui, diferenciando-se em vários sistemas complicadíssimos, regulados com a maior precisão. Milagre. Cada organismo vivo, animal ou vegetal, é um milagre. Organismo vivo? Todo cristal não é um milagre?” (p. 93).

O autor diz na sequência que é um privilégio nosso, humano, “o privilégio da razão humana está na consciência desse assombro que é a vida. A vida é realmente uma maravilha, no seu conjunto e em cada um dos seus detalhes”

Então, Manuel registra algo extremamente crucial para todo ser pensante e questionador: “o prazer de admirar paga-se demasiadamente caro. Acabamos um dia cansados de tantos assombros, de tantos milagres. Acabamos cansados do Universo.”

Sim, Manuel, sim, eu sei do que você está falando!

Ele, poeta, diz que quando chegou nesse ponto, resumiu suas “muitas horas de barata filosofia neste poema, que só tem de sinistro o título”:

 

PREPARAÇÃO PARA A MORTE

 

A vida é um milagre.

Cada flor,

Com sua forma, sua cor, seu aroma,

Cada flor é um milagre.

Cada pássaro,

Com sua plumagem, seu voo, seu canto,

Cada pássaro é um milagre.

O espaço, infinito,

O espaço é um milagre.

O tempo, infinito,

O tempo é um milagre.

A memória é um milagre.

A consciência é um milagre.

Tudo é milagre.

Tudo, menos a morte.

 

– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres!

 

É um assombro para mim como tudo converge: minha mudança radical sobre não acreditar mais no deus cristão – e em 2020, era um sentimento embrionário.

Todo dia pensando que o fim é a morte e como sofremos para nada, para um dia tudo acabar... e a minha necessidade de hoje, o desejo de escrever sobre a vida, a vida que afeiçoa, prende, mas que é cruel, como escreveu o poeta no poema que emprestei o título.

E este mesmo poeta que escreveu esta crônica que tinha me esquecido e o Universo fez-me o favor de relembrar... e a informação científica-poética do útero-mar, da Ana,  que escolheu cursar Biologia, desejosa de estudar a VIDA e saber mais sobre a VIDA.

Estou consciente, Universo, aparentemente consciente. Sei que não sou nada, nada... – lembro de outro poeta: “Não sou nada,/ Não posso ter nada,/ Não quero ter nada” (Fernando Pessoa). Como é pesado sentir tanto... Milagre?

São 20h47, Paula está na cozinha preparando uma lentilha com frango e linguiça para a janta logo mais, os meninos na sala, eu aqui no computador escrevendo, ouvindo minhas músicas favoritas, vivo. Milagre?

Sim. Milagre! Sem qualquer referência religiosa, apenas a constatação do fato de existir num planeta que possibilita a VIDA de diferentes espécies.

Vida!

sábado, dezembro 23, 2023

MEU AMIGO ALÊ

 "Vocês me dão licença, vou me recolher..."

Estas foram as últimas palavras que ouvimos do amigo Alessandro.

Dia 22/11 [2023] recebemos a notícia de que ele estava com "câncer terminal".

Dia 24/11 [2023] a noite fomos visitá-lo em sua casa. Quando chegamos, ele estava dormindo. Ficamos conversando com Cleide, sua esposa e com Bia, irmã da Cleide.

Passados uns 40 minutos, Cleide o ajudou a levantar, para tomar remédio e ele veio caminhando do quarto para a sala.

Estava com uma crise de soluço há alguns dias...

Trocamos algumas palavras. Ele estava fisicamente debilitado, psicológica e emocionalmente abalado. Tomou o remédio e disse estas palavras para Paula e para mim: "Vocês me dão licença... preciso me recolher..." e voltou para o quarto.

Nove dias depois, Alê recolheu-se! Recolheu-se desta vida que conhecemos e que chamamos de "realidade". Cleide publicou em suas redes sociais, minutos depois dele partir: "Deus me deu, Deus tomou. Bendito seja o nome do Senhor", era o domingo 03/12 [2023].

No velório, ouvi: "ao menos não foram longos meses sofrendo..."

Uma pessoa boníssima. Realmente, não merecia qualquer tipo de sofrimento.

Descansou. Recolheu-se!

O grande problema, como sempre nestes casos, é de quem fica nesta realidade com a dor da ausência. A esposa, agora viúva, a filha, agora órfã de pai, os pais idosos que perderam o primogênito, irmão, sobrinhos, cunhados, concunhados, amigos do trabalho, da igreja, da vida...

A bíblia cristã, a qual tive como livro sagrado por quatro décadas, duas delas como cristão evangélico, registra que melhor é ir numa casa em luto que numa festa "pois a morte é o destino de todos; os vivos devem levar isso a sério", diz a continuação.

Devo discordar educada e respeitosamente.

Vivos devem viver. Viver intensamente, se assim o desejarem e tiverem saúde e condições para fazer. Ir a uma casa em luto, em respeito à dor dos que ficaram. Recolher-se quando sentir que é preciso, quando for necessário. O mundo já é cheio de restrições e dificuldades naturais. Não se pode deixar de fazer isto ou aquilo com medo do que vão pensar ou dizer. "Vamos nos permitir", pois um dia iremos nos recolher deste mundo.

Vamos amar! Semear amor, plantar amor, colher e recolher amor. Espalhar mais amor!

É preciso "festar" se tem desejo e possibilidade de fazê-lo, como escrevi. É preciso estar com aqueles e aquelas que colaboram com esta festa.

Cecília Meireles escreveu num contexto de desarmamento, de cultura de paz que: "Se fosse possível não ensinar a matar, - uma vez que para morrer todos nascemos já ensinados...". Desse modo, é preciso viver e festejar a vida! Pois a humanidade nasceu para morrer.

Triste fato! Nós, os vivos da vez, que lutemos para dar conta das ausências de pessoas queridas que já foram...



quinta-feira, outubro 01, 2020

FUNERÁRIA SANTA LUZIA, SUA MORTE É A NOSSA ALEGRIA



Afirmo de antemão que não é objetivo ofender ninguém. Desejo apenas refletir sobre a morte como um negócio. Especialmente, nesses tempos em que a morte figura com mais frequência do que antes da pandemia causada pelo covid-19.

Na pandemia levantou-se a questão: será mais importante preservar as vidas das pessoas ou a economia que movimenta o mercado? Isolamento total ou parcial, etc.

De modo geral, fico a pensar, o que é mais vantajoso, em termos de negócio, no capitalismo, o que traz lucro seguro. Não sou economista, cientista político, muito menos estou defendendo o socialismo ou o comunismo. Quero simplesmente pensar na lógica que nos é imposta.

Se levantarmos as questões básicas para todo e qualquer ser humano, para a manutenção de uma vida confortável, eu listo: 1) alimentação; 2) trabalho; 3) moradia; 4) saúde; 5) educação; 6) lazer e 7) segurança. Parece que algumas questões caminham paralelas e são co-dependentes, por exemplo, saúde e segurança são necessários para trabalhar, conseguir comprar alimentos e pagar aluguel ou a prestação da casa e outras despesas.

Educação e lazer são necessários também para a manutenção da vida confortável, porém, dependendo do contexto social, econômico, podem ser entendidos como “supérfluos” ou “desnecessários”.

Pois bem, se tivesse a oportunidade de abrir um negócio, em que área seria? Uma premissa – das tantas outras – do capitalismo é criar a necessidade do consumidor para que ele deseje aquilo que ele não precisa, a priori. A pior premissa desse sistema é transformar em mercadoria com grande valor agregado, o que é item básico para a manutenção da vida: alimento, saúde e, claro que direi Educação. Educação básica, especialmente, nunca deveria ser mercadoria.

Abrir um comércio de alimento, pensando no alimento preparado, pronto para ser consumido. As pessoas têm vidas agitadas, comem fora de casa e, dependendo do lugar vale muito a pena, não comprar os itens e preparar aa refeições em casa, pois ainda tem o gasto com o gás da cozinha.

Porém, culinária, cozinha é algo que não me agrada. Tenho um amigo, cuja família toda trabalha nesse ramo. Vendem uma comida caseira deliciosa e compramos alguns dias na semana. Ir ao supermercado, comprar arroz, feijão, carnes, verduras e legumes. Preparar os alimentos. Disponibilizá-los no tempo e temperaturas adequados, acertar tempero e agradar os clientes. Lavar as panelas e demais utensílios usados na preparação; lavar pratos e talheres, no caso de clientes que consomem no local. Não! Definitivamente não abriria um comércio de alimentos.

Educação. As escolas particulares não têm alunos, têm clientes. Em sua maioria, visam o lucro, portanto, os professores não são remunerados adequadamente; possuem uma carga de trabalho altíssima, junto com um pressão psicológica muito forte. Já comercializei ensino, sim. Cursos de Libras. Porém, é um conhecimento muito específico; faz o curso e paga quem quer.

Saúde. Segurança. Lazer. Não vou me aprofundar em todos esses itens. A carga tributária no Brasil é altíssima. Sim, sabemos disso. Os impostos, a priori, deveriam proporcionar serviços públicos de qualidade a toda população: Educação, Saúde, Segurança, Transporte, tudo de qualidade. Porém, sabemos que a corrupção e a má gestão dos recursos públicos, basicamente, abrem duas vias bem distintas.

A primeira via: abre-se a “oportunidade” para a iniciativa privada lucrar com Educação particular, Planos de Saúde e de outros setores serem comandados e balizados pela iniciativa privada. A segunda via é: o pobre, considerando o pobre que tem trabalho formal, paga aluguel ou a prestação da casa, outras despesas – água, luz, alimentação, com os filhos na educação pública; a ele e seus familiares “resta” a saúde pública, que pode – e deve – ser eficiente.

Entretanto, os partidos políticos e seus representantes eleitos legislam e executam a legislação para o sucateamento desses serviços. E manipulam as informações para fazer a população acreditar que os serviços públicos são as verdadeiras fontes de mazelas da economia no país. A população, que não tem educação de qualidade, acredita e vota no lobo mau que “cuida” dos porquinhos.

Qual é o ramo mais lucrativo? Vamos afunilar a escolha: qual é o ramo mais lucrativo, mesmo tem tempos de dificuldades econômicas?

Ao considerar as poucas argumentações acima, creio que não é o ramo da alimentação o mais lucrativo, afinal, tem pessoas que não compram comida pronta, compram no mercado e fazem em casa. Tem pessoas que nem comem em casa, pois não tem casa. Tem pessoas que não tem casa, nem comem todos os dias e, aos milhares, morrem!

Saúde só é um negócio lucrativo para quem é dono do negócio, que precisam de clientes que paguem pelos serviços de saúde que vendem. Quem não tem plano de saúde, usa o SUS. Quando o SUS falhar, como eu disse, por má gestão dos recursos, corrupção e tantos outros crimes, os pobres adoecem, a doença pode agravar e, morrem!

Educação, já comentei acima, deveria ser universal, gratuita e de qualidade para todos. Até mesmo as universidades. O que não significa que não deva existir faculdades e universidades particulares. O que não pode é querer destruir a universidade pública para privilegiar o mercado, “educação como mercadoria”. O que não pode é dinheiro público ser injetado nas particulares, como foi o PROUNI, pois, ainda que o objetivo seja justificável – oportunizar o acesso do pobre ao ensino superior – que o poder público faça isso por meio da universidade pública e não privada. Vamos investigar os desvios e abusos que ocorreram com as verbas destinadas ao PROUNI e FIES?

Não ter educação não mata, a priori! Porém, ouso afirmar que a médio e longo prazo, a ignorância é uma arma letal e tem matado aos milhares também. Os mais vulneráveis são os pobres. Morrem os pobres alfabetizados, os pobres analfabetos, os pobres sempre morrem!

Segurança pública, bah. Não vou me estender mais.

A morte é, em suma, o ramo mais lucrativo! Pobres e ricos morrem – mais pobres que rico, pois proporcionalmente, há mais pobres do que ricos. Pobres e ricos querem enterrar com dignidade seus mortos. Para se diferenciar do pobre, os ricos criaram outras opções, como a cremação, como opção ecologicamente correta, inclusive.

Mesmo em tempos de guerra, eu estava tentado a dizer que a morte não é lucrativa. Como não? O que são as guerras, senão produção em massa da morte. Pode-se não lucrar com caixões e rituais, afinal, corpos e corpos são jogados em valas coletivas. Basta lembrar o holocausto – é dever nunca esquecermos!

A primeira vez que ouvi a frase do título “Funerária Santa Luzia, sua morte é a nossa alegria!”, a pessoa disse atendendo o telefone, como pegadinha. Achei de uma deselegância, de uma afronta, de um desrespeito com a morte. Passados alguns anos, vivido o que vivi – individualmente e, também observando o comportamento da humanidade nesses tempos de pandemia, tendo o Brasil como um dos piores países a enfrentar o problema, chego a cogitar: por que não?

Claro que não! Não tenho estrutura para trabalhar diariamente com a morte e ainda mais lucrando com isso. Enterramos um passarinho, enterramos o Blup Blup (peixinho do Lorenzo), enterramos os gambás... quantos e quantos velórios e enterros de familiares, amigos e conhecidos...

Viver e morrer para os humanos não é tarefa pouca!

quinta-feira, agosto 20, 2020

DUAS AVÓS

 Minhas duas avós morreram no dia 20. A paterna, em 20 de fevereiro de 2000. A materna, hoje, 20 de agosto de 2020. Vinte anos de diferença. As semelhanças e proximidades entre elas eram meras formalidades; as diferenças e antagonismos, não. Provavelmente, os antagonismos entre as minhas duas avós me ensinaram muito sobre a vida.

Olinda Brichi Coneglian, nascida em 02 de junho de 1916. Nair Rosa de Oliveira da Silva, nascida em 26 de maio de 1940.

"Vó Linda" sempre foi Vó Linda e "Vó 'Nail'" - era assim que a chamávamos quando pequenos, a Vó Nair.

Ambas eram Geminianas: uma de maio, outra de junho. O aniversário delas tinham exatamente uma semana de diferença.

Se o aniversário da Vó Nair foi terça-feira, na terça seguinte era o aniversário da Vó Linda. Tinham, entretanto, 24 anos de diferença. Vó Nair tinha idade para ser filha da Vó Linda.

Como todo bom geminiano gostavam de falar e falar e falar. Porém, Vó Linda tinha uma voz tranquila, Vó Nair foi mais explosiva.

Vó Linda contava as histórias da família, de pessoas que já tinham partido. Vó Nair contava a história do "Berrador", provavelmente a primeira história de medo que ouvi na vida.

Vó Linda costurava e fazia crochê. Vó Nair fazia tricô.

Vó Linda casou de véu e grinalda, aos vinte anos. Vó Nair fugiu aos 18 para casar, desde os 15, cuidava dos irmãos menores, pois tinham perdido a mãe.

Ambas tiveram sete filhos. Vó Linda teve duas filhas e cinco filhos, o caçula é o meu pai. Vó Nair teve três filhas e 4 filhos, minha mãe é a segunda mais velha.

Vó Linda era branca. Vó Nair era preta.

Vó Linda foi Católica Apostólica Romana. Vó Nair foi Cristã Evangélica Pentecostal.

Vó Linda foi viúva por quase três décadas (28 anos). Vó Nair somente três anos.

Vó Linda não teve casa própria; morava com a filha mais velha. Determinada época, arrumava sua mala e fazia uma romaria pelas casas dos filhos e ali passava os dias que desejava, enquanto se sentia útil. Queria ajudar com as tarefas domésticas.

Vó Nair teve casa própria, humilde, de conjunto habitacional, reformada e melhorada ao longo dos anos. Foi a casa que eu, meus irmãos e primos passávamos alguns finais de semana, onde a família se reunia em datas comemorativas, especialmente, o Natal.

Vó Linda teve muitos netos, eu era um dos mais novos, junto com meus irmãos e poucos primos mais jovens. Vó Nair teve netos, bem menos, eu era o segundo.

Vó Linda vivenciou 19 anos da minha existência, não soube que me converti ao protestantismo, não soube que entrei na universidade, mestre e doutor.

Vó Nair participou de tudo isso e muito mais, abrigou minha namorada/noiva em sua casa por 8 meses, foi ao nosso casamento. Foi bisavó do Lorenzo e Benjamin. Veio conosco para Londrina na mudança. Foi comigo na UEL quando levei os documentos.

Vó Linda morreu aos 84 anos. Vó Nair, aos 80.

Vó Linda, branca, católica, viúva há 28 anos, sem casa, são 20 anos de saudades.

Vó Nair, preta, evangélica, viúva há três anos, morreu em sua humilde casa nesta madrugada, em minha cidade natal, Marília-SP. Não a vi enferma, mas já não era mais a mesma desde que meu avô faleceu. Não a verei no caixão. Será para mim como se tivesse simplesmente ido para o lugar que ela tanto almejava: sua morada celestial.

Vó Linda e Vó Nair estão juntas novamente. Minhas duas avós.