O
autoconhecimento é uma jornada fascinante para quem a iniciou, pois conseguiu desbravar
os primeiros trechos dessa caminhada, dos quais muitos trechos são assustadores
e paralisantes.
É
muito cômodo e confortável permanecer onde se está, ainda que este lugar seja
de angústia e sofrimento, porém, para a pessoa o pensamento é: são angústias e
sofrimentos conhecidos, por isso são passíveis de serem suportados.
Todavia,
quando o lugar de angústia e sofrimento não é mais suportável, é preciso dar um
passo adiante. Um passo de coragem para o autoconhecimento. Caso contrário, a
pessoa pode acabar com o sofrimento tirando a própria vida.
A
superdotação é uma diferença marcante no ser humano, faz parte do leque da
diversidade do ser humano e pode se manifestar nas mais variadas configurações,
considerando a idiossincrasia de cada pessoa: personalidade, família, educação,
cultura e outras influências.
Nesse
sentido, a superdotação sabida e conhecida de uma pessoa, seja ela criança, jovem,
adulto ou idoso é diferente da superdotação nas pessoas que não são conscientes
que a sua diferença – pois se sentem estranhos – tem um nome!
Proponho-me,
novamente e quantas vezes forem necessárias – para mim mesmo, como catarse, também
para favorecer a reflexão em outras pessoas e famílias, relatar o meu processo
de autoconhecimento e como nos tornamos, Paula, Lorenzo, Benjamin e eu, sabedores
da nossa superdotação.
Primeiro:
superdotação não é glamour!
Segundo:
superdotação não é glamour!
Terceiro:
superdotação não é glamour!
Talvez,
no imaginário das pessoas ser superdotado deve ser “um sonho de consumo”, uma
benção, uma dádiva, um privilégio, uma vantagem. Assim como em outras
diferenças no ser humano, há sim vantagens e desvantagens, prós e contras.
Permanecendo
no advérbio de dúvida, talvez, num mundo idealizado por pessoas superdotadas,
seja maravilhoso todos os dias ser uma pessoa superdotada, a ponto de não
precisar lembrar a esta sociedade perfeita que somos superdotados.
O
mundo tal como ele é não é favorável às diferenças. Constantemente, a dinâmica
da vida real, dos sistemas que regem a vida cotidiana, perseguem uma
padronização, uma massificação, tentam grudar nas pessoas rótulos que sejam “aceitáveis”.
A
superdotação na nossa vida familiar chegou no ano de 2015, quando Lorenzo tinha
quatro anos de idade. Chegou de um modo assustador: uma gastrite nervosa e
princípio de depressão na criança de quatro anos. Investigadas, medicadas e
tratadas as questões de saúde física e psicológica, iniciamos o processo de
investigação: porque uma criança tão pequena sofre com questões que não são
para sua idade?
Depois
de oito sessões com uma psicóloga e uma psicopedagoga, o relatório que nos foi
entregue apontava indicadores de altas habilidades/superdotação, porém, pela
idade do Lorenzo estava aberta a questão. Era preciso esperar a idade de seis
anos, repetir alguns testes e fazer outros novos, por exemplo, o WISC-IV.
Quando
os testes foram finalizados, aos seis anos de idade, a diferença do Lorenzo
recebeu um nome: altas habilidades/superdotação, perfil acadêmico-intelectual. Desde
então, a nossa busca como pais foi para que a vida escolar, principalmente, não
fosse feita somente de frustrações: já sei ler e escrever, já sei os números e
as principais operações aritméticas, gosto de palavras cruzadas, já leio livros
mais complexos, interesso-me por planetas e elementos químicos.
Lembram-se
dos rótulos e padrões que a vida e seus sistemas tentam nos grudar o tempo
todo? Na biblioteca da escola, por exemplo, eram disponibilizados para o 1º Ano
do Ensino Fundamental, livros “apropriados” para crianças em fase inicial de
alfabetização. Os alunos não tinham o direito de emprestar outros livros, que
não aqueles separados para esse fim. E estou citando somente uma “simples”
questão de outras mil que tivemos que enfrentar.
Deixarei
de escrever sobre a superdotação do Lorenzo a partir daqui, porém, por conta
dele, que fomos conduzidos por caminhos que nos levaram ao Ensino Público da
Rede Municipal da Educação de Londrina, ao Atendimento Educacional
Especializado, específico para alunos com Altas Habilidades/Superdotação, à
Associação Londrinense de incentivo ao Talento e Altas Habilidades/Superdotação,
a qual tive o privilégio de ser presidente na gestão de 2017/2019 e acesso a
tantas famílias e histórias relacionadas à AHSD bem diferentes da nossa
história – pois cada família é ímpar, cada sujeito é único.
No
ano de 2018, minha esposa conheceu Patrícia Neumann, a palestrante se
apresentou como superdotada, condição descoberta na vida adulta e ministrou um minicurso
acerca da “sobre-excitabilidade emocional”. Foi o suficiente para Paula me
apresentar à Patrícia e menos de um mês depois, estava eu iniciando e finalizando
o processo de avaliação psicoeducacional sobre minha superdotação.
Na
época eu estava com 37 anos de idade. Sim, foi uma mudança enorme na percepção
de vida, minha relação com o mundo, o conhecimento. Eu sabia porque tinha sido
um peixe fora d’água de praticamente todos os ambientes que frequentara. Altas Habilidades/Superdotação,
perfil acadêmico-intelectual.
Paula
seguiu um percurso diferente. Sabia da sua condição diferenciada a vida
inteira, porém, precisou fazer terapia para compreender sua desestabilidade
psicológica e criar coragem para o processo de avaliação da sua superdotação. Ao
final do processo, apontava um perfil totalmente diferente da superdotação do
Lorenzo e minha. Paula é superdotada de perfil criativo-produtiva e nos
Esportes, finalizou a avaliação em dezembro de 2019, quase às vésperas de Natal.
Por
fim e não é aqui que eu termino esse relato, a superdotação do nosso caçula, o
Benjamin. Cada história é muito singular. Benjamin, segundo filho, igualmente
desejado e planejado, na gestação do sexto para o sétimo mês, Paula teve
toxoplasmose. A finalização da gravidez, o parto e as primeiras semanas foram
sofridas para todos nós, especialmente para o bebê. Muitos exames, internações,
“n” protocolos para descartar as sequelas da toxoplasmose gestacional.
Ainda
que todos os exames fossem favoráveis à condição de saúde, Benjamin foi
considerado bebê com toxoplasmose congênita até os dois anos de idade, quando
recebeu alta do acompanhamento clínico-médico. Nosso olhar para ele era outro,
um olhar diferente quase oposto ao que direcionávamos para Lorenzo, de
super-proteção.
Benjamin
cresceu com um irmão 3 anos e meio mais velho, irmão cheio de atividades
intensas, muitos compromissos escolares e extraescolares, enquanto que os
compromissos do Benjamin era com exames e hospitais. Entretanto, quando nos
voltamos para aqueles dias, é possível dizer que Benjamin enfrentava sua
questão “particular” de saúde com uma maturidade fantástica para uma criança da
sua idade. Ele não fugia dos “jalecos brancos”, não gritava com as agulhas e
injeções.
A
Educação Infantil do Benjamin foi pautada pela dinâmica escolar do Lorenzo. O primeiro
ano de berçário foi na mesma escola que Lorenzo estudava há quatro anos. Quando
mudamos de bairro e, portanto, de escola, escolhemos uma escola para o perfil
do Lorenzo e que, obviamente, também atendia o perfil do Benjamin.
Ficaram
nessa escola somente um semestre. Precisamos tirar Lorenzo de forma abrupta –
pois havia quebrado a perna, estava cadeirante, a escola não tinha acessibilidade
arquitetônica, muito menos boa vontade de promover nenhuma mudança atitudinal
para acolher a condição temporária dele. Assim, tiramos ambos dessa escola –
que foi processada e obrigada pelo Ministério Público para se adequar às normas
mínimas de acessibilidade.
No
dia seguinte, Lorenzo estava matriculado no 2º Ano do Ensino Fundamental na
escola pública. Benjamin ficou sem escola, sem professora, sem amigos até o
início do próximo ano letivo. E foi nessa escola de educação infantil, no ano
de 2018, com uma excelente professora, que Benjamin passou a demonstrar seu
potencial. Na escola, ele era a referência dos demais colegas: “O Benjamin
sabe!” e esperavam suas manifestações. Em casa, ele disfarçava, não respondia
nossos questionamentos. Na escola contava até sessenta, em casa até vinte. Era como
se não pudesse saber muito, pois alguém já tinha esse lugar!
Benjamin estudou 2019 numa escola e neste ano está em outra escola. Matriculamos Lorenzo em outra escola no final de 2018 e ficou nessa escola o ano letivo de 2019 inteiro, onde passou pelo processo de aceleração no mês de abril, do 4o. para o 5o. Ano do Ensino Fundamental, pois estava frustrado novamente com a escola. No final de 2019 prestou o processo seletivo para o II Colégio da Polícia Militar de Londrina, com mais de 1000 candidatos para 90 vagas e conquistou a primeira vaga, das 45 direcionadas à população em geral (as outras 45 são destinadas para filhos de militares), assim, com nove anos de idade, iniciou o 6o. Ano do Ensino Fundamental.
Neste
ano (2020), quando Benjamin completou seis anos de idade (14/06/2020), iniciamos o processo
de avaliação sobre AHSD. Resultado: Benjamin é superdotado, perfil misto,
produtivo-criativo e acadêmico-intelectual. Um perfil mais “livre”, de
necessidade criativa, latente e permanente. No caso específico dele, mistura de
tintas, substâncias, elementos, cortar, colar, juntar.
Aqui,
é importante parar numa reflexão extremamente salutar. No que diz respeito
exclusivamente a crianças com AHSD, há pesquisas e artigos que relatam “a síndrome
do segundo filho”, em que pese a AHSD do primogênito na dinâmica familiar e os
pais não estão atentos aos indicadores da AHSD do segundo, terceiro filhos. Pois
podem ser AHSD com outro perfil.
Quero
expandir a reflexão para as famílias que possuem qualquer diferença,
especialmente, crianças e jovens com necessidades especiais, sejam elas quais
forem. É possível que os adultos, preocupados com essa criança e o ritmo
diferenciado que as necessidades dela podem demandar, se esqueçam de dedicar
tempo de qualidade com os demais filhos ou outros membros da família. E não o
fazem conscientemente!
Haja
vista nossa dinâmica com foco nas atividades do Lorenzo e, também, nosso foco
com as questões da toxoplasmose congênita do Benjamin. Há pesquisas e artigos
sobre a dinâmica de famílias com crianças com deficiências ou outras necessidades
com foco nos irmãos que não possuem deficiência. Uma busca rápida no Google ou
outros buscadores listará alguns artigos.
Dentre
tantas referências, gosto de citar um filme, em que a irmã mais nova se
manifesta em diálogos com a mãe e com a própria irmã surdacega. O filme é “Black”
(2005), de Bollywood, produção indiana. O filme é baseado na história da Helen
Keller, surdacega norte-americana e sua tutora Anne Sullivan (O Milagre de Anne
Sullivan, filme de 1962).
Para
concluir esse texto, respondo um questionamento feito num grupo de whatsapp de
adultos superdotados. A pergunta foi se nós adultos superdotados com filhos contamos
ou não sobre a nossa condição de superdotação. No nosso caso particular, foi a superdotação
do nosso filho mais velho que nos conduziu todos a nossa própria superdotação e
sempre fomos totalmente transparentes.
Os
filhos têm direito de saber que seus pais não são “normais” (típicos). Os pais
tem o dever de promover o caminho do autoconhecimento aos filhos. Conheci uma
mãe, cujo filho tem AHSD e decidiu, juntamente com a psicóloga do filho, não
contar a ele sobre sua condição. Na época ele devia ter nove ou dez anos de
idade. Eu rebati: você não tem o direito de negar essa informação dele. A mãe:
tenho sim, sou a mãe dele! Não quero que ele seja estigmatizado na escola e na
família. Eu ainda tentei: ele já sabe que é diferente, precisa saber o nome da
diferença dele. Acredito que até hoje, esse garoto não saiba da sua condição de
superdotado.
É
preciso tratar com naturalidade aquilo que é natural nas pessoas. Ser superdotado
é natural para quem é superdotado. Não é normal ou natural para a sociedade,
que insiste em padronizar, massificar, rotular. Para desconstruirmos essa
insistente tentativa, precisamos tratar com naturalidade em nosso ambiente
familiar, em nossos meios sociais para que as pessoas, no mínimo, respeitem
nosso modo de ser e viver no mundo!
E você, que me conta sobre tudo isso? Sua experiência?