O Quarto do Menino

"No meu quarto que eu lia, escrevia, desenhava, pintava, imaginava mil projetos, criava outros mil objetos... Por isso, recebi o apelido de 'Menino do Quarto', título que adotei como pseudônimo e hoje, compartilho neste 'Quarto Virtual do Menino', o que normalmente ainda é gerado em meu próprio quarto". Bem, esse início já é passado; o 'menino' se casou (set/2008); há agora dois quartos, o do casal e o da bagunça... Assim, diretamente do quarto da bagunça, entrem e fiquem a vontade! Sobre a imagem de fundo: A primeira é uma reprodução do quadro "O Quarto" de Vicent Van Gogh; a segunda, é uma releitura que encontrei no site http://www.computerarts.com.br/index.php?cat_id=369. Esta longe de ser o MEU quarto da bagunça, mas em 2007, há um post em que cito o quadro de Van Gogh. Como disse, nada mais propício!!!... Passaram-se mais alguns anos, e o quarto da bagunça, já não é mais da bagunça... é o Quarto do Lorenzo, nosso primogênito, que nasceu em dezembro de 2010!

Mostrando postagens com marcador covid-19. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador covid-19. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, julho 08, 2021

PERDOE O ESCAMBAU


 O Primeiro Luto (Original em francês Premier Deuil) é um óleo sobre tela pintado em 1888 por William-Adolphe Bouguereau


Há alguns anos escrevi um poema intitulado “Perdoe se eu morrer”.

Sinto-me compelido, pelos meses de terror que vivemos com a pandemia e o crescente número de mortos no Brasil nesses primeiros meses de 2021, a repensá-lo, reescrevê-lo, reeditá-lo.

Perdoe o escambau!

Se eu morrer, serei mais um número na estatística divulgada todos os dias. E nada muda!

Se eu morrer, os verdadeiros culpados continuarão ilesos, debochando, chamando as dores de tantos enlutados de mi mi mi.

Se eu morrer, algumas pessoas que me conheceram em vida, ficarão tristes, farão homenagens das redes sociais, colocando fotos, e contando situações que vivemos juntos, desejarão “meus sentimentos”, “meus pêsames” aos meus familiares. E espero que tenham dor na consciência aqueles que votaram no presidente-genocida, mas será tarde, como já é tarde para tantos que morreram.

Muitos desses mortos, vítimas da própria escolha por terem votado nesse energúmeno, terem acreditado no tratamento precoce, aglomerado e não obedecerem às normas da OMS e demais normas restritivas.

Se eu morrer, minha família irá sentir todos os dias minha falta, passado o torpor da perda, a rotina é mais cruel para aqueles que ficam: ele acordaria essa hora, tomaria banho, faria o café, talvez iria na padaria se não tivesse pão.... mas deverão seguir sem mim. Deverão lutar pelas suas próprias vidas e se puderem, pelas vidas das pessoas desfavorecidas. Há tanto por fazer nesse mundo.

Façam por vocês, façam pelas pessoas, não por instituições, não em nome de ninguém, não pela promessa de um porvir em qualquer paraíso não terreno. A vida é aqui e agora e está sendo desperdiçada, como se as vidas das pessoas não valessem nada!

Se eu morrer de covid-19, vocês que permaneceram vivos, lutem para que os responsáveis, presidente e todos seus asseclas sejam responsabilizados civil e penalmente o quanto antes, por mim e por todos que morreram vítimas da incompetência e ingerência programada e proposital para deixar morrer, para matar!

Peço, suplico: valorizem nossas escolas públicas, universidades públicas, os professores, Educadores, o Sistema Único de Saúde, as demais instituições públicas. Valorizem a Ciência! Estudem, leiam, não tenham medo do PT, da Esquerda, do Comunismo sem antes entenderem o que está em jogo. Cresçam, amadureçam, participem das instâncias de decisões de escolha, não deixem escolherem por vocês.

A ingenuidade, o ódio gratuito e fantasioso ao PT nos trouxe para esse cenário de terror. Não estou defendendo o PT. Estou chamando a atenção para a maturidade. Analisar as situações de modo mais profundo. Estou cansado, esgotado. Perdi o encantamento com tudo. Sigo vivo pela minha família, esposa e filhos. Paula é forte! Não queria ter perdido o encantamento, entretanto, não foi uma escolha. Uma série de fatores me trouxe para esse nada, situações e pessoas!

Talvez, um dia, no futuro, caso não tenha morrido de covid ou qualquer outro motivo, ao reler esse texto eu possa rir, estar numa situação melhor que a atual. Sofrimento é ter consciência crítica num mundo que é essencialmente cruel!

E você, lendo esse texto, é porque está respirando. Encontre a missão da sua vida. Faça a diferença na vida. Não exija que ninguém seja como você, não deixe que as pessoas te coloquem em caixas ou formas pré-estabelecidas. Be brave! Be happy!

André Coneglian

23.03.2021

p.s.: 298.676 mortos até 23 de março de 2021. Hoje, 08 de julho de 2021 são mais de 529 mil mortos, ou seja, 230.324 pessoas morreram desde a escrita desse texto até a data de hoje, quando o compartilho aqui, em pouco mais de três meses. Perdi amigos, amigos perderam pais, cônjuges, perdi ex-aluno, alunos perderam pais... nos "habituamos" aos muitos óbitos...

sexta-feira, fevereiro 19, 2021

“DIZEI-ME COM POUCAS PALAVRAS*...”



O silêncio é minha veste nesses dias. Não é meu traje favorito, entretanto, o provisório silêncio é um pijama confortável para noites de sono. O pijama pode até ser confortável, mas tranquilo não é o sono, nem a noite, o dia, tempo algum. 

Cecília pede para dizer com poucas palavras aquilo que me atormenta... Não posso! Não consigo dizer com parcas “parole”... Há tanta dor, há tanto sofrimento... Dores e sofrimentos pessoais, não obstante, dói mais fundo a dor do coletivo.

Um coletivo de pobres e desassistidos! Pobres e desassistidos no qual me incluo - sem perspectiva de vacina e um retorno às atividades dos homens na Terra, todos abandonados e entregues ao deus Mercado e ao deus dará...

Despi-me brevemente de meu confortável silêncio-pijama por um motivo:

Ontem eu vi um pedido que me comoveu – sensível sempre fui; criei casca, transformou-se em couraça – mas encontro-me vulnerável.

Era uma jovem esposa clamando pela vida do jovem marido, internado com covid-19, com complicações no coração, ela pedia a todos, no vídeo.

“Tão corriqueiro nesse 2020 e 2021”, 240 mil pessoas perderam a vida. “Ah, mas afinal morreremos todos um dia”, podem argumentar os céticos, negacionistas e alienados alinhados ao bolsohitler tupiniquim.

Esse pedido foi diferente, foi feito em Língua Brasileira de Sinais, ela e ele são Surdos. Por que me comoveu tanto? A resposta não é simples, por isso, dizer com poucas palavras é difícil...

Há muitos anos uma amiga Surda chorou desesperadamente para mim. Não me recordo de choro mais triste, brotado no mais profundo âmago da alma, som gutural de quem não se ouvia a voz.

Não há palavra em Português, em Libras, em nenhuma língua para acalmar esse som gutural... Apenas abracei!

O clamor da jovem esposa em Língua de Sinais pelo jovem marido, para rezarmos/orarmos em favor dele, junto com suas lágrimas, foram como punhais em meu já abalado coração.

- Senhor das nossas pobres almas, que Sua Soberana Vontade alcance esse jovem casal. Os ouvidos surdos não ouvem som humano, mas creio que suas almas/espíritos podem ouvir o Céu.

Aproveito e peço pelo povo brasileiro: cego, surdo e mudo, hipnotizados por discursos e práticas de ódio e de homicídio em massa – armas ao invés de vacinas! – guiados por um “líder” desde sempre questionável, evidentemente equivocado, despreparado, que nunca escondeu suas intenções malignas.

Quase despi todo o pijama. Todavia, volto a ele, ao silêncio contemplativo. Sigo clamando, sigo pedindo. Que nossas súplicas – em alta voz, em meio tom, em silêncio, em Língua de Sinais, sejam todas atendidas.

Amém.

André Coneglian

17 fev. 2021



* Poema de Cecília Meireles, com mesmo título: “Dizei-me com poucas palavras”

 

quinta-feira, outubro 01, 2020

FUNERÁRIA SANTA LUZIA, SUA MORTE É A NOSSA ALEGRIA



Afirmo de antemão que não é objetivo ofender ninguém. Desejo apenas refletir sobre a morte como um negócio. Especialmente, nesses tempos em que a morte figura com mais frequência do que antes da pandemia causada pelo covid-19.

Na pandemia levantou-se a questão: será mais importante preservar as vidas das pessoas ou a economia que movimenta o mercado? Isolamento total ou parcial, etc.

De modo geral, fico a pensar, o que é mais vantajoso, em termos de negócio, no capitalismo, o que traz lucro seguro. Não sou economista, cientista político, muito menos estou defendendo o socialismo ou o comunismo. Quero simplesmente pensar na lógica que nos é imposta.

Se levantarmos as questões básicas para todo e qualquer ser humano, para a manutenção de uma vida confortável, eu listo: 1) alimentação; 2) trabalho; 3) moradia; 4) saúde; 5) educação; 6) lazer e 7) segurança. Parece que algumas questões caminham paralelas e são co-dependentes, por exemplo, saúde e segurança são necessários para trabalhar, conseguir comprar alimentos e pagar aluguel ou a prestação da casa e outras despesas.

Educação e lazer são necessários também para a manutenção da vida confortável, porém, dependendo do contexto social, econômico, podem ser entendidos como “supérfluos” ou “desnecessários”.

Pois bem, se tivesse a oportunidade de abrir um negócio, em que área seria? Uma premissa – das tantas outras – do capitalismo é criar a necessidade do consumidor para que ele deseje aquilo que ele não precisa, a priori. A pior premissa desse sistema é transformar em mercadoria com grande valor agregado, o que é item básico para a manutenção da vida: alimento, saúde e, claro que direi Educação. Educação básica, especialmente, nunca deveria ser mercadoria.

Abrir um comércio de alimento, pensando no alimento preparado, pronto para ser consumido. As pessoas têm vidas agitadas, comem fora de casa e, dependendo do lugar vale muito a pena, não comprar os itens e preparar aa refeições em casa, pois ainda tem o gasto com o gás da cozinha.

Porém, culinária, cozinha é algo que não me agrada. Tenho um amigo, cuja família toda trabalha nesse ramo. Vendem uma comida caseira deliciosa e compramos alguns dias na semana. Ir ao supermercado, comprar arroz, feijão, carnes, verduras e legumes. Preparar os alimentos. Disponibilizá-los no tempo e temperaturas adequados, acertar tempero e agradar os clientes. Lavar as panelas e demais utensílios usados na preparação; lavar pratos e talheres, no caso de clientes que consomem no local. Não! Definitivamente não abriria um comércio de alimentos.

Educação. As escolas particulares não têm alunos, têm clientes. Em sua maioria, visam o lucro, portanto, os professores não são remunerados adequadamente; possuem uma carga de trabalho altíssima, junto com um pressão psicológica muito forte. Já comercializei ensino, sim. Cursos de Libras. Porém, é um conhecimento muito específico; faz o curso e paga quem quer.

Saúde. Segurança. Lazer. Não vou me aprofundar em todos esses itens. A carga tributária no Brasil é altíssima. Sim, sabemos disso. Os impostos, a priori, deveriam proporcionar serviços públicos de qualidade a toda população: Educação, Saúde, Segurança, Transporte, tudo de qualidade. Porém, sabemos que a corrupção e a má gestão dos recursos públicos, basicamente, abrem duas vias bem distintas.

A primeira via: abre-se a “oportunidade” para a iniciativa privada lucrar com Educação particular, Planos de Saúde e de outros setores serem comandados e balizados pela iniciativa privada. A segunda via é: o pobre, considerando o pobre que tem trabalho formal, paga aluguel ou a prestação da casa, outras despesas – água, luz, alimentação, com os filhos na educação pública; a ele e seus familiares “resta” a saúde pública, que pode – e deve – ser eficiente.

Entretanto, os partidos políticos e seus representantes eleitos legislam e executam a legislação para o sucateamento desses serviços. E manipulam as informações para fazer a população acreditar que os serviços públicos são as verdadeiras fontes de mazelas da economia no país. A população, que não tem educação de qualidade, acredita e vota no lobo mau que “cuida” dos porquinhos.

Qual é o ramo mais lucrativo? Vamos afunilar a escolha: qual é o ramo mais lucrativo, mesmo tem tempos de dificuldades econômicas?

Ao considerar as poucas argumentações acima, creio que não é o ramo da alimentação o mais lucrativo, afinal, tem pessoas que não compram comida pronta, compram no mercado e fazem em casa. Tem pessoas que nem comem em casa, pois não tem casa. Tem pessoas que não tem casa, nem comem todos os dias e, aos milhares, morrem!

Saúde só é um negócio lucrativo para quem é dono do negócio, que precisam de clientes que paguem pelos serviços de saúde que vendem. Quem não tem plano de saúde, usa o SUS. Quando o SUS falhar, como eu disse, por má gestão dos recursos, corrupção e tantos outros crimes, os pobres adoecem, a doença pode agravar e, morrem!

Educação, já comentei acima, deveria ser universal, gratuita e de qualidade para todos. Até mesmo as universidades. O que não significa que não deva existir faculdades e universidades particulares. O que não pode é querer destruir a universidade pública para privilegiar o mercado, “educação como mercadoria”. O que não pode é dinheiro público ser injetado nas particulares, como foi o PROUNI, pois, ainda que o objetivo seja justificável – oportunizar o acesso do pobre ao ensino superior – que o poder público faça isso por meio da universidade pública e não privada. Vamos investigar os desvios e abusos que ocorreram com as verbas destinadas ao PROUNI e FIES?

Não ter educação não mata, a priori! Porém, ouso afirmar que a médio e longo prazo, a ignorância é uma arma letal e tem matado aos milhares também. Os mais vulneráveis são os pobres. Morrem os pobres alfabetizados, os pobres analfabetos, os pobres sempre morrem!

Segurança pública, bah. Não vou me estender mais.

A morte é, em suma, o ramo mais lucrativo! Pobres e ricos morrem – mais pobres que rico, pois proporcionalmente, há mais pobres do que ricos. Pobres e ricos querem enterrar com dignidade seus mortos. Para se diferenciar do pobre, os ricos criaram outras opções, como a cremação, como opção ecologicamente correta, inclusive.

Mesmo em tempos de guerra, eu estava tentado a dizer que a morte não é lucrativa. Como não? O que são as guerras, senão produção em massa da morte. Pode-se não lucrar com caixões e rituais, afinal, corpos e corpos são jogados em valas coletivas. Basta lembrar o holocausto – é dever nunca esquecermos!

A primeira vez que ouvi a frase do título “Funerária Santa Luzia, sua morte é a nossa alegria!”, a pessoa disse atendendo o telefone, como pegadinha. Achei de uma deselegância, de uma afronta, de um desrespeito com a morte. Passados alguns anos, vivido o que vivi – individualmente e, também observando o comportamento da humanidade nesses tempos de pandemia, tendo o Brasil como um dos piores países a enfrentar o problema, chego a cogitar: por que não?

Claro que não! Não tenho estrutura para trabalhar diariamente com a morte e ainda mais lucrando com isso. Enterramos um passarinho, enterramos o Blup Blup (peixinho do Lorenzo), enterramos os gambás... quantos e quantos velórios e enterros de familiares, amigos e conhecidos...

Viver e morrer para os humanos não é tarefa pouca!