O Quarto do Menino

"No meu quarto que eu lia, escrevia, desenhava, pintava, imaginava mil projetos, criava outros mil objetos... Por isso, recebi o apelido de 'Menino do Quarto', título que adotei como pseudônimo e hoje, compartilho neste 'Quarto Virtual do Menino', o que normalmente ainda é gerado em meu próprio quarto". Bem, esse início já é passado; o 'menino' se casou (set/2008); há agora dois quartos, o do casal e o da bagunça... Assim, diretamente do quarto da bagunça, entrem e fiquem a vontade! Sobre a imagem de fundo: A primeira é uma reprodução do quadro "O Quarto" de Vicent Van Gogh; a segunda, é uma releitura que encontrei no site http://www.computerarts.com.br/index.php?cat_id=369. Esta longe de ser o MEU quarto da bagunça, mas em 2007, há um post em que cito o quadro de Van Gogh. Como disse, nada mais propício!!!... Passaram-se mais alguns anos, e o quarto da bagunça, já não é mais da bagunça... é o Quarto do Lorenzo, nosso primogênito, que nasceu em dezembro de 2010!

terça-feira, março 04, 2025

TEM SANGUE ETERNO A ASA RITMADA

O título do texto é um verso do poema "Motivo" de Cecília Meireles.

Cecília linda!

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.


Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

- não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

- mais nada.

"Sei que canto. E a canção é tudo./ Tem sangue eterno a asa ritmada." Sangue tomado como sinônimo de vida (sangue eterno) dada pela asa ritmada, ou seja, o canto, a canção, o ritmo, a melodia; "E um dia sei que estarei mudo", o eu-lírico registra a sua morte terrestre. Aparentemente contraditório: eternidade/morte, porém, a vida daquele que entoou seu canto não se acabará. Está eternizada por meio daquilo que cantou!

Cecília dispensa apresentações. Poeta Maior da nossa Língua Portuguesa. Inteligente. Livre Pensadora. Às vezes, pergunto-me se Cecília seria esta Cecília se os pais não tivessem morrido e, portanto, não fosse criada pela avó materna, Jacinta Garcia Benevides.

Na entrevista ao jornalista Pedro Bloch, Cecília diz que todo este cenário pré-nascimento (a morte de dois irmãos e uma irmã, do pai), a morte da mãe antes de completar três anos de idade, o cuidado extremo da avó com medo de perdê-la, como perdeu os demais netos, genro e filha, a solidão desta menina, contribuíram para sua formação, desta que produziu um inventário da Natureza e dos vastos sentimentos humanos.

Especulações à parte, o objetivo inicial do texto foi listar os poemas que têm como título "Canção", espalhados em seus vários livros publicados. Há muitos destes poemas que levam "canção" com um complemento: "Canção póstuma", "Canção do caminho", "Canção da tarde no caminho".

Há ainda outros poemas cujos títulos e temas se relacionam com "canção", como "música", "serenata", "cantiga", "som"... não incluirei na relação referência a danças (“valsa”) ou instrumentos músicas ("guitarra").

Usei o livro "Obra poética", edição de 1991, sétima impressão da terceira edição, da Editora Nova Aguilar, para produzir a listagem. E, para além da listagem, farei breves comentários sobre alguns desses poemas, algumas estrofes e versos que me saltam aos olhos e vão direto ao coração e impregnam a alma.

Hoje pela manhã (04/03/2025), ao ir caminhar, pensei que poderia expandir o texto com relações e associações com o ato de cantar, a expressão artística de se expressar com música. Por exemplo, a máxima do filósofo Friedrich Nietzsche: "Sem a música a vida seria um erro". Lembrei de um trecho da letra "Música è", em italiano, cantada por Eros Ramazzotti e Andrea Bocelli: “Perché un mondo senza musica/ Non si può neanche immaginare”, mas toda a letra é uma celebração da música, desde as canções de ninar até poder expressar as dores e as alegrias do amor, da vida, da morte. 

Ou seja, música como sinônimo de vida, vida completa, vida realizada!

Meu convívio com as pessoas Surdas, que perderam a audição por “N” fatores, me fez perceber e entender que passam pela sensação auditiva de outro modo, com outros sentidos. O som é uma força mecânica que se propaga pelo ar e, dependendo da intensidade, é sentida pelos ossos (buscar por exemplo, a função da mastoide), o próprio sistema auditivo funciona pela vibração dos três menores ossos do corpo humano (martelo, bigorna e estribo).

Surdos dançam! Surdos gostam de música!

Também gosto de saber que o telefone, criado por Alexander Grahan Bell, só existe em função das pessoas Surdas. A mãe de Alexander era surda e ele também se casou com uma mulher surda. É preciso registrar que não entendiam as pessoas Surdas como uma comunidade, que tem sua própria língua (cada país ou região com sua Língua de Sinais).

Seguiam uma linha eugenista – surdo não pode casar com surdo para não procriar genes da surdez e tinham uma perspectiva corretiva – criar instrumentos, próteses e reabilitações clínicas para trazer a pessoa “deficiente” o mais próximo da “normalidade” de audição e oralidade. Daí a invenção do telefone.

No congresso de 150 anos de fundação do Instituto Nacional de Educação de Surdos, no Rio de Janeiro, em setembro de 2007, tive a oportunidade de conhecer por primeira vez a cidade do Rio de Janeiro e, entre outras aventuras, na cidade e congresso, como ir até o último endereço onde Cecília Meireles viveu - em Cosme Velho. No congresso comprei o livro “Sobre o silêncio”, da jornalista Andréa Perdigão.

Andréa entrevista várias pessoas de diferentes campos de atuação e as questiona sobre o silêncio. A entrevista que mais me marcou foi com a atriz Fernanda Montenegro, em razão da concepção que a atriz tem sobre o silêncio. Basicamente, que o silêncio, em vida não existe, ainda que não haja som nenhum, a mente está funcionando, ou seja, não é silêncio.

Uma vez vi uma reportagem sobre um povoado na Índia, cujas mães, dão aos seus filhos uma canção como identidade,  não existe uma canção igual à outra. Aqui disponibilizo um link com uma reportagem da BBC Brasil, e quem não quiser ler a reportagem na íntegra, recomendo ver o vídeo com uma mãe e seu bebê no colo e ouça a mãe cantando a identidade do bebê. A vila indiana onde os nomes das pessoas são músicas

Sei também que há um outro povoado (nas Ilhas Canárias, La Gomera) na Espanha que se comunicam por assobios.

Se expandir para o reino animal a questão do canto, para além dos pássaros – como os pinguim-imperadores que cantam para encontrar o amor, outras espécies utilizam o canto como forma de comunicação e, portanto, de preservação e manutenção da existência.

Voltando à Poeta Maior, Cecília foi violinista, estudou no conservatório, queria escrever uma ópera para homenagear o apóstolo Paulo. Porém, o magistério possibilitou campo de trabalho, depois o jornalismo e, em 1929, quando ficou em segundo lugar para a cadeira de Literatura da Escola Normal do Distrito Federal (Rio de Janeiro), seguiu a vida escrevendo e publicando (entre outras ações deste ser humano ímpar). Poemas de Cecília foram e seguem sendo musicados, haja vista a construção estilística da Poeta.

Já registro aqui a ideia para um próximo texto que nasceu antes deste inclusive: uma investigação cronológica das viagens internacionais de Cecília e as produções que surgiram neste período ou sobre estas viagens.

Na listagem que produzi hoje, conforme as especificações acima, encontrei 15 poemas com o título “Canção”. O livro “Viagem” e “Mar Absoluto” têm três poemas cada um, “Dispersos” tem um e o campeão é “Retrato Natural” com oito poemas.


Canção, 88, 89, 91 (Viagem)

Canção, 237, 282, 285 (Mar Absoluto)

Canção, 329, 331, 332, 338, 340, 351, 356, 363 (Retrato Natural)

Canção, 619 (Dispersos)

 

“Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.”

(“Canção”, 4ª estrofe, p. 88)

 

“Nunca ninguém viu ninguém

que o amor pusesse tão triste.

Essa tristeza não viste,

e eu sei que ela se vê bem...

Só se aquele mesmo vento

fechou teus olhos, também...

(“Canção”, 4ª estrofe, p. 89)

 

“Eu te esperei todos os séculos,

sem desespero e sem desgosto,

e morri de infinitas mortes

guardando sempre o mesmo rosto.”

(“Canção”, 2ª estrofe, p. 91)

 

“Ouvi cantar de tristeza,

porém não me comoveu.

Para o que todos deploram,

que coragem Deus me deu!

 

Ouvi cantar de alegria.

No meu caminho parei.

Meu coração fez-se noite.

Fechei os olhos. Chorei.

 

Dizem que cantam amores.

Não quero ouvir mais cantar.

Quero silêncios de estrelas,

voz sem promessas do mar.”

(“Canção”, na íntegra, p. 237)

 

“Cada qual tem sua vida:

uns, de deserto, uns, de flor.”

(“Canção”, versos 11 e 12, p. 282)

 

“Quando o tempo em seu abraço

quebra meu corpo, e tem pena,

quanto mais me despedaço,

mais fico inteira e serena.

Por meu dom, divino faço

tudo a que Deus me condena.”

(“Canção”, 2ª estrofe, p. 285)

 

“Eras um rosto

na noite larga

de altas insônias

iluminada.

 

Serás um dia

vago retrato

de quem se diga:

‘o antepassado’.”

(“Canção”, 1ª e 2ª estrofes, p. 329)

 

“Amadores deste mundo,

nas águas vosso amor ponde;

que elas vos darão resposta,

quando ninguém responde.”

(“Canção”, última estrofe, p. 331)

 

“Quando alguém passa e ainda murmura,

abro os olhos, quase assustada.

A voz humana é absurda, obscura,

sem força para dizer nada.”

(“Canção”, 2ª estrofe, p. 332)

 

“[...]

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,

que amanhã morro e não te vejo!

 

[..]

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,

que amanhã morro e não te escuto!

[...]

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,

que amanhã morro e não te digo...”

(“Canção”, dois últimos versos de cada estrofe, p. 338)

 

“Não por mim, mas por ti choro,

- por teu pálido momento.

Vou-te dando a vida toda,

e assim mesmo vais morrendo...”

(“Canção”, última estrofe, p. 340)

 

“Quero um dia para chorar.

Mas a vida vai tão depressa!

- e é preciso deixar contida

a tristeza, para que a vida,

que acaba quando mal começa,

tenha tempo de se acabar.”

(“Canção”, 1ª estrofe, p. 351)

 

“Se de novo passares,

não procures por mim.

Preservemos o fim

dos saudosos olhares.”

(“Canção”, 1ª estrofe, p. 356)

 

“Mais que a mão do amor,

é tépida a terra

que guarda sem guerras

a caveira e a flor.

 

Melhor que os amigos,

fala a solidão,

sem opinião

sobre o que lhe digo.

 

Sozinha me vi,

Sozinha me vejo.

Que tristes desejos

pascem mais aqui?

(“Canção”, 1ª a 3ª estrofes, p. 363)

 

“Não há esperança nenhuma em teu nome,

não há duração, firmeza, verdade,

de dura inconstância é teu nome feito

ele mesmo se apaga, ele mesmo se apaga.”

(“Canção”, última estrofe, p. 619)

 

Cecília, com a leitura desses poemas e estrofes que destaco, será que consigo enxergar/sentir um padrão? Cantas para a(s) pessoa(s) que amastes?

Aqueles poemas com “canção” mais complemento, destaco abaixo em uma tabela. Toda a listagem pode ser vista em PDF neste link.


1.      

Canção da menina antiga

Vaga Música

145

2.      

Canção excêntrica

Vaga Música

148

3.      

Canção quase inquieta

Vaga Música

148

4.      

Canção do caminho

Vaga Música

152

5.      

Canções do mundo acabado

Vaga Música

154

6.      

Canção quase melancólica

Vaga Música

155

7.      

Canção de alta noite

Vaga Música

157

8.      

Canção suspirada

Vaga Música

159

9.      

Canção mínima

Vaga Música

163

10.   

Canção nas águas

Vaga Música

174

11.   

Canção a caminho do céu

Vaga Música

180

12.   

Canção do carreiro

Vaga Música

182

13.   

Canção da tarde no campo

Vaga Música

186

14.   

Canção do deserto

Vaga Música

196

15.   

Canção para remar

Vaga Música

197

16.   

Canção dos três barcos

Vaga Música

202

17.   

Canção no meio do campo

Retrato Natural

313

18.   

Canção quase triste

Retrato Natural

317

19.   

Canção romântica às virgens loucas

Retrato Natural

327

20.   

Canção póstuma

Retrato Natural

331

21.   

Canção de um caminho da Espanha

Dispersos

607

22.   

Canção do deserto

Dispersos

610

23.   

Canção do menino que dorme

Poemas escritos na Índia

635

24.   

Canção para Sarojíni

Poemas escritos na Índia

656

25.   

Cançãozinha para Tagore

Poemas escritos na Índia

663

26.   

Cançãozinha para Haiderabade

Poemas escritos na Índia

665

27.   

Canção do amor-perfeito

Retrato Natural

330

28.   

Canção do amor-perfeito

Retrato Natural

340

29.   

Canção da indiazinha

Crônica Trovada

738

30.   

Canção do Canindé

Crônica Trovada

739

 

E na última tabela abaixo, os demais poemas com títulos relacionados à “canção”, sinônimos ou palavras afins:

1.      

A doce canção

Vaga Música

156

2.      

A última cantiga

Viagem

086

3.      

A vizinha canta

Vaga Música

163

4.      

Acalanto

Mar Absoluto

285

5.      

Ária

Retrato Natural

353

6.      

Assovio

Viagem

128

7.      

Balada das dez bailarinas do cassino

Retrato Natural

324

8.      

Balada de Ouro Preto

Retrato Natural

343

9.      

Balada do soldado Batista

Mar Absoluto

248

10.   

Cantar

Viagem

120

11.   

Cantar de vero amor

Dispersos

621

12.   

Cantar guaiado

Mar Absoluto

282

13.   

Cantar saudoso

Mar Absoluto

271

14.   

Cantarão os galos

Retrato Natural

317

15.   

Cantata da cidade do Rio de Janeiro

Dispersos

622

16.   

Cantata matinal

Retrato Natural

314

17.   

Cantata vesperal

Retrato Natural

322

18.   

Cantiga

Viagem

115

19.   

Cantiga

Viagem

131

20.   

Cantiga

Viagem

133

21.   

Cantiga do véu fatal

Vaga Música

168

22.   

Cantiguinha

Vaga Música

204

23.   

Cantiguinha

Viagem

096

24.   

Canto

Dispersos

617

25.   

Canto aos bordadores de Cachemir

Poemas escritos na Índia

673

26.   

Canto da Acauã

Crônica Trovada

739

27.   

Chorinho

Vaga Música

198

28.   

Doce cantar

Mar Absoluto

246

29.   

Embalo da canção

Vaga Música

158

30.   

Interlúdio

Vaga Música

183

31.   

Madrigal da sombra

Vaga Música

186

32.   

Melodia para cravo

Retrato Natural

316

33.   

Motivo

Viagem

081

34.   

Música

Poemas escritos na Índia

653

35.   

Música

Vaga Música

147

36.   

Música

Viagem

084

37.   

Pequena canção

Vaga Música

163

38.   

Pequena canção da onda

Vaga Música

145

39.   

Ritmo

Vaga Música

143

40.   

Serenata

Retrato Natural

326

41.   

Serenata

Viagem

085

42.   

Serenata

Viagem

113

43.   

Serenata ao menino do hospital

Vaga Música

169

44.   

Som

Viagem

099

45.   

Som da Índia

Poemas escritos na Índia

633

46.   

Tardio canto

Vaga Música

167


Encerro aqui o texto e meu árduo trabalho de hoje. Como disse em outro momento, Cecília me leva à excelência, me “obriga” a ser melhor. Pesquisei muitas palavras. Conheci um pouco a fantástica história de Sarojíni, primeira mulher presidente do congresso indiano, por conta do poema “Canção a Sarojíni”, inclusive, “Cançãozinha a Haiderabade” é a cidade de origem desta mulher histórica. Quanto aprendizado!

Sarojíni Naidu (Fonte: Wikipedia)

       

        Porém, ainda voltarei a estas tabelas e lerei/relerei cada poema listado, e, claro, elevar meu vocabulário e conhecimento, pois Cecília segue sendo professora. Cecília me emociona! Suas palavras, construções de imagens me arrebatam!

Bem, espero não ser uma voz solitária no deserto. Se você, leitora, leitor, chegou até aqui, agradeço e te convido a ler os poemas, as crônicas, tudo que Cecília produziu.

Merci beaucoup!


domingo, janeiro 12, 2025

QUATRO VEZES ONZE

Londrina-PR, 11 de janeiro de 2025. Manhã de sábado. Férias.

A medida de referência hoje é 11. Dia 11, do primeiro mês, do ano “quadrado perfeito" (452), apenas uma pequena referência a vários vídeos produzidos em razão de 2025 ser esse quadrado perfeito – para o deleite de quem gosta de matemática (não é o meu caso). Entretanto, lembro que 2025 depois de Cristo é somente uma das muitas referências de ano.

Retornando a referência 11, apenas para sair do sistema decimal tradicional, para escrever sobre a proximidade do meu quadragésimo quarto aniversário. Quando completei 4 décadas (lá em janeiro de 2021) escrevi um texto sobre estas quatro décadas: até os 10 anos, e depois que fiz até os 20, e 30 e 40.

Não quero reler este testo agora, mesmo correndo o risco de ser repetitivo (sempre sou!). Afinal, 11 anos, 22 anos, 33 anos e agora 44 anos, se difere apenas pelos últimos quatro anos (dos 40 do último texto).

Todavia, como o autor sou eu, o aniversariante sou eu, e o "EU" é um demônio egoísta narcisista, ficarei feliz se leitor/interlocutor tiver. Recordo aqui a doce e querida Professora Stela Müller, da Universidade Estadual Paulista, que numa das suas aulas disse: "o texto existe para o outro, para ser lido pelo outro, ainda que o outro seja o próprio autor, em caso de diários ou textos mais intimistas".

Claro que reproduzo entre aspas uma essência do que permaneceu em minha memória o que ela disse naquela ocasião. Assim, o Eu quase aniversariante deseja escrever um texto pré-aniversário tendo como referência a medida de 11 anos. Quatro vezes onze é igual a quarenta e quatro. Óbvio.

Não tão exato e óbvio é o existir por esses 44 anos. Por eu ter amado ser aluno, por amar conhecer, aprender... A felicidade (hoje, tola) de relacionar o aprendido na escola com a vida cotidiana, como quando a Profa. Edméia Sola, na 4ª série, em Estudos Sociais, ensinou a. logística dos números das casas: um lado são números pares, do outro, números ímpares. Quando minha mãe foi me buscar, pude comprovar empiricamente. É como se a professora tivesse descortinado algo que sempre esteve ali e nunca tinha visto.

Nascer em dia, mês e ano ímpares (15-01-1981), que inclusive se relaciona com o texto que escrevi no primeiro dia do ano de 2025 – sobre ser o primeiro (letra inicial “A” no nome, primeiro filho dos meus pais, nascer em janeiro, etc) outra relação com conhecimento matemático escolar: par com par é par, ímpar e ímpar também é par, somente par e ímpar é ímpar. Deste modo, todo ano ímpar tenho idade par (2025 – 1981 = 44), todo ano par (2024) tenho idade ímpar e assim vou me despedindo dos 43 anos.

Aos 11 anos (1992) eu estava na 5a série (atual 6º Ano do Ensino Fundamental). Cursando a disciplina de Inglês, com Dona Guacira, elegantérrima, no SESI em Marilia-SP. Eu sonhava cursar Inglês. Aos 11 anos era uma criança velha, Menino do Quarto no forninho. Onze anos depois, aos 22 anos, em 2003, vejam o salto, estava no 2º ano da faculdade.

Esses dias, eu me lembrei que aos 16 anos, coloquei na cabeça que queria ser emancipado e mesmo com poucos recursos, levei meus pais ao cartório e eles me emanciparam. Para que me serviu? Objetivamente, para nada. Arqueologicamente, quando penso nesta - e outras situações, eram indícios do meu desejo de ganhar o mundo, conhecer lugares, países, aprender idiomas, vivenciar culturas diferentes... Realmente foi um sonho casar com uma estrangeira!

Avançando mais 11 anos, com 33 anos (2014), casado, pai do Lorenzo, morando em Londrina -PR, aguardávamos o nascimento de Benjamin. Inclusive, foi no dia 15/01/2014 o ultrassom que Paula fez e descobrimos que era o Benjamin (e não era a Izabel que não veio e não virá). Lembro que no texto das 4 décadas, apontei ser esta a década de maior mudança: graduação, mestrado, casamento, paternidade, doutorado.


Considerando a referencia 11, neste 3º período, acrescento a mudança de Estado/cidade e o nascimento do Benjamin, que quem acompanhou sabe que no 6º mês de gestação, Paula teve toxoplasmose. E em junho próximo, Benjamin completa 11 anos.

E estes últimos 11 anos, também foram repletos de grandes e profundas mudanças. O milagre da alta de Benjamin aos dois anos do acompanhamento da toxoplasmose congênita, devido a nossa declarada vida religiosa como protestantes evangélicos, atribuímos todo mérito ao deus cristão. E, ao escrever "deus' com letra minúscula, não estou desprezando nem desmerecendo a religião, nem desrespeitando as pessoas que acreditam. É importante para mim. Uma das formas concretas de afirmar e reafirmar que não faz mais parte do meu Universo particular a ideia do deus cristão e, consequentemente, o deus judeu, o deus islâmico, este deus todo poderoso que criou a humanidade para atormentá-la.

Mas, e o milagre na vida do Benjamin? Bem resumidamente, para não ser cético total, eu atribuo às energias. Como assim? Quando passei a ressignificar este episódio em nossas vidas, a manhã de domingo no culto em que subimos no palco e as pessoas presentes estenderam as mãos e oraram pela vida e saúde do bebé, eu associei com aquela cena do filme “Avatar” (James Cameron, 2009), quando os Na'vi estão em sofrimento pela destruição de seu ambiente. Desde o início do filme, somos apresentados à conexão que existe entre os Na'vi e tudo o que existe, porém, nesta cena a que me refiro, todos juntos, sentados, e entoando um mantra e um grande milagre acontece. Não um milagre mágico. As forças viventes se unem num propósito comum, lutam por esse propósito e derrotam os exploradores, destruidores, porém, o mal feito, feito está.

De algum modo, na vida real, acredito que se um grande coletivo de humanos concentram sua energia para um propósito em comum, alguma mudança acontece. Mas, não farei disso minha religião, não inventarei dogmas, regras, culto e adoração para esta percepção particular.

Parece que desviei do objetivo principal do texto, entretanto, considero relevante este “parêntese”, pois representa bem a grande mudança neste último período de 11 anos, especialmente em relação à espiritualidade, mais conscientemente, mudança iniciada em 2018.

Como encerrar este texto? Quisera eu eleger um trecho, um verso... ontem pela manhã, eu reli “Elegia”, homenagem de Cecília Meireles para sua avó materna, mãe de criação, Jacinta Garcia Benevides. Nossa! É composto por oito poemas escritos entre 1934 a 1937. Jacinta faleceu em 1931. Vale muito a pena conhecer e ler na íntegra. Inclusive, só a título de curiosidade, versos da "Elegia", na tradução inglesa, foram citados no velório da Princesa Diana.

Por minha vez, são estes versos que escolho para encerrar este texto:

"Neste mês, começa o ano, de novo,/ e eu queria abraçar-te./ Mas tudo é inútil:/ eu e tu sabemos que é inútil que o ano comece."

(Mar Absoluto / Retrato Natural. Editora Nova Fronteira, 1983, p. 177). 

quinta-feira, janeiro 02, 2025

"MUITO TEMPO ATRÁS ISSO ACONTECEU, E ESTÁ ACONTECENDO AGORA"

Londrina-PR, 01 de janeiro de 2025. [01/01/2025]

Hoje é feriado. Nos calendários comuns consta como "Confraternização Universal". Só mais uma contradição. Nada diferente da Hipocrisia Universal. Agora, em que inicio este texto, são 18h35m. Mais cedo, no banho, pensei: "quero escrever algo com minha destra hoje! Registrar a data 01/01/2025". E pensei num possível tema, por exemplo, as coincidências da minha insignificante existência. Sempre gostei de meu nome ser iniciado com a letra "A". Primeira letra do alfabeto (o alfabeto latino, claro). E as outras opções de nomes da minha mãe, tinha outro nome com a letra "A": Álvaro! Tão sonoro. Mas gosto de André Luís, ou me acostumei com ele (43 anos). É considerado o Espírito Evoluído no Espiritismo. Apenas para constar, a outra opção, a terceira, era Pedro Henrique. Também gosto de ter nascido no mês de janeiro. Primeiro mês do ano. Não é no primeiro dia do mês do ano, mas é na primeira quinzena do primeiro mês do ano. Gosto de ser um capricorniano - ou me acostumei a ser. Brinco que tenho medo dos aquarianos. E, segundo minha mãe, eu nasci prematuro, duas semanas pelo menos, ou seja, eu nasceria no final do mês de janeiro, seria um aquariano. Sou (fui) o primeiro filho dos meus pais. Assim, essa tríade, essas coincidências de ser o primeiro filho, nascido no primeiro mês do ano (de 1981), na primeira quinzena, e receber o nome com a primeira letra do alfabeto, consciente ou inconscientemente, ao longo da minha vida, me deixavam feliz. Mesmo sendo extremamente tímido, em nível patológico, o filho de pedreiro e dona de casa, bem-educado, excelente aluno, entretanto, inocente, neófito, bobo, idiota para as questões do mundo, da vida cotidiana no mundo, das malícias. É muito interessante e até assustador chegar à constatação, depois de muitos anos, de que nada do que sofri, nenhum dos meus traumas, dores e questionamentos foram exclusivos ou inéditos. Há um padrão. Nascer e crescer e tornar-se consciente e persistir nessa tomada de consciência, chegar à conclusão de sou uma repetição dos sofrimentos humanos. E por ser este indivíduo, com minha identidade, meus pais, contexto histórico e social, o egoísmo grita: tadinho! como sofre! porque? porque? Lembrei daquele aforismo de Clarice Lispector: ""Nascer estragou-me a saúde!". Acho que é assim, escrevendo de memória, sem pesquisar. E, o que fazer com a constatação de que sou só mais um? Seguir! Sou mais um peão neste tabuleiro, tenho lá minha significância pelos postos assumidos: filho, irmão, amigo, marido, pai... mas todos somos mais um, peões e peões neste imenso tabuleiro. Bem, a guisa de conclusão, ao pensar no que escreveria hoje, também pensei na imposição do sistema capitalista: "Time is money!". Celebrar o novo (ano), fazer planos, olhar o futuro, amanhã e semana que vem e os próximos meses e logo será dezembro novamente e de novo 01 de janeiro, até chegar a minha vez de ganhar uma lápide, mas seguirá a lógica: amanhã, semana que vem, e meus filhos terão 90 e 94 anos, amanhã e semana que vem e o próximo ano...Lembrei quando me deparei com outra perspectiva de tempo, ou de relação com o tempo. Os Aymarás contemplam o passado! Ou seja, à frente deles está o passado, a ancestralidade. Daí a importância da tradição oral, do respeito aos mais velhos. O futuro é desconhecido, não é possível olhar para ele com a nuca. Sinto a emoção, a paz que me invadiu naquela ocasião, a tranquilidade que esta perspectiva da relação com o tempo proporciona! Todavia, tudo é constructo, certo? Quero dizer, é mais uma das muitas possibilidades de entender e de habitar o mundo. Pena que muitas das "opções" impostas à humanidade são nocivas à maioria dos seres viventes e ao meio ambiente desses seres viventes, que, ao final das contas, é tudo uma "coisa" única. É isso, Escrevi! Aliviei esta tensão, esta necessidade de escrever, registrar algumas palavras... Nada muda. Seguirei o fluxo. Férias até dia 18/01. Depois recesso até 29/01. Dia 15/01/2025 completarei 44 voltas ao redor do sol. Talvez escreva mais ou não... André Coneglian, 19h13m.





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Depois de escrever este texto, terminei de ler o livro que Lorenzo disse para eu ler ("Quatro", da Veronica Roth, da trilogia Divergente, Insurgente e Convergente) e quis relembrar minhas impressões de leitura do livro "O oposto de todo mundo", de Joshilyn Jackson. Peguei o livro, pesquisei a postagem que fiz nas redes sociais quando encerrei a leitura à época... e o título da postagem de hoje, é uma frase dita pela mãe da narradora (Paula), uma frase marcante para mim desta história, que acaba resumindo parte do que escrevi: aconteceu há muito tempo atrás, e de novo e novamente e mais uma vez...

Ainda, encontrei uma referência a um texto do Umberto Eco ("Como começa, como termina", em "Diário Mínimo"), em que ele narra os tempos de universitário de poucas posses financeiras... o texto termina assim: "Seremos, então, mais felizes? Ou teremos perdido o frescor de quem tem o privilégio de viver a arte como a vida, na qual entramos quando os jogos já foram feitos e de onde saímos sem saber como acabarão os outros?". Os "jogos" é a vida, ou seja, os jogos já estavam acontecendo quando chegamos e iremos embora sem saber como termina, hahahahahaha



 


domingo, outubro 20, 2024

UM COPO DE VINHO

Publicado originalmente no Facebook, em 20 de outubro de 2020:

Venho por meio da minha rede social informar a todos quantos interessar possa que:

Não sou mais o mesmo André da década de 1980, nem de 1990, 2000, 2010, muito menos de janeiro, fevereiro, março de 2020. Menos ainda de setembro, outubro, de ontem, de agora pouco.

Isso implica dizer que a mudança é constante, perene. Sou resultado inacabado das múltiplas influências externas que, passando ou não pelos filtros internos e, ora tendo êxito esses filtros, ora não, sendo, portanto, modificado constantemente. Isso não é ruim, pelo contrário (a metamorfose ambulante).

Uma música nova, um concerto, um texto literário, um poema, um texto acadêmico, a preparação de uma prova, novas ferramentas e tecnologias. Terminei de ler o texto de Edgar Morin "Da necessidade de um pensamento complexo", para a aula de amanhã.

Sim, voltei a ser aluno, depois de quase oito anos que terminei o doutorado (Ciência da Informação). Pretendo fazer o segundo (Doutorado em Educação). Entretanto, estou me deleitando no aqui e agora, a condição de aluno especial na disciplina sobre Complexidade e Pensamento Sistêmico, com a querida Profa. Carla Blum Vestena

Leiam esse pequeno trecho do texto e digam se não é de iluminar e explodir a cabeça (no mais maravilhoso sentido de explosão da cabeça, claro):

"[...] sabemos que todos os progressos adquiridos podem ser destruídos pelos nossos inimigos mais implacáveis: nós mesmos, dado que hoje a humanidade é a maior inimiga da humanidade.

Sabemos, atualmente, que o progresso deve ser regenerado; sabemos ainda que a barbárie constitui uma ameaça, e vivemos mais do que nunca na incerteza, porque ninguém pode adivinhar o que será o dia de amanhã.

O nosso destino é, pois, incerto, e ninguém sabe qual o destino do Cosmos.

Devemos, porém, nos situar-nos nesta incerteza. A nossa situação é, em virtude desta constatação, extremamente complexa, porque somos integralmente filhos do Cosmos e estranhos a esse mesmo Cosmos.

[...] Se pegarem um copo de vinho do Porto e o interrogarem, podem ter certeza de que nesse vinho do Porto há partículas que se formaram nos primeiros segundos do Universo, ou seja, há cerca de sete a quinze milhões de anos; há também o hidrogênio, um dos primeiros elementos a ser formado no Universo, e produtos do átomo do carbono, formado quando da existência do sol anterior ao nosso.

No copo de vinho do Porto, há a conjugação de macromoléculas que se juntaram na terra para dar origem à vida e há ainda a evolução do mundo vegetal, a evolução animal, até o homem, e a evolução técnica que permitiu ao ser humano extrair o sumo da uva e transformá-lo, através da fermentação, em vinho.

Hoje, existem técnicas mais evoluídas, mais sofisticadas, da informática, que permitem controlar, nos depósitos, a fermentação desse vinho que vai transformar-se em vinho do Porto.

Dito de outra maneira, num copo de vinho do Porto temos toda a história do Cosmos e, simultaneamente, a originalidade de uma bebida encontrada apenas na região do Douro."

Um copo de vinho do Porto! Tim tim!

Junto com as preocupações do dia, teve Exame de Suficiência da disciplina de Libras para um aluno, teve limpeza geral das pesadas na casa, teve atividade remota do Benjamin, teve a emoção de "Benedictus" por Karl Jenkins, teve Clarice, interações nos grupos de Whatsapp, disputa pelo primeiro lugar no Duolingo, teve o texto de Morin e tantas outras teias desse tecido complexo que é a vida...

Só na leitura do texto, fiz tantas viagens e links com outros textos lidos, literatura, filmes, experiências vividas com outras pessoas, sozinho... Alguns comentários que escrevi no texto:

"Queria fazer fotossíntese"; "Filme 'Nell", com Jodie Foster"; "Helen Keller, filósofa 'surda, muda e cega'"; "'[...] que o homem é o único ser vivo que acredita existir uma vida após a morte' e que é consciente dessa vida para a morte"; " e os 'sentimentos' dos elefantes quando um membro da manada morre?"; "Prometeu (o que olha para o futuro), Epimeteu (o que olha para o passado)"; "Filme 'Dr. Estranho' (o melhor neurocirurgião, impávido, perdeu o posto e teve que reaprender, foi moído, refeito e passou a não apenas ver o mundo de outro modo, mas a ver além, o multiuniverso"; "Sempre amei a ideia de 'pessoa enciclopédica': aquela capaz de falar de tudo, ainda que um pequeno verbete"; "Especialistas me assustam e me cansam, principalmente, os rígidos, inflexíveis"; "'Como adquirir a possibilidade de articular e organizar as informações sobre o mundo'"; "A fome na China, come-se animais exóticos, governo 'regula' esse mercado exótico, novos vírus, ex.: coronavírus"; "Complexus: o que se tece junto"; "'O paradigma da complexidade une enquanto distingue'"...

Eu poderia fazer outros tantos apontamentos e espero fazê-lo amanhã, na discussão e reflexão conjunta com os colegas de turma.

De novo, um copo de vinho do Porto. Tim tim!

domingo, maio 05, 2024

AVE MARIA

 



Esta não é a minha primeira produção escrita sobre Maria – e, não será a última. Desde que a conheci nos idos de 2002, na condição de aluno no segundo ano da graduação, Maria foi minha professora, na disciplina Didática II.

Naquele contexto, causou um frisson na turma de Pedagogia – ou a amavam, ou a odiavam! (A inteligência aliada a organização, clareza e autoconfiança, assusta!). Para mim, foi fascínio. “És fascinação!”. Como conclusão da disciplina, a professora pediu um texto acadêmico, no qual devíamos relatar nossa trajetória escolar.

Escrevi em meu blog, em 2005: “’Da pré-escola ao curso superior: entre o século XX e XXI’, texto apresentado à disciplina Didática II, ministrada pela Profa. Dra. Maria do Rosário Longo Mortatti, novembro de 2002” e sobre a professora, registrei: “um encanto de pessoa, pois respira e exala literatura”.

Numas das aulas na disciplina da pós-graduação, em 2006, num ato de coragem, eu pedi para ler “Sugestão”, poema de Cecília Meireles, pois Maria nos inspira a esquecer a timidez por um instante e espalhar poesia.

Em outubro de 2021, escrevi um texto sobre minhas percepções de leitura dos livros: “Mulher emudecida” e “Mulher umedecida”. Foram leituras impactantes, pois tive a oportunidade de humanizar a professora, figura sobre-humana, mas que ainda causa fascinação.

Nestes últimos anos – 2021 a 2024, Maria lançou livros de poesia, crônicas, ensaios e o objetivo principal deste texto é tecer algumas considerações sobre a leitura do livro “Prosa de leitora: sobre livros, autores e outros acepipes, volume 1”.

Minhas considerações sobre o conteúdo são as melhores: nomes, datas, fatos, percepções da autora-leitora. Um verdadeiro banquete, muito mais que um “acepipe” (aprendi o significado por conta do livro de Maria).

Aqui, tento seguir a fórmula de Maria, produzir uma prosa de leitor, o que a leitura de seus ensaios me provocou. Autores e histórias que já conhecia e Maria confirma alguns dados e percepções. Ainda sobre estes, apresenta novas informações que funcionam como luminárias possibilitando novos modos de ver/sentir este ou aquele autor, esta ou aquela história.

Ler a prosa de Maria, leitora profícua e incansável, produz conexões com nossas próprias vivências e leituras. Uma dessas conexões foi com um trecho de Bernardo Soares, do “Livro do Desassossego”, que muito me impressiona pela clareza e, consigo vincular a essência deste trecho com Maria e suas produções, todas!

O trecho é o que segue: “Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale [...]”. Maria diz! Maria sabe dizer! Maria sabe existir pela voz escrita e pela imagem intelectual: textos acadêmicos-científicos, prosas, ensaios, poemas e, tem construído firmemente sua herança – para a eternidade, de modo brilhante.

 

Deus me deu a palavra,

não uma palavra qualquer,

mas aquela potente arma alquímica

que fere, destrói, mata pessoas

e ilumina, preserva e pereniza paisagens

 

“Mulher qualquer, mulher” (2024), de Maria Mortatti, poema “A palavra”, (p. 76). Ah, esses versos! Como escrevi: passaram a habitar meu interior. Os versos e o poema todo, confirma: Maria sabe dizer! Com a palavra, Maria pereniza paisagens! E soube fazê-lo de cada autor, livro, história, nos ensaios em “Prosa de leitora”.

Gosto da organização, por exemplo, as datas ao final de cada texto (dd/mm/aaaa), pois, como nos anuncia, foram escritos para seu blog. E muitos dos textos foram motivados exatamente pelo calendário: “Os três de abril de 1616: Shakespeare, Cervantes e Inca”, versa sobre o Dia Mundial do Livro e foi escrito em 23.4.2023, dia em que estes três gigantes faleceram (no ano de 1616). “Bom dia, Lygia!”, escrito no primeiro ano de falecimento de Lygia Fagundes Telles (03.4.2023). Ou ainda, “Júlia Lopes de Almeida e a Cadeira 41 da ABL”, escrito em 30.5.2023, quando a autora homenageada faleceu em 30.5.1934.

Sobre Júlia, há uma crônica escrita por Cecília Meireles, em 1962, no livro “Escolha o seu sonho” (1972), em razão do centenário de aniversário de Dona Júlia (24.9.1862). Não é fascinante como os textos bem escritos e bem lidos relacionam-se e retroalimentam-se? Cecília Meireles, também foi tema dos ensaios de Maria, e citada em outros, como amiga de Gabriela Mistral, além dos versos de Cecília, abrirem o presente livro: “Teu bom pensamento longínquo me emociona./ Tu, que apenas me leste,/ acreditaste em mim, e me entendeste profundamente”.

Preciso registrar para a posteridade, ainda que este dado não seja relevante, mas foi significativo para mim, saber da homossexualidade de Gabriela Mistral, amiga de Cecília. Só fez minha admiração por Cecília crescer.

Como não amar as conexões de quem escreve e de quem lê, por exemplo, com o ensaio: “Uma história de dicionários: do ‘Capelino’ ao ‘Aurélio’”. Maria inicia o texto: “Não sou lexicógrafa, mas gosto muito de dicionários de vários tipos: gerais, temáticos, analógicos, etimológicos, bilíngues, plurilíngues, entre outros”.

Assim, associar este ensaio com a crônica “O livro da solidão”, de Cecília Meireles: “Não sei se muita gente haverá reparado nisso - mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo”.

Eu mesmo, semelhante amante de dicionários, tive a ousadia de escrever o poema “O menino que amava dicionários”, sendo o título, o único verso, pois o corpo do poema se transforma em verbetes: “amava, dicionário, o, menino, que”.

Poderia redigir comentários sobre cada um dos 54 ensaios e registrar as reverberações produzidas em mim, amante da Literatura e do objeto Livro, leitor de Cecília, Clarice, Umberto, Adriane, Maria.

Em outro momento de coragem, em 06 de novembro de 2020, aniversário de Maria, escrevi um “poema-presente", como ela mesmo chamou:

 

MARIA SEIS DO ONZE

 

Perigosa escorpiana

Sereia de canto ardil

A conheci unespiana

Aluno quase infantil.

 

Seu canto é literatura

Palavra é seu veneno

Elevado sou às alturas

Extasiado, feliz e sereno.

 

Palavras e canções ao cantil

Salve, salve tanta sagacidade

Escritora, poeta e outras mil

Saúde! Paz! Muitas felicidades!

 

André Coneglian

Londrina-PR, 06/11/2020

 

A título de conclusão deste pequeno texto, faço um apelo:

Leiam Maria! A que diz (escreve). A que sabe dizer e existir pela voz escrita e imagem intelectual.

Ave Maria!

 

5.5.2024

sábado, dezembro 23, 2023

MEU AMIGO ALÊ

 "Vocês me dão licença, vou me recolher..."

Estas foram as últimas palavras que ouvimos do amigo Alessandro.

Dia 22/11 [2023] recebemos a notícia de que ele estava com "câncer terminal".

Dia 24/11 [2023] a noite fomos visitá-lo em sua casa. Quando chegamos, ele estava dormindo. Ficamos conversando com Cleide, sua esposa e com Bia, irmã da Cleide.

Passados uns 40 minutos, Cleide o ajudou a levantar, para tomar remédio e ele veio caminhando do quarto para a sala.

Estava com uma crise de soluço há alguns dias...

Trocamos algumas palavras. Ele estava fisicamente debilitado, psicológica e emocionalmente abalado. Tomou o remédio e disse estas palavras para Paula e para mim: "Vocês me dão licença... preciso me recolher..." e voltou para o quarto.

Nove dias depois, Alê recolheu-se! Recolheu-se desta vida que conhecemos e que chamamos de "realidade". Cleide publicou em suas redes sociais, minutos depois dele partir: "Deus me deu, Deus tomou. Bendito seja o nome do Senhor", era o domingo 03/12 [2023].

No velório, ouvi: "ao menos não foram longos meses sofrendo..."

Uma pessoa boníssima. Realmente, não merecia qualquer tipo de sofrimento.

Descansou. Recolheu-se!

O grande problema, como sempre nestes casos, é de quem fica nesta realidade com a dor da ausência. A esposa, agora viúva, a filha, agora órfã de pai, os pais idosos que perderam o primogênito, irmão, sobrinhos, cunhados, concunhados, amigos do trabalho, da igreja, da vida...

A bíblia cristã, a qual tive como livro sagrado por quatro décadas, duas delas como cristão evangélico, registra que melhor é ir numa casa em luto que numa festa "pois a morte é o destino de todos; os vivos devem levar isso a sério", diz a continuação.

Devo discordar educada e respeitosamente.

Vivos devem viver. Viver intensamente, se assim o desejarem e tiverem saúde e condições para fazer. Ir a uma casa em luto, em respeito à dor dos que ficaram. Recolher-se quando sentir que é preciso, quando for necessário. O mundo já é cheio de restrições e dificuldades naturais. Não se pode deixar de fazer isto ou aquilo com medo do que vão pensar ou dizer. "Vamos nos permitir", pois um dia iremos nos recolher deste mundo.

Vamos amar! Semear amor, plantar amor, colher e recolher amor. Espalhar mais amor!

É preciso "festar" se tem desejo e possibilidade de fazê-lo, como escrevi. É preciso estar com aqueles e aquelas que colaboram com esta festa.

Cecília Meireles escreveu num contexto de desarmamento, de cultura de paz que: "Se fosse possível não ensinar a matar, - uma vez que para morrer todos nascemos já ensinados...". Desse modo, é preciso viver e festejar a vida! Pois a humanidade nasceu para morrer.

Triste fato! Nós, os vivos da vez, que lutemos para dar conta das ausências de pessoas queridas que já foram...



CARTA A CECÍLIA MEIRELES POR OCASIÃO DE SEU 122º ANIVERSÁRIO

Londrina-PR, 07 de novembro de 2023.

 


Querida Cecília,

         Escrevo esta carta, no dia do seu aniversário de 122 anos, para te dizer que pedi essa atividade para meus alunos do 5º Ano A, do reforço, da Escola Municipal Prof. Carlos Zewe Coimbra. Primeiro, eles escreveram um pequeno texto no caderno deles com sua biografia.

Desde que comecei como professor desta turma, eles foram informados do meu amor por você e por tudo o que você escreveu; eles conheceram alguns poemas do maravilhoso “Ou isto ou aquilo” e também outros poemas de outros livros.

Eu te conheci, conscientemente, aos 19 anos no ano de 2000, quando comprei o livro “Crônicas de Viagem, vol. 1”, ou seja, conheci primeiro sua prosa, só depois seus poemas.

Mas a verdade é que eu já tinha um livro seu de poemas na minha estante, uma antologia feita por sua filha caçula, Maria Fernanda. O livro era da biblioteca da escola onde estudei o Ensino Médio. Por algum motivo, o livro não voltou para a biblioteca e fará quase 30 anos que o livro está comigo.

Em 2007, quando fui pela primeira vez ao Rio de Janeiro, um dos meus objetivos principais da viagem era ir até o seu endereço, o último onde morou, Rua Smith de Vasconcelos, nº 30, no bairro de Cosme Velho.

Eu acreditei, de modo pueril, que, ao chegar na casa, alguém me recepcionaria e que me apresentaria e eu teria a oportunidade de conhecer o seu lar. Claro que isso não aconteceu. Tirei algumas fotos com uma câmera digital, fui embora meio triste, meio alegre.

Eu agradeço ao Universo por ter me apresentado a você e suas obras. Amo tudo, exatamente tudo o que você escreveu, o que já li e o que ainda não li, mas lerei um dia e tenho certeza que vou amar.

“Arte de ser feliz" e "História de Bem-te-vi” são as primeiras crônicas que tenho lembrança de ler e gravar em minha memória (depois de crónicas de viagem). Também gosto muito das crônicas “A 500 metros”, “Fim do mundo” e “Brinquedos incendiados”, mas como já escrevi, gosto de tudo o que você escreveu.

Os seus poemas italianos me fascinam e “Sugestão" é um poema que me marcou profundamente – “sede assim qualquer coisa,/ isenta, serena, fiel/ /não como o resto dos homens”. Também o poema “Reinvenção”, os versos, “a vida, a vida, a vida,/ mas a vida, só é possível reinventada”. Porém, você já sabe, amo tudo, tudo, tudo o que você escreveu.

Bem, para não me alongar muito, vou finalizar por aqui, feliz por poder comemorar seu aniversário de 122 anos hoje e de saber que você estará comigo todos dias aqui na Terra até o dia que em que eu virar poeira.

Muito obrigado por tudo!

 

André, seu leitor... 

domingo, outubro 08, 2023

"A BANDEJA DE SALOMÉ", DE ADRIANE GARCIA: NOTAS DE UM "JOVEM" ATEU

Farei igual ao Jack [Estripador]: vamos por partes!

1º) Não sou tão jovem de idade cronológica: nasci em janeiro de 1981, portanto, estou com 42 anos nesta data. Quando mais jovem, pensava, parecia e agia como um velho ranzinza. Fui melhorando ao longo dos anos, acredito. Um outro curioso caso de Benjamin Button, mas de pensamento, modo de entender, habitar e agir no mundo. Este mundo injusto e cruel!

2º) Sou um jovem ateu! Como eu cri no deus cristão, primeiro como católico - dos 9 aos 18 anos, depois como protestante - dos 18 aos 38, estou ateu no deus cristão e, por desconfiança, em qualquer outra divindade. Talvez, de modo poético, creio em Pachamama, ou adorarei crer - poeticamente - numa divindade que não exige nada, não prometa nada. Talvez, ainda, deva existir - poeticamente, uma Energia que nossa pequenez humana não pode dar conta, não consegue captar/capturar e portanto, não pode dar nome, nem nada...!

3º) As minhas notas sobre o livro "A bandeja de Salomé" são reflexos (reflexões) e reverberações que a leitura - minha, interior e pessoal, de poemas tão potentes causaram neste leitor, ex-cristão, crítico da vida e não de Literatura. Não tenho know how para nada, a verdade é essa!

Minha história com o cristianismo é cheia de peripécias. Meus avós maternos foram cristãos evangélicos pentecostais desde que me entendo por gente. Ternos, vestidos, bíblias debaixo dos braços, cultos fervorosos, orações em línguas estranhas. Na infância, a casa dos avós não tinha nem TV - caixa do demônio! Minha mãe fazia parte da orquestra da igreja, entretanto, sofreu punições por ter casado grávida (eu era o bebê). Com todos os traumas possíveis, dos julgamentos dos pais, dos "irmãos" na fé, minha mãe preferiu não ser fiel a nenhuma igreja. Seguiu a fé no deus cristão do seu modo particular, de casa.

Meu pai, avó e tios paternos, eram/são todos católicos apostólicos romanos por tradição, convicção ou comodismo. Na infância, tinha primos fervorosos, que moravam próximos de nós, assim, eu expressei o desejo de começar a frequentar a catequese para a primeira comunhão e tentei seguir o ritual - mesmo não me encaixando (não adorei a Virgem Maria, não fui devoto de nenhum santo católico, odiava me confessar ao padre e só o fiz duas vezes por obrigação aos rituais), até meus 18 anos.

Quando fui convencido - por minhas histerias, medos e crenças limitantes da época, que só havia uma única "religião" correta: a que pratica o fã clube de Jesus. Foram longos 20 anos, em três igrejas protestantes (duas em Marília-SP e uma aqui em Londrina-PR). O problema dessa galera é querer converter todo mundo para seu clubinho, apontando que o jeito de ser, habitar e agir no mundo das pessoas diferentes deles é errado, pecaminoso, blá, blá, blá... Eles são os carnívoros da "cadeia alimentar religiosa". Triste constatação, mas contra fatos não há argumentos!

Óbvio que nessa trajetória do protestantismo conheci pessoas incríveis, tive experiências maravilhosas, mas como aconselhou o chato do apóstolo Paulo é preciso "reter o que é bom".

Desse modo, os personagens dos poemas de Adriane Garcia, me são familiares, como para qualquer cristão que lê e estuda a bíblia. Infelizmente, esses "crentes fervorosos" não terão coragem de enfrentar a leitura dos poemas de Adriane. Se o fizerem, será apenas para reforçar que a poeta é uma blasfemadora.

Capa do Livro

Orelha do livro

Amei cada poema! Vibrei ao encontrar toda referência ao deus todo poderoso, assim mesmo, em minúsculo: deus. E, todo horror causado por ele ou em nome dele, ganhar uma lente de aumento ou foco a partir do ponto de vista das vítimas, especialmente das mulheres.

Citaria todos os poemas - aliás, senti falta no livro de um sumário com os títulos e suas respectivas páginas - mas isso é perfumaria. Sem contar, que é uma edição bilíngue - Português/Espanhol, com tradução de Manuel Barrós, um jovem peruano que também traduz Cecília Meireles - sempre ela, Deusa! - para sua língua materna. Como não vou citar todos os poemas, leiam o livro!

Vou tecer alguns comentários sobre aqueles que me chocaram! O primeiro, que conheci, inclusive, no pré-lançamento do livro, ano passado, por meio das redes sociais de Adriane, é "A metáfora de Agar", ou seja, a poeta resgata a história de Abrão, Sarai e a serva estrangeira, história que sabemos, nasce o conflito entre Ismael e Israel - cada qual entendendo que são o filho da promessa desse deus maluco. Escrevo um dia depois de novos conflitos entre palestinos e israelenses.

"Tudo são metáforas./ Mas onde encaixamos o estupro?" Adriane encerra o poema com esta pergunta que pode encerrar tantas outras histórias bíblicas ou não bíblicas de mulheres. Por exemplo "O testemunho das filhas de Ló", acusadas no relato bíblico de terem "coabitado" com o pai, relação incestuosa da qual nascem dois descendentes e, consequentemente, dois povos, inimigos dos israelitas: moabitas e amonitas.

"A cor dos olhos de Lia", a irmã "feia" e vesga de Raquel, quem Jacó amava de verdade, mas submeteu-se aos anseios gananciosos de Labão, pai de ambas. Enfim, essa novela mexicana, da qual descendem as doze tribos de Jacó, com quatro mulheres diferentes - Lia, Raquel e suas servas. Como a gente naturaliza esses procedimentos todos, no sentido, eram práticas da época, culturais, blá, blá, blá... Viva Adriane, que nos presenteia com outra perspectiva.

"A razão de Raabe", prostituta de Jericó, que sobreviveu à queda da muralha de Jericó, salvando sua família e entrando para a genealogia de Jesus. Que reviravolta, Adriane! Meu queixo caiu com o desfecho desse poema!

A tocante história - não deixa de ser - de Rute e Noemi, porém, revisitada, recontada pela própria Rute. "O nojo de Betsabé", aquela que Davi cobiçou e tomou, do soldado que depois morreu. Junto com um poema anterior "O espelho de Mical", ambos poemas demonstram como a maioria dos homens cis-héteros, se relacionam com o "sexo oposto". Só isso, sexo, mas amam outros homens!

"A confissão da outra mãe", poema que reescreve a disputa das duas mães resolvida pelo "sábio" rei Salomão, sobre o bebê que a OUTRA mãe roubou em função da morte do seu bebê. Foi um verdadeiro "plot twist"!

"O método da mulher de Ló", meu senhor da goiabeira, que CHO-CAN-TE e TO-CAN-TE, ao mesmo tempo e te leva a pensar em tantos modos de tirar a própria vida, por não suportar mais a opressão desse mundo - repitam comigo: injusto e cruel, especialmente com mulheres e crianças.

"O ódio de Herodias", "A palavra de Maria", "A generosidade da boa samaritana" e todos, encerrados com o poema que dá título ao livro: "A bandeja de Salomé". Mesmo que de modo literário, é satisfatório, ver que na bandeja de Salomé estão tantas cabeças, que usaram poder, influência, sobrenome, status social para oprimir mulheres, crianças e outros vulneráveis.

Eu, jovem ateu, encerro, as notas desta leitura impactante, de uma poeta contemporânea, cujo primeiro livro que li, em forma de e-book, "Estive no fim do mundo e me lembrei de você", poesia pura no título - que título é esse? Enfim, Adriane, tem a capacidade de me impactar com seu modo de entender, habitar e agir no mundo, este mundo injusto e cruel, que castiga a TODOS, mas fere mortalmente os que SENTEM!

segunda-feira, setembro 18, 2023

SOBRE "CÂNDIDO OU O OTIMISMO"

 Terminei de ler hoje (18/09/2023), o "Cândido ou o Otimismo", de Voltaire, depois de descobrir que eu tinha uma linda edição de 1983, com tradução de ninguém mais, ninguém menos de Mário Quintana, em minha estante pessoal (Voltaire - Contos, foto abaixo). Foi a amiga - hermana - Sílvia Brandão que me falou sobre este texto quando ambos habitávamos o "mundo invertido" em que fomos parar em maio de 2022.





É provável que nossa conversa versava sobre a positividade tóxica que permeia muitos dos nossos ambientes, seja por meio dos coaches ou de líderes "espirituais". Lembro-me de ficar com o nome de "Pangloss" gravado na memória dessa conversa e, é, segundo o texto altamente irônico e "improvável" de Voltaire, o filósofo com o qual Cândido confia seu modo de existir no mundo e enfrentar as tremendas dificuldades pelas quais passa até finalmente resolver seu maior dilema, com sua amada Cunegundes.





Entre tantos fatos e acontecimentos de lá para cá - da indicação da hermana Sílvia para eu encerrar a leitura, as muitas conexões cerebrais, na mudança de casa para o apartamento, veio um clique: tenho um livro de Voltaire na minha estante... quem sabe, por um lance de sorte, não esteja neste livro o "Cândido". Bingo!




É estranha a sensação de ler um texto escrito no século XVIII e, nesta edição que tenho, traz um texto introdutório com informações sobre o contexto em que foi escrito, o que favorece uma leitura mais significativa ou com detalhes que fazem a diferença no entendimento geral da obra.

Eu teria mil considerações sobre a experiência de leitura e seu conteúdo especialmente neste meu tempo de descrença em deus cristão ou qualquer outra divindade. Escrevo este texto um dia após receber a triste notícia do falecimento do meu tio e padrinho, Élio, irmão de meu pai. Mais chocante foi saber as circunstâncias em que foi encontrado. Escreverei outro texto sobre meu padrinho, em momento oportuno, um modo de tentar elaborar o luto.

Neste texto, o intuito é mostrar um único trecho do livro e a relação que fiz com um poema de Manuel Bandeira, que já postei duas ou três vezes nas minhas redes sociais, desde que o conheci. O trecho do livro é o que segue:

XII

Continuação das desgraças da velha

[...] Envelheci na miséria e no opróbrio, não tendo mais que a metade do traseiro, e sempre a lembrar-me de que era filha de um papa; cem vezes quis matar-me, mas ainda amava a vida. Essa ridícula fraqueza é talvez um dos nossos pendores mais funestos: pois haverá coisa mais tola do que carregar continuamente um fardo que sempre se quer lançar por terra? Ter horror à própria existência e apegar-se a ela? Acariciar, enfim, a serpente que nos devora, até que nos haja engolido o coração?" (p. 178).


É extremamente forte essa "imagem" sobre existir, especialmente, a existência de pessoas que padecem, sofrem, do início ao fim da vida neste plano (crueldade maior se existir outros planos!). Destaco o verbo "apegar-se" que se conecta direta e certeiramente com o poema "A vida assim nos afeiçoa" (Manuel Bandeira). Apegar-se à existência! Afeiçoar-se à vida! Destaco a primeira e última estrofe do referido poema:

Se fosse dor tudo na vida,/ Seria a morte o grande bem./ Libertadora apetecida,/ A alma dir-lhe-ia, ansiosa: 'Vem!

[...]

A vida assim nos afeiçoa,/ Prende. Antes fosse toda fel!/ Que ao se mostrar às vezes boa,/ Ela requinta em ser cruel...


Como escrevi acima, teria mil considerações sobre o texto de 1758/1759, repleto de reviravoltas - plot twist, diriam os mais novos, como aprendi, com os meus alunos universitários de outrora e acontecimentos mirabolantes. O final inesperado - pois em meu interior já tinha criado mil e uma finalizações drásticas, levando em consideração todo o enredo. Entretanto, o final ainda que inesperado, foi adequado, talvez.

Disse que citaria apenas um trecho - pois somos TODOS, SEM EXCEÇÃO, seres contraditórios - mas não quero finalizar o meu texto sem falar sobre o final de Cândido e à "conclusão" que seus companheiros e empregados chegam, inclusive Pangloss:

" - Também sei - disse Cândido - que é preciso cultivar nosso jardim.

- Tens razão - disse Pangloss -, pois, quando o homem foi posto no jardim do Éden, ali foi posto ut operaretur eum*, para que trabalhasse; o que prova que o homem não nasceu para o repouso.

- Trabalhemos sem filosofar - disse Martinho; - é a única maneira de tornar a vida suportável." (p. 235/236).

E cá estou eu, fazendo o quê? Praticando filosofia barata...

P.s: em tempo: Pangloss vai tomar no c*

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* Latim ut operaretur eum: para servir